MEIO AMBIENTE ‘Replantio’ de corais avança em Maceió com placas ecológicas produzidas com casca de sururu
MEIO AMBIENTE
Estudo internacional aponta risco crítico de colapso marinho devido ao aquecimento dos oceanos

Da Redação | 31/10/2026 às 5h08
Foto:@Ailton Cruz | Foto: Ailton Cruz
Pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e da Secretaria de Estado do Turismo (Setur) avançaram neste mês no “replantio” de corais nativos nos recifes de Maceió. A intervenção utiliza placas ecológicas produzidas com casca de sururu em um berçário marinho instalado na Piscina do Amor, visando a reconstruir colônias dizimadas pelo estresse térmico.
O trabalho de campo no berçário subaquático envolve o manejo cuidadoso de fragmentos e larvas resgatados de colônias sobreviventes ao branqueamento. Entre as espécies nativas sob cultivo destaca-se o coral-de-fogo, cujas porções salvas são assentadas em bases ecológicas fabricadas sem a inclusão de plástico. Semanalmente, durante as marés baixas de lua nova e lua cheia, as equipes realizam a limpeza manual das mesas para remover sedimentos que impedem a fixação dos organismos.
Cerca de 200 corais voltam aos recifes | Foto: CORTESIA À GAZETA DE ALAGOAS
Após um período de maturação que varia entre três e seis meses nas plataformas submersas, cerca de 200 indivíduos recuperados começaram a ser retransplantados para os recifes naturais das praias de Ponta Verde e Pajuçara. A instalação no fundo do mar é realizada de forma minuciosa nos pontos exatos onde a equipe técnica havia mapeado previamente estruturas mortas, buscando restabelecer a arquitetura tridimensional do habitat.
Com um acervo superior a 500 exemplares sob acompanhamento no viveiro, o projeto conduz testes para acelerar a regeneração dos tecidos biológicos. Em um dos experimentos mais promissores, os pesquisadores fixam pequenos fragmentos vivos diretamente sobre esqueletos mortos de corais. A técnica estimula a colônia viva a crescer sobre a base antiga, antecipando o ganho de cobertura antes da reintrodução definitiva no ecossistema.
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PESQUISA APLICADA E VALIDAÇÃO CIENTÍFICA
| Foto: CORTESIA À GAZETA DE ALAGOAS
As operações em Maceió funcionam como um laboratório em ambiente marinho para consolidar metodologias de restauração adequadas às espécies do Atlântico Sul. O acompanhamento contínuo das áreas replantadas permite medir taxas de sobrevivência e identificar condições de luminosidade e profundidade que otimizam o manejo, gerando dados para orientar futuras intervenções em larga escala.
“A restauração é uma ciência muito nova e precisamos conhecer bem o método antes de fazer intervenções em escala. Os projetos de recuperação são fundamentais, mas precisam caminhar junto com ações de conservação mais amplas, como o combate às mudanças climáticas e o saneamento básico”, afirmou o coordenador do projeto, professor Robson Santos.
RISCO CRÍTICO NA COSTA
| Foto: Lucas Meneses - Ascom Setur
O avanço dos trabalhos práticos de cultivo na capital alagoana ocorre em paralelo à publicação da primeira avaliação global sobre recifes de corais promovida pela União Internacional para a Conservação da Natureza. O levantamento, apresentado durante a 17ª Conferência das Partes da ONU sobre Diversidade Biológica em Yerevan, revelou que 96% das ecorregiões recifais analisadas no mundo enfrentam risco elevado de colapso.
No cenário nacional, cinco das oito ecorregiões avaliadas foram classificadas na categoria Criticamente em Perigo devido ao aquecimento das águas marinhas. Entre as áreas sob alerta máximo figura a Costa dos Corais, faixa litorânea que, em Alagoas, se estende de Ipioca até Maragogi. Levantamentos do projeto indicam que o estresse térmico recente provocou perdas de até 90% na cobertura de corais em pontos monitorados do litoral de Alagoas
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Projeto monitora mais de 500 corais | Foto: CORTESIA À GAZETA DE ALAGOAS
O relatório da UICN adverte que a vulnerabilidade decorrente das mudanças climáticas é intensificada por impactos antrópicos locais. O descarte in natura de esgoto, a sobrepesca, o aporte de resíduos continentais e o turismo desordenado prejudicam a qualidade da água e reduzem a capacidade de recuperação natural dos corais ao longo da costa.
SOCIOECONOMIA E TURISMO REGENERATIVO
Os especialistas ressaltam que a degradação das formações recifais gera desdobramentos diretos sobre a economia local e a estabilidade costeira. A diminuição da biodiversidade marinha afeta a produtividade da pesca artesanal, compromete a proteção natural que os recifes oferecem contra a erosão causada pelas ondas e fragiliza o turismo, atingindo a fonte de renda de comunidades que dependem dos recursos do mar.
Diante dessa realidade, o Projeto Corais de Alagoas busca integrar a recuperação ecológica a práticas de ecoturismo regenerativo. A iniciativa promove oficinas de capacitação para jangadeiros que atuam na região e estrutura parcerias com operadoras de mergulho, permitindo que visitantes acompanhem os cientistas durante o monitoramento das mesas de cultivo na Piscina do Amor.
“A gente precisa de política pública baseada em evidência científica. A ciência sozinha não faz tudo; é necessária a união entre academia, poder público e setor privado para definir onde queremos chegar como sociedade”, destacou Robson Santos, ao defender o fortalecimento de medidas integradas de gestão ambiental.
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