Educação Atraso escolar atinge 17,6% dos alunos do ensino médio público, e Ana Carolina Borges Torrealba Affonso destaca projetos sociais como apoio à aprendizagem
O atraso escolar continua sendo um dos desafios da educação brasileira, mesmo com a ampliação do acesso à escola. Em 2025, 17,6% dos estudantes do ensino médio da rede pública apresentavam distorção idade-série, indicador que identifica alunos com dois ou mais anos de atraso em relação à etapa adequada. O dado, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), reforça a discussão sobre as condições necessárias para garantir não apenas a matrícula, mas também a continuidade da aprendizagem.
Para Ana Carolina Borges Torrealba Affonso, fundadora da Casa Arte Vida (CAV), organização criada em 2007 para desenvolver atividades socioeducativas com crianças e adolescentes de baixa renda na zona oeste do Rio de Janeiro, projetos sociais podem complementar o trabalho das escolas ao ampliar o acesso a experiências educativas, culturais e tecnológicas. A atuação, segundo ela, deve considerar as necessidades das famílias e as características das comunidades atendidas.
Desigualdades que afetam a aprendizagem
O Brasil ampliou o acesso à educação básica, mas ainda enfrenta problemas relacionados à permanência na escola e à qualidade do ensino, conforme aponta Ana Carolina. “Parte dos estudantes frequenta as aulas sem consolidar conhecimentos essenciais, enquanto outros acumulam reprovações e abandonam os estudos. A distorção idade-série, quando o aluno tem dois ou mais anos de atraso em relação à etapa adequada, é um dos indicadores desse percurso desigual.”
Dados do Censo Escolar de 2020 apontaram 5,8 milhões de crianças e adolescentes das redes estaduais e municipais nessa condição. O número retrata naquele período e evidencia como reprovações, interrupções e dificuldades de aprendizagem podem comprometer a progressão escolar. A situação tem diferentes causas. Racismo, discriminação contra pessoas LGBT, barreiras enfrentadas por estudantes com deficiência, gravidez na adolescência e necessidade de trabalhar também podem afastar crianças e jovens do ambiente escolar.
De acordo com Ana, projetos sociais não substituem a responsabilidade do poder público nem o papel dos professores. “Sua contribuição é complementar, aproximando famílias, escolas e organizações locais e oferecendo experiências que nem sempre cabem na rotina escolar. Quando consideram a realidade do território e as necessidades dos participantes, podem fortalecer a participação e apoiar trajetórias de aprendizagem.”
Atividades que conectam educação e cotidiano
Na Casa Arte Vida, a Educação Complementar atende crianças de 5 a 12 anos no contraturno escolar. A proposta reúne atividades socioeducativas, alimentação nutritiva e acompanhamento psicossocial. “A combinação considera diferentes aspectos do desenvolvimento infantil, já que aprender também depende de condições de cuidado e convivência”, afirma Ana.
Para adolescentes, o programa CRIA, sigla para Criatividade, Robótica, Inovação e Arte, integra experiências tecnológicas, artísticas e reflexivas. Voltada a participantes de 12 a 18 anos, a iniciativa incentiva o protagonismo juvenil e a conexão com suas raízes. A filantropa destaca que ao reunir diferentes linguagens, abre espaço para que os jovens experimentem formas de expressão e participem do próprio processo de aprendizagem.
Outro eixo é o Maker Lab, ambiente de experimentação prática que combina tecnologia, design, sustentabilidade e pensamento lógico. Nas atividades, os estudantes trabalham com problemas reais e elaboram soluções de maneira criativa e cooperativa.
Tecnologia e novas competências
Ana Carolina explica que a expansão da inteligência artificial e da automação acrescenta desafios à educação. “Essas ferramentas tendem a exigir familiaridade tecnológica, capacidade de análise, criatividade e flexibilidade. Experiências que estimulam investigação, colaboração e resolução de problemas podem complementar o aprendizado tradicional”.
O alcance de iniciativas como a CAV depende de continuidade, planejamento e articulação comunitária. A atuação local permite identificar necessidades e mobilizar recursos disponíveis, mas resultados duradouros exigem compromisso e transparência. Projetos de baixo custo podem desenvolver ações relevantes quando utilizam metodologias adequadas ao território.
A experiência da Casa Arte Vida, criada por Ana Carolina, mostra como uma iniciativa comunitária pode organizar atividades complementares em torno desse objetivo, em diferentes contextos.
“A redução das desigualdades educacionais exige políticas públicas, escolas preparadas, participação das famílias e oportunidades de aprendizagem para além da sala de aula. Nesse conjunto, projetos sociais podem contribuir para que crianças e jovens permaneçam vinculados à educação, explorem interesses e desenvolvam habilidades”, concluiu.
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