O escritor mais ranzinza e genial da literatura marginal - Por Marcos Souza
Bukowski escreve para si aquilo que gostaria de ler, ou seja, são narrativas sem enfeites ou romantismo
Sou seleto, às vezes até exagerado e direto nas escolhas dos livros que me interessam. Ok, não sou nenhuma traça de estantes de livrarias e sebos, mas faço minhas lições literárias com os básicos a que tenho acesso e estendo meus olhos para qualquer publicação que me interesse – às vezes, até bula de remédio resolve (em caso de emergência). Se me perguntarem se já li algum clássico russo, sim, Fiódor Dostoiévski é um autor recorrente, e gosto muito de um livro de contos de Tchekhov.
E eu geralmente gosto de literatura com narrativa seca, direta e sem firulas de linguagem ou exercícios mentais com excesso de contextualização. Por isso mesmo, na literatura estadunidense, meu favorito sempre foi Charles Bukowski, desde que o descobri por meio dos livros “Mulheres” e, depois, “Cartas na Rua”. Ele não tem papas na língua, não faz concessões aos intelectuais.

Bukowski escreve para si aquilo que gostaria de ler, ou seja, são narrativas sem enfeites ou romantismo, utilizando uma linguagem simples, direta e, por vezes, obscena. Seu personagem e alter ego, Henry Chinaski, é o retrato do homem que ele é na vida real: bêbado, sem sutileza alguma, mulherengo e, às vezes, irresponsável. Ele coloca o foda-se em prosa, na verdade!
Tive uma feliz surpresa quando fui atrás de um livro antigo, especificamente sobre OVNIs, e, remexendo no mostruário de pocket books, acabei encontrando três livros do velho beberrão: “Factótum”, “Crônica de um Amor Louco” e “O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio” – esse último com um adicional a mais: ilustrações do genial Robert Crumb.
Como uma criança que encontra seu gibi favorito numa banca de revistas ou um adolescente que encontra seu primeiro amor numa festa da escola, tive os olhos ofuscados pelo brilho de fã. Estava em êxtase! O último livro de Bukowski que havia lido fora “Hollywood” – a obra que narra os bastidores das filmagens de “Barfly”, na visão muito particular do escritor. Vai daí que a emoção era inevitável.
A linguagem popular e trôpega de Bukowski permite uma leitura rápida, como um cruzado no queixo ou um murro seco no estômago. A pegada de sua narrativa, com o personagem alter ego Henry Chinaski, consegue demolir o moralismo hipócrita da sociedade de sua época e permite uma visão crua e real do machismo falido de um bêbado, sem maiores perspectivas em seu cotidiano, apenas vivendo.

“Factótum”, o segundo romance escrito por ele, publicado em 1975, traz a pecha autobiográfica, permitindo sentir piedade e dar risadas da vida pouco convencional de Chinaski, que, deixado de lado pelo Exército na época da Segunda Guerra Mundial, vaga sem rumo por uma América absolutamente besta, canhestra e marginal até a medula. Os caminhos trilhados por Bukowski para conduzir seu alter ego são dos mais sublimes da literatura marginal. Bares e peregrinações ensandecidas levam o autor a traçar um fio condutor impossível para desafiar sua sanha de realizar um único sonho: escrever.
Ah, mas tem “Crônica de um Amor Louco”, cujo exemplar, em rosa e preto, contrasta com a capa, uma fotografia em preto e branco, com um close da vista lateral do rosto feio e cheio de cicatrizes do velho safado. Sua cigarrilha e o olhar fixo em algo, a camisa listrada: tão comum à visão icônica de um escritor único.
“Crônica...” é parte integrante da obra “Ereções, Ejaculações e Exibicionismos”, na qual o personagem Buk se torna protagonista de situações que expõem, sem dó, a América dos fundos de quintais, das ruas sujas, dos bares esfumaçados e das bebidas baratas. São personagens incomuns, marginais, peregrinos da noite, insones que cruzam becos e ainda colhem restos de tragos em copos velhos. Palavras secas, respiração densa e tensa: tudo isso é o somatório que leva a literatura de Bukowski a um nível de altíssima reverência à decadência humana, ainda que o amor seja uma palavra universal em sua linguagem chula e burlesca. Que obra é essa?!?
E tem o saboroso “O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio”, uma outra série de textos curtos, publicada quatro anos após a morte de Bukowski, em 1998, e que vale como registro de um diário no qual o velho escritor narra, com propriedade e lúcidas observações, seus últimos dias. Segundo as informações da editora, os relatos aqui publicados são trechos de seu diário, de agosto de 1991 até fevereiro de 1993. O grande barato é ver suas notas sobre suas idas às corridas de cavalos, onde encontra personagens estranhos e únicos. Afiadíssimo em sua escrita literária, com pitadas de filosofia de bar, vivência e reflexões cotidianas.
Absolutamente impossível não tecer loas tão significativas a alguém que escreve com tanta propriedade sobre sua vida pessoal e, ainda assim, não tem pudor em expor seus defeitos. Três obras que complementam a impressionante história de Charles. E ele tem mais livros geniais, seja em prosa e versos, romances no seu estilo, crônicas, contos; a literatura genuínamente underground e que virou uma das maiores referências. Continuo e sempre serei fã da sua escrita.
RECOMENDO– Para quem ainda não conhece a vida e a obra de Charles Bukowski, a Editora Conrad lançou, há alguns anos, a biografia “Charles Bukowski: Vida e Loucuras de um Velho Safado”, escrita por Howard Sounes. Literatura altamente recomendável
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