Após fuga de Bolsonaro, Milei está isolado na região, diz analista internacional
A fuga do ex-candidato à Presidência do Brasil, Flávio Bolsonaro, deixou o presidente argentino Javier Milei “isolado” no cenário político regional, na avaliação da cientista política colombiana Sandra Borda, da Universidade de los Andes, de Bogotá. Em entrevista ao Clarín em Português, Borda, que integra o Conversatório Latino-Americano (Conlat), observou que Milei foi a exceção entre os presidentes de direita e de extrema-direita que, de uma forma ou outra, parabenizaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva por sua reeleição.
Até Bukele
De fato, até os líderes definidos como muito próximos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como o colombiano Abelardo de la Espriella, reconheceram o resultado eleitoral no Brasil. Além disso, todos os que integram o chamado ‘Escudo das Américas’ também enviaram mensagens ou telefonaram para Lula ou fizeram postagens em suas redes sociais felicitando o presidente brasileiro e a vitória democrática. Foi o caso dos presidentes da Bolívia, do Chile, do Paraguai e do Peru, entre outros.
Na quinta-feira, depois que Nayib Bukele, de El Salvador, admirado pela extrema-direita brasileira, parabenizou Lula e falou sobre a importância de se fortalecer “a relação de amizade e a cooperação”, Milei ficou ainda mais sozinho.
Democracia e soberania
Na visão de Sandra Borda, a eleição de Lula “abre uma janela importante” para a esquerda e a centro-esquerda da região, após a série de eleições de presidentes de direita e de extrema-direita na América Latina. “Hoje, o Brasil, o México e o Uruguai estão na mesma sintonia. Mas a importância do resultado eleitoral (brasileiro) na região não seria o mesmo se estivéssemos falando sobre outro país, com menor população e menores dimensões territoriais, como o Uruguai, por exemplo.”, disse Borda, falando de Bogotá.
Na sua visão, porém, a América Latina e o Caribe vivem hoje um de seus maiores desafios em termos de soberania. “A soberania era um bem inegociável de cada país e na relação com os Estados Unidos. Mas a sensação que tenho agora é que houve um retrocesso. E agora a soberania já não é um ponto de partida, mas de negociação. E nos exige negociar com os Estados Unidos e também com a China”, disse.
China e Estados Unidos
Para ela, no caso da China, são questões pontuais, como quando são realizadas obras de infraestrutura nos países latino-americanos e é preciso negociar os termos em vigor, como as regras de meio ambiente. “Nossas regras de jogo são diferentes, mas acabamos negociando e para manter a soberania”, afirmou. Mas em relação aos Estado Unidos, a situação é muito mais séria, observou. “No caso da Colômbia, é claro: ‘vou te ceder a soberania’ em troca do que preciso´. E com isso, (a Colômbia) abre o espaço territorial para a entrada de tropas norte-americanas sem as regras e as exigências correspondentes e em vigor na Colômbia”, disse.
A eleição de Lula e o “projeto hegemônico dos EUA”
Para ela, neste tabuleiro regional na relação com os Estados Unidos, a eleição de Lula foi “muito positiva”. “Sem dúvida, muito positiva porque deixa uma janela aberta para os latino-americanos em vários sentidos. Primeiro porque elimina a possibilidade de unanimidade diante do projeto hegemônico com Estados Unidos na região.” Ela ratifica que o Brasil e o México, além do Uruguai, são os únicos que hoje não aceitam “esse projeto” norte-americano. “Sem o Brasil neste cenário, esta resistência ao projeto hegemônico, teria ficado só nas mãos do México e o México já está passando por uma situação difícil porque está ali ao lado dos Estados Unidos”, disse.
O tamanho do Brasil
Doutora em Ciência Política pela Universidade de Minnesota, magister em Ciência Política pela Universidade de Wisconsin e magister em Relações Internacionais pela Universidade de Chicago, Sandra Borda enfatiza as dimensões do Brasil e a importância da eleição de Lula. “A eleição de Lula abre espaço para que os líderes da direita não estejam pendentes de Trump. Porque se no futuro, um líder da nossa região não pode dizer sim a Washington, sabe que tem espaço (com o Brasil)”, disse. Para ela, ao reconhecerem a eleição de Lula, os presidentes da direita e da extrema-direita (à exceção de Milei) mostraram “pragmatismo” e “flexibilidade” daqui para frente.
Investimentos da China e a “retórica” dos EUA
Ela cita como exemplo dessa necessária flexibilidade o fato de que o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, ser um aliado de líderes da direita regional. Mas que no caso do Peru, para ilustrar esta necessidade de flexibilidade, Keiko Fujimori não poderia expulsar os investimentos chineses no megaporto de Chancay. Ou seja, a retórica do forte vínculo com o governo Trump, nota a analista colombiana, tem seus limites. “Você acha que o Peru vai eliminar o investimento da China? Em troca de quê?”, disse. “Isso não vai acontecer.” No caso da Colômbia, apesar das declarações de simpatia do presidente colombiano e de iniciativas que poderiam abrir as portas para a maior presença militar dos EUA no país, “não houve nada em troca”. “Esta semana chegaram 300 soldados norte-americanos que fazem parte de uma operação conjunta. Mas é só isso e nada, nada mais”, afirmou. “Anunciaram milhões e milhões de dólares (de investimentos dos EUA) na campanha, mas nada disso aconteceu”, disse.
Retórica
Para a catedrática colombiana, os líderes da direita e da extrema-direita “dizem tudo que todos querem ouvir”, mas o conteúdo acaba ficando em palavras e não em realizações. Ela entende que o raciocínio dos presidentes da América Latina que aderiram ao chamado ‘Escudo das Américas’ e que têm participado de reuniões com Trump, Rubio e equipes, é simples. “Querem que eu esteja no Escudo das Américas, vou. Vou às reuniões. Mas não vou abrir mão da relação com outros países (China e Brasil, por exemplo)”, disse.
“Movimento novo”
A democracia e a soberania, lembrou, serão os temas da reunião do Conversatório Latino-Americano, no mês que vem, no Rio de Janeiro. A especialista ressalta que esta atitude responde também ao fato de que o governo norte-americano nada ou quase nada tenha dado em troca destas demandas de lealdade. “Acho que estão optando pelo não isolamento. Então, eles ficam no discurso histriônico, na retórica, mas na pratica não vão se limitar à relação com os Estados Unidos. Estamos vendo uma movimentação nova e muito interessante.”.
Milei, isolado
O presidente da Argentina, Javier Milei, fica isolado neste cenário, na visão da entrevistada. “Milei fez uma aposta forte demais, pela vitória de Flávio Bolsonaro e de distanciamento de Lula. Hoje, Milei não tem a flexibilidade estratégica que sim têm os outros presidentes da direita da região. Ele participou de um evento de campanha de Bolsonaro (em São Paulo) e insultou o presidente Lula daquela maneira e agora ficou complicado para ele”, disse a analista colombiano. A especialista notou ainda que as declarações de Trump, depois da eleição no Brasil, não foram tão fortes como provavelmente o próprio Milei esperava. “Além disso, para Trump, apesar das declarações que fez sobre a eleição brasileira, que foram mais suaves que o esperado, também disse que Lula é um cara legal”, disse. Ao mesmo tempo, observou, depois que os presidente da direita e da extrema-direita da América Latina reconheceram o resultado da vitória de Lula, o governo norte-americano não disse nada, não os reprovou pela atitude.
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