Dia de Finados: quando a democracia foi enterrada de vez

A Ética e a Democracia foram enterradas. Resta decidir se vamos continuar levando flores ao cemitério ou se ainda há tempo de resgatar o que restou antes que o próximo defunto seja a própria liberdade. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)
O dia 2 de novembro que se aproxima é o Dia de Finados. Tradição brasileira de visitar túmulos, levar flores e lembrar os que partiram. Em 2010, escrevi que prestava homenagem ao mais recente defunto nacional: a Ética, executada a queima-roupa nas urnas no dia 31 de outubro daquele ano. Cinquenta e cinco milhões de brasileiros, anestesiados por um momento econômico favorável e pelo desprezo petista aos valores básicos, deram a vitória a Dilma. Venceu Macunaíma, o herói sem caráter. Ficou a herança maldita de que a ética não tem lugar na política.
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Quinze anos depois, o cemitério cresceu. Não se trata mais só da Ética. O defunto principal agora é a própria Democracia. Ela já andava doente – com vícios, clientelismo, o Estado usado como patrimônio particular e a máquina pública a serviço do partido. Mas a vitória suspeita de Lula em 2022 (e a reeleição recente, com virada que muitos consideram matematicamente implausível) foi o golpe de misericórdia. As armas, de novo, foram as urnas eletrônicas, num sistema opaco, sem o voto impresso auditável que o próprio Lula já defendeu quando perdia, e com um Judiciário que se transformou em braço político.
O Dia de Finados serve para lembrar os mortos. Serve também para não fingir que o corpo ainda respira. A Ética e a Democracia foram enterradas. Resta decidir se vamos continuar levando flores ao cemitério ou se ainda há tempo de resgatar o que restou
Lula, em 1994, chegou a dizer que “desviar dois ou três milhões de votos neste país é mais fácil que tirar pirulito de criança”. Hoje, quem ousa repetir a frase ou questionar o resultado é tratado como golpista. O mesmo personagem que em outras épocas falava em eleição ilegítima virou o guardião da “democracia”. A casa da Democracia foi ocupada pela Tirania de toga. Alexandre de Moraes e o consórcio PT-STF censuram, bloqueiam contas, perseguem opositores e tratam divergência como ameaça à segurança do Estado. Quem deveria fiscalizar virou parte da campanha.
O paralelo com 2010 é cruelmente preciso. Naquela época, o PT usou o terrorismo eleitoral (Bolsa Família ia acabar!), o nacionalismo retrógrado e o vale-tudo. Escândalos foram ignorados porque “a economia vai bem”. Depois veio a conta, com a maior recessão da história recente. Em 2022/2026, o roteiro se repetiu com mais sofisticação: censura prévia, inquéritos eternos, uso do aparato estatal e judicial, e a naturalidade com que se abraça qualquer meio para se perpetuar no poder. O voto com o bolso e o estômago continua sendo o perigo maior. Lênin compraria a corda do burguês que queria enforcar. o PT modernizou o método e ainda pede aplauso por “defender a democracia”.
Visitei os túmulos de novo. O Jornalismo morreu e deixou a Militância no lugar. A Lógica e a Ciência foram enterradas por dogmas e interesses. A Coragem rareia entre os “isentões”. A Esperança está em coma. Mas o túmulo que mais dói é o da Democracia: assassinada por farsantes que gritavam o nome dela enquanto cavavam a cova. Não foi acidente. Foi homicídio com premeditação, meio e motivo.
Metade do país (ou mais, dependendo de quem conta) está de luto. A outra metade comemora a ocupação da casa, sem noção do que está por vir. Não se constrói nação livre sem princípios básicos. Foi vitória de Pirro outra vez – com sabor de derrota institucional. O Dia de Finados serve para lembrar os mortos. Serve também para não fingir que o corpo ainda respira. A Ética e a Democracia foram enterradas. Resta decidir se vamos continuar levando flores ao cemitério ou se ainda há tempo de resgatar o que restou antes que o próximo defunto seja a própria liberdade.

Rodrigo Constantino
Rodrigo Constantino é economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja, O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.
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