ESPECIALISTA EXPLICACenário econômico pode levar a novos reajustes nos combustíveis, avalia economista Desvalorização do real e pressão no mercado internacional estão entre os fatores que podem elevar os preços; em Roraima, aumento pode encarecer frete e mercadorias
O cenário econômico nacional e internacional pode abrir espaço para novos reajustes nos preços dos combustíveis no Brasil nos próximos meses. A avaliação é do economista Fábio Martinez, que aponta a pressão sobre o petróleo no mercado externo, a desvalorização do real e a dificuldade de manter os subsídios como fatores que podem influenciar os valores do diesel e da gasolina, especialmente a partir de 2027.
A discussão ganhou força após uma estimativa do Goldman Sachs, um dos maiores bancos de investimento e instituições financeiras do mundo, apontar que, em um cenário extremo de retirada dos subsídios ao diesel, o litro do combustível poderia chegar a R$ 9 ou R$ 10 nos postos. O valor, porém, não representa uma previsão de preço, mas uma hipótese de aumento caso os mecanismos utilizados para conter os custos deixem de ser mantidos.
Para Martinez, embora esse seja um cenário extremo, existe uma defasagem entre os preços praticados no Brasil e os valores do mercado internacional. Atualmente, o governo federal mantém subsídios para reduzir o custo do diesel, enquanto a Petrobras não repassa integralmente as variações externas aos preços internos.
“Apesar desse cenário de nove ou R$ 10 ser um cenário extremo, não seria de se admirar que a gente tenha nos próximos meses ou então a partir de 2027 aumento no preço do diesel e, consequentemente, da gasolina também aqui no Brasil”, afirmou.
O economista relaciona a pressão sobre os preços aos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio, que afetam o mercado internacional de petróleo. Outro fator apontado por ele é a desvalorização do real, que torna mais cara a compra do produto no exterior e amplia a diferença entre os preços internos e externos.
“Quando o real se desvaloriza, fica mais caro ainda o preço dos combustíveis. Consequentemente, a defasagem aumenta. Então, é de se esperar que uma hora ou outra a Petrobras e o governo brasileiro, que já têm um nível de endividamento muito alto, não consigam manter esse subsídio no patamar ou por um tempo muito longo”, avaliou.
A possível alta também pode alcançar a gasolina, por ser derivada do petróleo. O etanol, por outro lado, tem uma dinâmica diferente, já que é produzido principalmente a partir da cana-de-açúcar e do milho. Ainda assim, o economista observa que fatores climáticos podem afetar a produção agrícola e elevar os custos do biocombustível.
“A gasolina, como derivado de petróleo, pode sim sofrer variações no preço aqui no Brasil, principalmente a partir de 2027. O etanol nem tanto, porque é produção local. A gente tem a nossa própria produção, mas essa questão climática pode sim afetar o preço do etanol”, explicou.
Reajustes podem começar em dezembro
Sobre o período em que os aumentos poderiam ocorrer, Martinez avalia que os primeiros reajustes podem aparecer em dezembro de 2026, com efeitos mais acentuados ao longo de 2027. Ele também considera que a eleição pode ter sido um dos fatores que contribuíram para a manutenção dos preços até agora.
“Não me espantaria que a partir de dezembro a gente começasse a ver reajuste nos preços dos combustíveis aqui no Brasil, mas a gente teria mais acentuadamente esses reajustes a partir de 2027”, afirmou.
O economista ressalta que esse cenário dependerá de fatores como a cotação do dólar e as decisões da política econômica. Uma eventual valorização do real poderia reduzir parte da pressão sobre os combustíveis.
Martinez também defende maior controle das despesas públicas e a recuperação da capacidade do governo de gerar superávits fiscais. Na avaliação dele, medidas que fortaleçam a confiança dos investidores podem contribuir para a redução dos juros e a valorização da moeda brasileira, ajudando a conter a inflação.
Impactos em Roraima
Em Roraima, uma eventual alta dos combustíveis pode repercutir diretamente no preço das mercadorias. Isso porque grande parte dos produtos que abastecem o estado chega pelo transporte rodoviário e percorre longas distâncias até alcançar o mercado local.
Com o diesel mais caro, o custo do frete tende a aumentar. Esse gasto pode ser incorporado ao valor final dos produtos, incluindo alimentos e itens de primeira necessidade. Para Martinez, a distância dos principais centros fornecedores torna o estado mais vulnerável aos reajustes.
“Roraima, a gente sabe, dada a nossa localização no extremo Norte, as mercadorias percorrem uma distância muito grande até chegar aqui. Consequentemente, o preço do frete aqui em Roraima é mais significativo, e qualquer aumento do combustível acaba afetando diretamente o preço do frete e, consequentemente, o preço das mercadorias”, avaliou.
O economista considera que, por essa característica logística, Roraima pode estar entre os estados mais prejudicados pela inflação provocada por uma eventual alta dos combustíveis.
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