RELEVO IBGE: MG concentra 37,3% das montanhas mapeadas no Brasil
Minas Gerais concentra 37,3% de toda a área de montanhas mapeada no Brasil, segundo o novo Mapa dos Macrocompartimentos de Relevo do Brasil, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quinta-feira (29). O levantamento mostra que as áreas montanhosas estão presentes em 20 das 27 unidades da Federação e ocupam 1,9% do território nacional. Depois de Minas, aparecem Bahia (15,8%), Rio de Janeiro (9%) e São Paulo (8,7%).
A publicação representa um avanço na forma de classificar e representar o relevo brasileiro. Pela primeira vez, as montanhas aparecem como uma das cinco grandes classes do primeiro nível taxonômico do novo sistema nacional de classificação. As demais são planaltos, superfícies rebaixadas, tabuleiros e planícies.
Para o professor Luiz Eduardo Panisset Travassos, do Departamento de Geografia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), o reconhecimento ajuda a corrigir uma interpretação que marcou o ensino de geografia no país. Durante muito tempo, segundo ele, a ideia de que o Brasil não tinha montanhas esteve associada à compreensão de que essas formações seriam exclusivas de regiões com cadeias geológicas jovens, como a Cordilheira dos Andes.
“Durante muito tempo, aprendemos na escola que o Brasil não tinha montanhas, porque elas estariam associadas apenas a cadeias de montanhas jovens, como a cordilheira dos Andes. Esse raciocínio misturava duas coisas diferentes: a idade das rochas e a forma do relevo”, explica. No novo sistema, a classificação considera as características da paisagem, e não apenas a idade das formações geológicas. Entre os critérios estão conjuntos de relevo que se elevam pelo menos 300 metros em relação ao entorno, com topos aguçados e vertentes íngremes.
“Por esse olhar, fica claro que o país tem montanhas, só que muito antigas e muito trabalhadas pela erosão”, afirma Panisset, que integra o grupo de cerca de 70 pesquisadores de diferentes instituições envolvidos na construção da classificação.
Uma história geológica de bilhões de anos
A concentração de montanhas em Minas Gerais está relacionada a uma história geológica extensa, marcada por colisões continentais, movimentos da crosta terrestre e processos de erosão. Boa parte do território mineiro está sobre um bloco antigo e estável da crosta, com rochas que ultrapassam 2 bilhões de anos.
Há cerca de 600 milhões de anos, colisões entre continentes nas bordas desse bloco contribuíram para a formação de grandes cadeias montanhosas na região. Ao longo de milhões de anos, a ação da chuva e dos rios desgastou essas estruturas de maneira desigual. As rochas mais frágeis foram rebaixadas, enquanto as mais resistentes permaneceram em destaque na paisagem.
É o caso de serras sustentadas por quartzitos, como as da Serra do Espinhaço, e de formações ricas em ferro, como as do Quadrilátero Ferrífero. A separação entre a América do Sul e a África, há aproximadamente 130 milhões de anos, também provocou alterações na borda do continente. Mais tarde, entre 60 milhões e 20 milhões de anos atrás, processos geológicos contribuíram para a formação de estruturas como a Serra da Mantiqueira e o Maciço do Caparaó.
Panisset ressalta, porém, que a participação mineira de 37,3% precisa ser compreendida levando em conta a dimensão territorial do Estado. “Sobre o percentual de Minas Gerais é importante lembrar que o percentual mineiro é alto também porque o estado é enorme. Em proporção ao território, o Rio de Janeiro tem cerca de um terço da sua área ocupada por montanhas”, explica. O professor destaca, no entanto, a diversidade das formações mineiras. “Mas nenhum outro estado reúne tanta diversidade de montanhas quanto Minas, e isso ficou muito evidente nas discussões entre os pesquisadores que participaram do mapeamento.”
Mapa pode ajudar a proteger áreas vulneráveis
Além de ampliar o conhecimento sobre a geografia física do país, a classificação pode contribuir para o planejamento territorial e a proteção ambiental. As montanhas concentram nascentes, abrigam espécies restritas a determinados ambientes e estão sujeitas a riscos como deslizamentos. Em Minas Gerais, também convivem com a pressão da atividade minerária.
“Dar nome próprio a essas áreas não é um detalhe técnico. As montanhas guardam nascentes, abrigam espécies que só existem ali, estão mais sujeitas a deslizamentos e, em Minas Gerais, convivem com uma forte pressão da mineração”, afirma o professor. Segundo ele, a delimitação em um mapa oficial oferece uma referência comum para pesquisadores, gestores públicos e professores, com potencial para orientar ações de prevenção de riscos, conservação do patrimônio natural e planejamento do uso do território.
O trabalho também contempla formações que atravessam diferentes compartimentos do relevo, como o carste. Panisset coordena o grupo de trabalho responsável por discutir a classificação desse tipo de paisagem, formada principalmente pela dissolução de rochas pela água, como calcários e dolomitos. Em determinadas condições, o processo também pode ocorrer em quartzitos e rochas ferruginosas.
No relevo cárstico, a água infiltra no terreno e abre condutos e cavernas. Na superfície, podem surgir dolinas, sumidouros, paredões e maciços rochosos recortados. Em Minas Gerais, há exemplos importantes em regiões como Lagoa Santa, Sete Lagoas e o Vale do Peruaçu, no Norte do Estado.
“Esse relevo precisava de um tratamento próprio porque ele atravessa as grandes classes do relevo: podemos encontrar carste em montanhas, em planaltos ou em superfícies rebaixadas. O papel do grupo de trabalho é discutir como reconhecer e representar essas formas dentro do sistema, para que elas não fiquem invisíveis nos mapas”, explica Panisset.
Essas áreas exigem atenção específica porque podem apresentar aquíferos vulneráveis à contaminação e terrenos sujeitos a afundamentos. Também guardam patrimônio espeleológico, arqueológico e paleontológico. O professor destaca que o mapeamento dessas formações tem consequências práticas para a proteção ambiental e o planejamento do território.
Classificação construída coletivamente
O Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo começou a ser desenvolvido em 2019 e foi elaborado a partir de debates técnicos, workshops, excursões de campo e congressos científicos. A iniciativa reúne especialistas de diferentes regiões e instituições, incluindo geógrafos e geólogos.
O novo mapa apresenta o primeiro nível taxonômico do sistema, que organiza o território em cinco grandes compartimentos. A nomenclatura também traz uma mudança: a categoria antes chamada de “depressões” passa a ser identificada como “superfícies rebaixadas”. A alteração busca destacar a posição dessas áreas em relação ao relevo ao redor e evitar confusões com outros fenômenos, como cavidades e afundamentos do terreno.
Para Panisset, um dos principais méritos da iniciativa é justamente a construção coletiva de critérios para representar a diversidade do território. “Nada disso foi feito individualmente. As propostas foram apresentadas, criticadas e amadurecidas nos workshops promovidos pelo IBGE, nas excursões técnicas e nos congressos da área, com geógrafos, geólogos e outros especialistas de todo o país”, afirma.
“Para mim, o maior mérito do sistema é justamente esse: ele nasce de um consenso construído coletivamente e oferece uma linguagem comum para falar do relevo brasileiro, da sala de aula às políticas públicas”, conclui.
Ver nota original ↗
¿Querés un resumen rápido de esta noticia, hecho por nuestra IA?
