A voz das urnas e um olhar para o futuro
Fechadas as urnas, proclamado o resultado, é hora de encarar a agenda brasileira para os próximos quatro anos. O importante é a democracia brasileira ter se mostrado revigorada ao realizar a 10ª eleição livre e democrática da Nova República. Os desafios não são poucos.
Quais são os recados deixados pelas urnas? Quais são os impactos e os cenários futuros?
Como ficou a sociedade, que é a única personagem permanente, já que partidos políticos e líderes passam? A sociedade sobrevive anos, décadas, séculos. Processa mudanças, renova energias, supera crises e dificuldades. A sociedade brasileira sai das eleições com a calcificação da polarização – termo criado pelo professor Felipe Nunes – reafirmada e fortalecida. A fratura do tecido social ficou exposta num resultado apertado, fruto mais de rejeições do que de identidades. Os fatos ocorridos nos dias posteriores ao resultado renovaram a percepção radicalizada de parte importante da opinião pública, fortaleceram teorias da conspiração, nublaram o triunfo do vitorioso e trouxeram novamente o STF para o centro dos holofotes.
Como ficam Lula, o PT e a esquerda? Foi uma virada espetacular, inédita e improvável, a partir de forte mobilização digital e de rua no segundo turno. Maquiavel dizia que o “bom Príncipe” deveria ter sorte e virtude. É inegável que Lula é possuidor das duas características. Passará inegavelmente para a história como o maior político da Nova República. Uma estatura que o coloca ao lado de Vargas, JK e FHC. Mas ele é o único quatro vezes eleito presidente da República. É o fim de um ciclo geracional. Uma nova era será aberta em 2030. E o PT e a esquerda terão que se reinventar no pós-Lula.
O PT e a esquerda elegeram apenas quatro governadores, todos no Nordeste. Ficaram mais ou menos do mesmo tamanho no Senado e na Câmara. PDT e Cidadania caminharam para o desfecho de suas trajetórias ao não alcançarem a cláusula de desempenho. O PSB saiu menor. O PSOL consolidou-se como alternativa crítica à esquerda do PT. A vitória heroica de Lula não deve obscurecer a necessidade de o PT e a esquerda repensarem seu futuro, dando voz à nova geração que chegou. Rafael Fonteles e Camilo Santana parecem representar um PT mais moderno e arejado.
A direita venceu os principais governos estaduais, fez maioria no Senado e expressiva bancada na Câmara dos Deputados. Foi portadora de verdadeiros fenômenos eleitorais e digitais como Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, André Fernandes e Julia Zanata, entre outros. Venceu, surpreendentemente, com Flávio Bolsonaro, o primeiro turno nas eleições presidenciais. Tudo indica que a campanha tenha subido no salto alto ao achar que a parada já estava ganha. Erros foram cometidos nos debates e no pós-campanha. Com a fuga de Flávio para o exterior, a família Bolsonaro deve perder peso relativo no espectro da direita, apesar de ter elegido Michelle e Carlos, senadores, e Jair Renan, deputado federal. Uma nova e forte direita deverá surgir sob a liderança de Tarcísio de Freitas, governadores conservadores e expoentes parlamentares como Rogério Marinho e Tereza Cristina. Mais uma vez, os jovens campeões de voto jogarão papel essencial nessa construção.
O centrão, que não cultiva projeto presidencial de poder, continuará desempenhando seu papel de pêndulo da governabilidade. Os partidos deverão compor o ministério, e a relação com Lula continuará entre “tapas e beijos”. Davi Alcolumbre e Hugo Motta terão espaço decisivo nesse enredo.
Já o centro democrático encolheu e se assustou, assim como o centrão, com o desempenho das celebridades digitais, que roubaram preciosas cadeiras no Parlamento. PSD, MDB e PSDB têm que repensar seus caminhos, reconstruir seu futuro. Quem sabe com uma fusão partidária que os fortaleça. Novos atores como Raquel Lyra, Helder Barbalho, JHC, Eduardo Leite e Daniel Vilela poderão produzir renovação de ares e reconstruir, quem sabe, um projeto de poder em 2030.
Lula terá grandes limitadores em seu quarto mandato: minoria no Congresso; estrangulamento fiscal; crise institucional renovada envolvendo sociedade, Congresso e STF; e um cenário internacional desafiador. Cabe a ele, do alto de seus 81 anos e de sua experiência vitoriosa, exercer ao máximo suas virtudes e não abusar da sorte. Não seria mal se, em seu descanso da campanha, ele lesse “O Príncipe” e a “Arte da Guerra”.
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