Gazeta do Povo — República
30/10/2026 20:55

Papel de Flávio nos EUA na oposição a Lula e STF envolve ganhos, riscos e limites

Na carta em que justificou sua saída do Brasil, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou que, nos Estados Unidos, poderá liderar a oposição de forma mais livre do que parlamentares e políticos de direita no Brasil.

Dirigindo-se aos parlamentares do PL, afirmou que eles, atualmente, não têm “a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política”. “Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr”, afirmou.

No texto, Flávio comparou-se a Rui Barbosa que, em 1893, exilou-se em Buenos Aires para escapar da prisão e de possíveis represálias do governo de Floriano Peixoto. O célebre jurista opunha-se ao então presidente por considerar inconstitucional seu mandato após a renúncia de Deodoro da Fonseca, em 1891, sem novas eleições.

No final, Flávio afirmou que apresentaria, nos próximos dias, uma estratégia “para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos, para impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil”.

A Gazeta do Povo procurou parlamentares e interlocutores próximos do senador para entender os planos de Flávio Bolsonaro para exercer a oposição do exterior. Deputados e senadores evitaram responder, muito em razão da surpresa com a decisão, tomada sem consulta e de maneira rápida após Flávio ser intimado a entregar seus passaportes.

A ordem foi emitida pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), na noite de domingo (25), após o Tribunal Superior Eleitoral proclamar a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O pedido da Polícia Federal, no âmbito de uma investigação sigilosa, foi apresentado ao ministro sete minutos após o anúncio da derrota de Flávio, que apresentou a medida como sinal evidente de perseguição política.

Um dos aliados mais próximos da família Bolsonaro nos EUA, o jornalista e empresário Paulo Figueiredo indicou, na rede X, que Flávio pretende exercer uma liderança de caráter “moral” do exterior, e não formal junto aos pares no Brasil.

“Liderança carrega um valor moral, que traduz o sentido desejado pelo Flávio. A liderança não se exerce com a caneta, e sim com o exemplo”, escreveu. Em seguida, afirmou que o recado passado também se dirige a outras lideranças que eventualmente queiram tomar o lugar de Flávio na direita. “E traz consigo um recado muito claro, inclusive a eventuais usurpadores: a liderança do movimento continuará sendo exercida.”

Nesta sexta (30), no entanto, ele esclareceu que Flávio não pretende se candidatar à Presidência em 2030. Para Figueiredo, a oposição deve batalhar para que novas eleições sejam realizadas antes “e o povo vai votar Bolsonaro de novo” – não deixou claro se o candidato seria o ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje preso e inelegível, ou outro integrante da família, como Eduardo, muito próximo do empresário.

Em transmissões ao vivo, Figueiredo disse que, junto com Eduardo, Flávio poderá denunciar, de forma mais livre que políticos no Brasil, a perseguição contra a direita por parte de Alexandre de Moraes e de Lula. Junto ao governo americano, também poderia ajudar brasileiros perseguidos a conseguirem acolhida nos EUA. Sugeriu que reações contrárias do ministro e do presidente poderão complicar a posição do Brasil.

“A cada ação de perseguição de Alexandre Moraes e Lula, só complica a relação entre o Brasil e os Estados Unidos”, afirmou.

Ganhos, limites e riscos da atuação de Flávio nos EUA

Para analistas políticos consultados pela reportagem, a atuação de Flávio nos EUA, em oposição a Lula e denúncia a Moraes, tem ganhos, limites e riscos.

Na avaliação do analista político Alexandre Bandeira, a liderança da oposição a partir dos Estados Unidos permite a Flávio Bolsonaro criticar e denunciar o governo e mobilizar apoiadores com menor exposição a decisões do STF.

“Flávio poderá criticar, denunciar, mobilizar, atacar, sem ser alcançado por decisões do STF. Poderá fazer isso no mesmo molde de Allan dos Santos, só que com o peso do nome Bolsonaro”, diz.

Bandeira lembra que, embora parlamentares contem com imunidade constitucional, que protege suas palavras e votos, o próprio STF tem contornado essa garantia e condenado congressistas críticos a Moraes. É o caso do ex-deputado Daniel Silveira, condenado em 2022 por ameaça ao Estado democrático de Direito e coação no curso do processo.

Quanto à possibilidade de Flávio liderar as bancadas do PL no Senado e na Câmara, o analista expressa dúvida. "Querer ele quer. Mas, na política, nem sempre querer é poder”.

A analista política Yolanda Tolentino concorda que, nos EUA e fora do alcance imediato da Justiça brasileira, Flávio poderá assumir discurso mais duro, enquanto os aliados que ficaram no Brasil poderão seguir atuando dentro das instituições, como na disputa pela presidência do Senado.

Ela aponta alguns riscos para os parlamentares no Brasil. “Falar em fraude eleitoral sem provas, chamar o país de ‘regime de exceção’ e atacar ministros do STF são falas que, no Brasil, podem levar à investigação. A imunidade parlamentar tem limites, e governadores nem contam com ela. Não por acaso, o senador Rogério Marinho, coordenador da campanha, afirmou que não há provas de fraude e tratou a carta como um desabafo. Quem está aqui não pode endossar esse ponto”, observa.

A interlocução com o governo americano, porém, pode trazer consequências para Flávio, mesmo nos EUA. O caso emblemático, aqui, é o de Eduardo Bolsonaro, condenado pelo STF por coação no curso do processo, sob acusação de incitar a administração Trump a sancionar Alexandre de Moraes para evitar a condenação de Jair Bolsonaro. No Brasil, observa Tolentino, “um parlamentar com mandato não faria isso sem se expor a processo e a cassação”.

Outro risco aplicável a Flávio, na visão dela, é de ordem pessoal e inclui a possibilidade de decreto de prisão preventiva, a procura internacional com alerta de difusão vermelha na Interpol, o bloqueio de bens e o desgaste político.

“Flávio deixou o país mesmo com a ordem de entregar os passaportes, e já existe pedido de prisão no STF, embora, até o momento, não haja mandado. Ele também perde o mandato e o foro em 31 de janeiro. Tem pouco a preservar aqui, enquanto os aliados têm muito”, diz.

Ela ainda vê como limite à estratégia do senador a reação de parte da bancada do PL. “A bancada do PL declarou apoio à carta, mas o coordenador da campanha discordou justamente do ponto central, a acusação de fraude. E Trump, que recebeu a família, disse que não vai se envolver. A tendência é que cada declaração mais dura de Flávio obrigue os aliados a escolher entre acompanhá-lo e se distanciar. Essa tensão deve marcar a reorganização da oposição até a eleição para a presidência do Senado, em fevereiro”, diz.

Márcio Coimbra, CEO da Casa Política e ex-diretor da ApexBrasil e do Senado, vê papel de destaque de Flávio, nos EUA, em duas frentes: tanto na arena diplomática quanto na manutenção de uma plataforma de comunicação desimpedida.

“Do ponto de vista concreto e proveitoso para os objetivos da direita, sua permanência em solo americano permite a articulação direta com think tanks conservadores, congressistas do Partido Republicano e órgãos de direitos humanos internacionais. A partir desse ecossistema, Flávio pode atuar ativamente na denúncia das alegações de abusos de poder e ativismo judicial do STF e do governo Lula, catalisando pressões externas como audiências no Congresso norte-americano, pedidos de sanções internacionais contra autoridades brasileiras e a concessão formal de asilo político para expor o que classifica como perseguição”, diz.

Na arena pública, Coimbra aponta para a “capacidade contínua de realizar transmissões ao vivo e pronunciamentos que engajam a base militante, servindo como uma caixa de ressonância da narrativa de martírio institucional que mantém a chama do bolsonarismo acesa sem o risco de silenciamento imediato”.

O limite, para ele, está na possibilidade de exercer a liderança diária e operacional da oposição junto ao PL no Brasil. “A dinâmica da política institucional em Brasília exige presença física, presença de bancada e articulação nos corredores do Congresso — negociações indispensáveis para viabilizar metas de curto e médio prazo, como a eleição de Rogério Marinho à Presidência do Senado contra Davi Alcolumbre em 2027”, explica.

“Ao se afastar do dia a dia legislativo e do contato com as bases partidárias no Brasil, a liderança à distância corre o risco de se tornar meramente retórica e desconectada da realpolitik nacional, abrindo espaço para que figuras pragmáticas e presentes no país, como Tarcísio de Freitas, assumam a centralidade da direita”, acrescenta o analista.

“Insistir em um comando virtual focado excessivamente no embate internacional pode, portanto, esvaziar a capacidade de coordenação prática do bloco conservador, alienar aliados do centro dispostos ao contrapeso institucional e aprofundar a percepção de um isolamento político irreversível”, conclui Coimbra.

Para Flávia Magalhães, brasileira radicada nos EUA e militante de direita na Flórida, Flávio Bolsonaro deveria focar no discurso duro em relação ao STF e a Lula. Para ela, no entanto, como políticos, Eduardo e Flávio ainda são “muito cautelosos”.

“Sou muito pé na porta. O que eles estão fazendo é realmente mostrar o que está acontecendo no Brasil. Mas, dentro do Brasil, não tem mais solução, não tem mais a quem recorrer. O último degrau é a Suprema Corte, mas ela está toda corrompida, assim como os demais Poderes. Infelizmente, está no sangue do brasileiro a corrupção e o jeitinho. A força tem que vir do lado de fora. Às vezes, quando ocorre uma confusão dentro de casa, o vizinho tem que chamar a polícia para conter aquele problema, porque quem está dentro não consegue com forças internas”, diz.

Para ela, Flávio deve levar adiante a denúncia da possibilidade de abuso ou mesmo fraude nas eleições. “Tenho amigos venezuelanos aqui que dizem que aconteceu a mesma coisa com Nicolás Maduro, em 2014, quando ele prorrogou a votação”.

Quanto à possibilidade de atuação junto às bancadas do PL e demais partidos de oposição a Lula, ela também vê limites, por falta de apoio. “Não vai conseguir [...] Se elegeram com o nome de Bolsonaro, mas não colocaram uma foto do Flávio no primeiro turno, quando poderíamos ter vencido a eleição.”

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