DO TRÁFICO À FÉMegatraficante Dote: acusado de matar modelo, ele relatou conversão ao Evangelho Conhecido como Dote, criminoso paraense teve uma trajetória marcada pelo tráfico de drogas, prisão sob forte esquema policial e um relato de conversão religiosa
Apontado como um dos maiores nomes do tráfico de drogas nas regiões Norte e Nordeste, Jocicley Braga de Moura, conhecido como Dote, acumulou uma trajetória marcada por crimes, uma prisão de grande repercussão e uma acusação de assassinato. Capturado em Fortaleza e transferido para Belém em 2012, ele também chamou atenção ao aparecer em um vídeo no qual relatava sua conversão ao Evangelho.
A captura de Dote ocorreu em 13 de abril de 2012, no centro de Fortaleza, no Ceará, durante a comemoração do aniversário de um de seus filhos. A operação foi conduzida por policiais civis da Divisão de Repressão a Furtos e Roubos (DRFR) do Pará, sob o comando do então delegado Eder Mauro, com apoio das forças de segurança cearenses.
Na época, Dote tinha 28 anos e era considerado pelas autoridades um dos principais fornecedores de drogas para o Norte e parte do Nordeste do Brasil.
A prisão foi resultado de uma investigação que se estendeu por aproximadamente um ano e ganhou intensidade nos dois meses anteriores à captura. Durante esse período, policiais percorreram quatro estados em busca do paradeiro do traficante, com diligências no Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte e Ceará.
As equipes chegaram a investigar possíveis endereços de Dote na região dos Lençóis Maranhenses, em Teresina, Natal e Fortaleza. A localização definitiva ocorreu após os agentes identificarem movimentações de pessoas ligadas ao criminoso.
No dia da prisão, Dote havia chegado de uma viagem a Recife e foi abordado ao sair de um edifício de luxo, no centro de Fortaleza. Após a captura, foi levado a um endereço mantido em sigilo pelas autoridades por questões de segurança.
Natural de Belém, Dote cresceu no bairro da Cabanagem, onde, segundo as investigações policiais, começou a comandar o tráfico de drogas aos 12 anos. Com o passar do tempo, ampliou sua atuação para outros estados e passou a manter bases em Manaus, no Amazonas, de onde exercia influência sobre a distribuição de entorpecentes na capital paraense.
Em Fortaleza, no Ceará, também mantinha negócios, incluindo uma concessionária de veículos. A estrutura atribuída a ele ultrapassava as fronteiras do Pará, com ramificações em diferentes regiões do país.
Chegada a Belém sob forte escolta
No dia seguinte à prisão, em 14 de abril, Dote desembarcou no Aeroporto Internacional de Belém, por volta do meio-dia, a bordo de uma aeronave Xingu do Governo do Pará.
De chinelos e sob chuva, ele foi recebido por um forte esquema de segurança, que contou com seis viaturas da Ronda Ostensiva Tática Metropolitana (Rotam). O comboio seguiu até a sede da Delegacia-Geral da Polícia Civil, na avenida Magalhães Barata, onde o preso foi apresentado à imprensa.
A previsão era de que fosse encaminhado ao Centro de Recuperação Penitenciário do Pará III (CRPP-III), unidade considerada de segurança máxima.
A prisão de 2012 não foi a primeira de Dote. Em 11 de fevereiro de 2009, ele havia sido capturado durante uma festa de aniversário em um bar no bairro de São Brás, em Belém. No mês seguinte, conseguiu deixar a prisão por decisão judicial, mas teve uma nova ordem de prisão decretada em abril daquele ano.
Em 27 de julho de 2009, voltou a ser preso, desta vez em Manaus. Entretanto, em outubro, obteve liberdade por meio de um habeas corpus concedido pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).
A situação mudou em dezembro de 2010, quando foi condenado a nove anos e seis meses de prisão, em regime fechado, por tráfico de drogas no Pará. A sentença foi proferida pelo juiz Paulo Jussara Júnior, da Vara de Entorpecentes e Combate às Organizações Criminosas.
Mesmo condenado, Dote permaneceu foragido até ser localizado em Fortaleza, em abril de 2012. Antes disso, sua defesa havia tentado garantir o direito de recorrer da sentença em liberdade, mas o pedido foi negado pelas Câmaras Criminais Reunidas do Tribunal de Justiça do Pará, em abril de 2011.
Na ocasião, a desembargadora Maria de Nazaré Gouveia dos Santos considerou que a condição de foragido e o fornecimento de endereço residencial falso justificavam a manutenção da ordem de prisão. O entendimento foi acompanhado por unanimidade.
Além da condenação no Pará, Dote era procurado pela Polícia Federal no Amazonas por suspeita de tráfico internacional de drogas. Ele também respondia a processos por tráfico nos estados do Paraná e de São Paulo, além da acusação de homicídio no Ceará.
Tráfico desde a infância
Segundo informações divulgadas pelo SBT na época, Dote teria começado a atuar no tráfico aos oito anos de idade, realizando entregas de drogas. Aos 12, já estaria à frente de atividades criminosas.
As investigações também apontavam uma extensa rede de distribuição de entorpecentes. Em abril de 2012, três homens suspeitos de integrar o esquema foram presos na Região Metropolitana de Belém (RMB).
Uma kitnet em Ananindeua teria sido utilizada como ponto de apoio para a organização. Entre os investigados estava um jovem conhecido como Boca, então com 20 anos, apontado como um dos responsáveis pela operação local.
Suspeitas de suborno e ameaças
A atuação de Dote também era associada a tentativas de interferir nas investigações policiais. Conforme reportagens exibidas na época, um delegado afirmou que o traficante teria oferecido R$ 100 mil para que um agente envolvido no caso fosse assassinado.
Ainda segundo a reportagem, no momento da captura, Dote teria oferecido R$ 500 mil aos policiais em troca de sua liberdade. As informações foram apresentadas como denúncias das autoridades à época.
As ameaças contra agentes de segurança também faziam parte das investigações. Segundo informações divulgadas pela Polícia Civil do Pará, Dote teria oferecido R$ 300 mil a dois pistoleiros, em 2008, para assassinar um delegado da Polícia Civil do Pará.
A suposta ameaça teria ocorrido após operações policiais que resultaram no fechamento de laboratórios de refino de drogas ligados à organização criminosa em Belém.
A captura de Dote foi considerada uma das principais ações de combate ao tráfico realizadas pela segurança pública paraense naquele período. A operação mobilizou policiais civis e militares e contou com a colaboração de equipes de outros estados.
Acusação de assassinato de modelo
Além do envolvimento com o tráfico, Jocicley Braga de Moura foi acusado de assassinar a modelo Vanielle de Sousa de Albuquerque de Paula, com quem mantinha um relacionamento amoroso.
O crime ocorreu em Fortaleza, em 2007. A jovem foi deixada seminua, em estado gravíssimo e com sinais de estrangulamento, em frente a um hospital. Ela morreu dias depois.
Em dezembro daquele ano, Jocicley foi denunciado por homicídio triplamente qualificado. Segundo a acusação, o crime teria sido motivado pelo conhecimento que a vítima possuía sobre as atividades criminosas do então namorado.
Na época, ele também era investigado por suspeita de envolvimento em outros dez homicídios.
STJ manteve prisão em 2021
O nome de Dote voltou ao noticiário em janeiro de 2021, quando o Superior Tribunal de Justiça manteve sua prisão no processo relacionado à morte da modelo.
A defesa havia solicitado um habeas corpus, alegando excesso de prazo da prisão cautelar. Entretanto, o então presidente do STJ, ministro Humberto Martins, não acolheu o pedido, pois a questão ainda não havia sido analisada pelo Tribunal de Justiça do Ceará.
Na ocasião, Jocicley ainda não havia sido julgado pelo assassinato. A decisão divulgada em 2021 não permite estabelecer sua situação judicial atual.
Relato de conversão ao Evangelho
Outro capítulo da história de Dote ganhou espaço na internet por meio de uma entrevista concedida ao pastor Valber Duarte. O vídeo, publicado no YouTube em 31 de outubro de 2012, apresenta Jocicley falando sobre sua vida e trajetória.
A gravação recebeu o título “FORTE!!! Traficante DOTE se converte ao Evangelho” e passou a circular como um registro de sua aproximação com a religião.
Ele conta que o abandono do pai, quando ele tinha apenas seis anos, desestruturou a família e levou a casa a situações extremas de privação.
“A minha infância foi uma coisa muito dura, muito sofrida; [ele] abandonou a minha mãe e nós erámos cinco filhos – 3 mulheres e 2 homens. Passemos (passamos) fome; uma irmã minha teve que se prostituir para poder dar o alimento para a gente poder ter o que comer“, relembrou.
Ele descreve que a mãe precisava buscar alimentos descartados em feiras públicas para alimentar os filhos e que sua irmã mais velha chegou a se prostituir na tentativa de garantir o que comer dentro de casa.
Embora tenha se inserido na logística do tráfico e presenciado a própria mãe e as irmãs mais velhas se viciarem ao longo dos anos, Jocicley destaca uma contradição marcante em sua vivência: a recusa absoluta em consumir substâncias ilícitas.
Mesmo imerso no ambiente do crime, ele afirma categoricamente que jamais experimentou qualquer tipo de droga. “Nunca usei nenhum tipo de droga, nunca botei na minha boca”, declarou com firmeza durante a entrevista.
O relato religioso acrescentou um novo elemento à história do homem que, meses antes, havia sido apresentado pelas autoridades como um dos traficantes mais procurados do país. A publicação, entretanto, não esclarece sua situação criminal ou penitenciária atual.
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