A Crítica
30/10/2026 22:00

Entretenimento Como um guardião em defesa do “Elo” entre o homem e a natureza, Jaú mira décimo segundo título”

Novo Airão (AM) – Com o tema “Elo”, o peixe-boi Jaú, das cores verde e preto, exalta a conexão do homem com a natureza e busca a reconquista pelo título de campeão e décimo segundo título de sua história no XXVII Eco Festival do Peixe-Boi, que acontece nos dias 30 e 31 de outubro e 1º de novembro em Novo Airão (município distante 200 quilômetros de Manaus). No sábado (31), o Jaú encerra as apresentações.

Em entrevista à reportagem de A CRÍTICA, Miguel Alfaia, membro do Conselho de Arte do Peixe-Boi Jaú, explicou que a escolha do tema se deu a partir da própria proposta do Eco-Festival, em promover a cultura, ao mesmo tempo que levanta a bandeira do meio ambiente. O tema, segundo Alfaia, reflete no próprio município de Novo Airão, que preserva 85% da sua área territorial.

“A proposta do tema “Elo” surge com essas ações que percebemos na Amazônia, principalmente nesse período que se aproxima do período do festival, quando vemos muitas queimadas, seca dos rios e outros problemas ambientais. Elas são, na maioria das vezes, geradas pelo próprio homem, que acaba ocasionando tudo isso. E o homem acaba deixando de se reconhecer parte da natureza”, explicou Alfaia.

Inspirado pelos saberes ancestrais indígenas, o tema “Elo”, do Jaú, convida o público a refletir sobre a conexão entre o homem e a natureza. A proposta parte da ideia de que a degradação ambiental não afeta apenas a floresta, mas o próprio ser humano, que precisa se reconhecer como parte integrante desse equilíbrio para romper o ciclo de destruição.

“Essa é a primeira origem da temática, partindo dessas ações que acontecem ao nosso redor e, às vezes, próximo a gente. Esse projeto mostra que o homem acaba sendo o agente disso tudo. Esse sujeito reconhece que faz parte dessa natureza também. Porque quando ele degrada, ele está se automutilando. Quando a gente traz para as primícias e o olhar ancestral indígena, nasce um projeto onde o homem tenta se reconhecer como parte disso e parar de se autodestruir”, detalhou.

“Elo” em cinco atos

Enquanto apresentação de arena, o Jaú estruturou um espetáculo em cinco atos, conduzidos pela ideia de que o homem deixou de se enxergar como parte da natureza, rompendo com a primícia, uma concepção na cosmovisão dos povos originários onde tudo pertencia à mesma origem.

“Então, o Jaú ele surge como um guardião que vai trazer à memória esses elos que foram enfraquecidos. O primeiro é o ‘elo primordial’, que apesar dessas ações estarem acontecendo, a vida não morreu. O segundo é o ‘elo da criação’, trazendo à memória o momento onde tudo foi criado. O terceiro é o ‘elo da harmonia’, o homem faz parte dessa harmonia e vive em sintonia. Mas esse elo está desequilibrado”, explicou Alfaia.

A partir dessa reflexão, a narrativa apresentada na arena convida o público a acompanhar o percurso de afastamento e reconexão entre humanidade e floresta, resgatando a compreensão de que ambos compartilham a mesma origem e a mesma força vital.

“O quarto é o ‘elo do amanhã’, onde mostramos que floresta ela sempre tá se renovando. Nós vamos trazer a memória que, principalmente, na ressurreição do peixe-boi da Amazônia (lenda do peixe-boi), mostrar que a vida pede continuidade. Ela quer acontecer, ela tem esperança. Fechamos com o quinto, que é o ‘elo da sabedoria’. Traremos a memória de todos os legados ancestrais, remetendo à sabedoria do povo da floresta”, continuou.

Ensaio técnico do Jaú na Lagoa do Peixe-Boi Foto: Daniel Brandão

O conhecimento dos povos originários

Ancorado nos saberes dos povos ancestrais, o Jaú apresenta uma narrativa centrada na reconexão entre homem e natureza. A proposta parte da compreensão de que, embora tenha se afastado de suas origens, o ser humano continua sendo parte inseparável do mundo natural. De forma objetiva, o espetáculo transforma essa reflexão em um convite para repensar a relação com a floresta e os desafios ambientais do presente.

“Como diz Krenac: O homem faz parte da natureza, apesar de ter deixado de se reconhecer, mas ele faz parte. A sabedoria dos povos ancestrais para nós é a chave para que o homem possa se reconhecer como parte da natureza. Tentamos amenizar ou futuramente, quem sabe, essas questões de crise ambiental e o homem voltar à sua origem”, salientou o conselheiro de arte.

Embora a proposta temática do Jaú seja reflexiva, crítica e profunda, Alfaia considera que ela é objetiva e centrada.

“Todas as nossas narrativas no desenvolvimento da temática em cada ato apresentado, sempre vai mostrar e trazer a memória que o homem é natureza. Ele foi criado junto com com os outros seres, com rios, com a floresta. Ele faz parte, como eu sempre costumo dizer, dessa mesma energia vital. A nossa ideia é fazer com que o público possa sempre rever a mensagem e refletir sobre o que está sendo apresentado”, comentou.

Crise ambiental na Amazônia e os “elos”

Como debate reflexivo acerca dos problemas ambientais vividos pelas comunidades amazônicas, o Jaú promete um espetáculo que irá, além de reverenciar a natureza, buscar conscientizar sobre a ação do homem sobre ela e, principalmente, sobre o que fazer quando se perde o “Elo”.

“Eu, como povo da floresta, como airãoense, o que eu posso fazer em relação a todas essas ações degradantes que acontecem na natureza? A partir do momento que eu entendo que eu sou o ser da natureza, que eu sou a própria natureza e quando eu faço isso eu estou destruindo a minha própria vida. A temática acaba trazendo a necessidade de reconstruir esse vínculo que se perdeu”, concluiu Alfaia.

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