Cirurgia de afirmação de gênero com pele de tilápia é realizada pela 1ª vez no Nordeste
Procedimento inovador de neovaginoplastia foi realizado nessa quarta-feira, 28, no Hospital das Clínicas da UFPE em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC)
Por Ana Rute Ramires
Notícia
Usada para todas matérias e reportagens que retratem fatos ou descrevam situações. Matéria baseada em fatos observados e verificados pelo repórter com fontes diversas. Notícias não possuem a opinião do repórter. Quando há análise, deve haver as duas definições: notícia e análise.
Atualizado às 08:04, 31/10/2026 | Publicado às 08:00, 31/10/2026
Compartilhe esse conteúdo!
Compartilhe também nas redes sociais:
Resumo
-
Primeira cirurgia de neovaginoplastia com pele de tilápia foi realizada no Nordeste.
-
O procedimento ocorreu no HC-UFPE em parceria com a UFC.
-
A técnica visa melhorar a funcionalidade e qualidade de vida de mulheres transgênero.
-
A pele de tilápia atua como uma prótese biológica para criar ou alongar o canal vaginal.
-
O Ceará busca habilitação estadual para realizar o procedimento.
Cirurgia de afirmação de gênero, a neovaginoplastia, com uso da pele de tilápia foi realizada pela primeira vez no Nordeste nessa quarta-feira, 28, no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC), que realiza a pesquisa clínica.
Leia mais | Pele de tilápia: pesquisa pública para aliviar o sofrimento dos queimados
As três pacientes que passaram pelo procedimento são atendidas pelo Espaço de Acolhimento e Cuidado de Pessoas Trans e Travestis do HC-UFPE.
O objetivo é tornar a neovagina de mulheres transgênero mais funcional, com maior profundidade e calibre, gerando impacto positivo sobre sexualidade, autoimagem e qualidade de vida da paciente.
O HC é parceiro do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da UFC na pesquisa, que tem três vertentes:
- Uso da técnica nas cirurgias para correção de agenesia vaginal (síndrome de Rokitansky);
- a reconstrução do canal vaginal em mulheres que fizeram radioterapia;
- e o alongamento do canal na cirurgia de afirmação de gênero.
Veja também | Ceará avança na 1ª fábrica de processamento de pele de tilápia do mundo
O ginecologista Leonardo Bezerra, professor e pesquisador da UFC, explica que a cirurgia em si dura em torno de 3 a 4 horas. Além dele, a equipe cirúrgica contou com a ginecologista Aleide Tavares, o urologista Luiz Simões e o ginecologista Artur Rangel.
Além do ato cirúrgico, todo o acompanhamento envolve uma equipe multidisciplinar maior com endocrinologistas, clínicos, psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais.
No HC-UFPE, foram operadas três pacientes: duas em cirurgias primárias, para primeira confecção do canal; e uma em cirurgia secundária, para correção de estenose, que é o fechamento do canal decorrente de uma cirurgia anterior.
Segundo Leonardo Bezerra, as cirurgias foram bem-sucedidas e as pacientes devem passar por um protocolo de avaliação e acompanhamento pós-operatório rigoroso de, no mínimo, um ano para monitorar a adaptação do tecido e garantir a funcionalidade.
Como a pele de tilápia é usada na cirurgia de afirmação de gênero
O médico ginecologista explica que a pele de tilápia atua como uma prótese biológica e serve como arcabouço para o crescimento e a proliferação celular, permitindo criar ou alongar o canal vaginal. "Em geral, a cirurgia é feita com a inversão da pele do pênis, mas existem limitações importantes de comprimento e funcionalidade que incomodam muito a paciente após a cirurgia", compara.
Para o procedimento, utiliza-se a pele de tilápia liofilizada, que é processada e produzida no NPDM da UFC. O biomaterial passa por quimiesterilização e radioesterilização, garantindo um produto estéril, seguro e sem risco de contaminação ou infecção cruzada.
Em dezembro de 2024, foi realizada a primeira neovaginoplastia com pele de tilápia, numa paciente trans, no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), adaptando a técnica que já é utilizada com eficácia comprovada no tratamento de queimaduras e na reconstrução do canal vaginal em pacientes com síndrome de Rokitansky e câncer.
Depois, em parceria com uma equipe de Cali, na Colômbia, foi desenvolvida uma técnica combinada de inversão peniana com pele de tilápia. Lá, já foram realizados mais de 100 procedimentos.
Embora faça a pesquisa, Ceará ainda não realiza procedimento de afirmação de gênero com pele de tilápia
Leonardo Bezerra explica que o Ceará ainda busca a habilitação estadual para cirurgias terciárias desse tipo. A reconstrução do canal vaginal vem sendo feita na Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (Meac/UFC) desde 2017 em dois casos: a reconstrução do canal vaginal em mulheres com agenesia vaginal e em mulheres que fizeram radioterapia.
"A gente não tinha conseguido fazer nenhum caso ainda no Nordeste porque a Universidade Federal do Ceará e a Secretaria de Saúde do Estado ainda não conseguiram habilitação para a criação de um centro terciário de cirurgia de afirmação de gênero. Como Pernambuco já tem esse centro, que é o Sertrans, há mais de 10 anos com estrutura montada, a gente fez o convênio para fazer o trabalho de pesquisa conjunto", contextualiza.
A gente está há muitos anos tentando capacitar e, principalmente, habilitar um serviço terciário no Ceará para a realização de cirurgia de afirmação de gênero, principalmente para a mulher trans, sem sucesso. A gente não conseguiu ainda durante todo esse tempo, desde que a gente iniciou a pesquisa com a pele de tilápia.
"A ideia é que a gente consiga, por meio dessa experiência exitosa de Pernambuco, chamar a atenção do estado, poder público interessado, para que a gente possa trazer a habilitação da cirurgia para a Fortaleza", projeta. Segundo ele, até lá, equipes da UFC e da UFPE continuam projeto de pesquisa no qual comparam a pele de tilápia com a técnica tradicional, tentando trazer resultados mais funcionais.
Pele de tilápia: como surgiu o uso
O biomaterial começou a ser pesquisado como um curativo biológico no tratamento de queimaduras há cerca de 11 anos. O uso da pele de tilápia surgiu nos laboratórios do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da UFC para aliviar a dor dos pacientes queimados.
Há cerca de um ano, a UFC assinou contrato com as empresas Biotec Solução Ambiental Indústria e Comércio Ltda. e Biotec Controle Ambiental Ltda., por meio do consórcio Biotec’s, para licenciamento da tecnologia.
Estudo coleciona dezenas de premiações nacionais e internacionais. Uma delas é com o Prêmio Eurofarma de Inovação, uma das mais importantes premiações da medicina brasileira.
Ver nota original ↗
¿Querés un resumen rápido de esta noticia, hecho por nuestra IA?
