Eleições em Israel: ‘O que está em jogo é reconhecer a diversidade interna do país’, afirma jornalista
Para Flávia Gianini, ataques de Netanyahu às urnas tentam deslegitimar a votação decisiva que formou a bancada palestina
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, foi derrotado nas urnas e perdeu a maioria do Parlamento. O grupo formado pelo Likud e seus aliados de direita, extrema direita e partidos religiosos conquistou 53 cadeiras, oito abaixo das 61 necessárias para governar. A oposição, liderada pelo ex-general Gadi Eisenkot, obteve 48.
Os partidos árabes conquistaram 19 das 120 cadeiras do Knesset, quase o dobro das dez obtidas em 2022. Não há, assim, maioria para definir o próximo governo. Netanyahu afirmou, sem apresentar provas, de que houve fraude nas urnas.
Ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, a jornalista Flávia Gianini, especializada em política e economia internacional, destaca a gravidade das declarações de Netanyahu, que geram instabilidade ao processo eleitoral.
“A gente poderia fazer um paralelo de que fazer a contestação das eleições em Israel é o mesmo que aconteceu com Dilma aqui no Brasil, que acabou culminando com o impeachment dela. Mas acaba sendo um pouco mais profunda essa questão”, afirma.
Segundo a jornalista, a discussão sobre quem vai governar Israel pelos próximos anos passou a envolver a legitimidade da participação política dos cidadãos árabes-israelenses. “Quando Netanyahu contesta e acusa, sem provas, a corrupção dos partidos árabes, ele cria uma dificuldade na formação de maioria até pelo Eisenkot. Ele está questionando o processo democrático e a participação política dos árabes-israelenses”, explica.
Por outro lado, Gianini destaca o aumento da participação política de pouco mais de 40% para quase 80% entre os cidadãos árabes que moram em Gaza. “Essa organização chegou a 19 cadeiras, mas, para constituir maioria, será necessário negociar com esses partidos”, reforça, ao mencionar que o caminho para derrotar Netanyahu será o da coalizão. “Os eleitores árabes perceberam que a participação pode ter impactos concretos.”
A jornalista conta que “Eisenkot está disposto a negociar sobre as questões de segurança e os erros cometidos em 7 de outubro de 2023”, contudo, há limites e alguma resistência a negociar com países árabes, já que, embora oposição a Netanyahu, ele é sionista. “O único democrata progressista é Yair Golan”, reforça Flávia Gianini.
“O que está em jogo é bem mais amplo do que a disputa entre Netanyahu e Eisenkot. É a capacidade de Israel de reconhecer a diversidade interna e garantir que a cidadania política não seja condicionada à origem étnica e religiosa”, defende. “Eles estão descentralizando a discussão sobre como formar o governo para qual é a importância dos partidos árabes e o peso da participação árabe-israelense que vive em Israel e, principalmente, em Gaza”, frisa.
Na avaliação de Gianini, a situação de Netanyahu é muto delicada, já que ele passa por investigação de corrupção e erros de segurança com relação ao Nakba. “E gente nem vai falar sobre os crimes de guerra. Então ele não tem como recuar. Ele vai questionar as eleições”, ressalta.
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.
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