Diário do Rio de Janeiro
31/10/2026 09:30

Ilha Seca: o pedaço esquecido do Centro do Rio que ressurge entre sobrados, restaurantes e tesouros de prata

Na esquina da Rua Teófilo Otoni com a Rua Miguel Couto, um conjunto de sobrados históricos com 3.600 metros quadrados foi vendido a investidores paulistas. Quase em frente, o Restaurante Málaga mantém uma boa razão para prolongar o almoço no Centro: seu celebrado leitão. Nas proximidades, o Beco das Sardinhas recebe encontros literários e atrai novos negócios gastronômicos, enquanto o Beco do Bragança reúne bares, galerias e lojas de design. Entre fachadas restauradas e construções que ainda aguardam recuperação, esses movimentos acontecem ao redor de um pedaço do Rio cujo antigo nome praticamente desapareceu da memória carioca: a Ilha Seca. 

Em agosto de 1951, José Heitgen dedicou duas páginas da revista Vida Doméstica a procurar essa ilha esquecida que já não era facilmente reconhecida. A reportagem “A ilha sêca”, acompanhada de quatro fotografias e de um desenho da Teófilo Otoni, percorria ruas que haviam mudado de nome, recordava construções demolidas e recuperava personagens da cidade colonial. Setenta e cinco anos depois, o relato permite acrescentar profundidade histórica a endereços que voltam ao noticiário por suas mesas, seus imóveis e suas possibilidades de recuperação.

O próprio cronista não apresentou uma fronteira inteiramente fechada. Sua conclusão situava a Ilha Seca entre as atuais Avenidas Presidente Vargas e Marechal Floriano, com extremos na Rua da Conceição e, provavelmente, na Miguel Couto. A dúvida recaía especialmente sobre sua extensão na direção desta última. Heitgen também não tinha certeza de que a área começasse antes da antiga vala da Rua Uruguaiana, mas considerava indiscutível sua continuidade da vala até a Rua da Conceição.

Esse é o núcleo geográfico da reportagem: o trecho da Teófilo Otoni próximo à Miguel Couto, à Uruguaiana e à Conceição, com os caminhos que o ligam ao Largo de Santa Rita. O Bragança e os endereços em direção à Orla Conde entram como conexões próximas dessa região, sem que seja necessário ampliar artificialmente os limites que o autor procurou estabelecer.

Chão seco no meio dos alagados

Para explicar o lugar, Heitgen recuava aos anos de 1600. Nas proximidades do Morro da Conceição, descrevia um charnecal onde se encontravam patas e marrecos. Em meio ao terreno encharcado, uma faixa de chão mais firme sobressaía como uma ilha, separada virtualmente da cidade pelos brejos e pelas águas.

O nome pertencia, portanto, a uma paisagem muito diferente daquela que hoje se reconhece entre calçadas, lojas e edifícios. Antes dos aterros e da consolidação dos quarteirões, havia áreas úmidas, passagens difíceis e pequenos trechos secos que orientavam os deslocamentos. A antiga Ilha Seca era uma referência dessa geografia.

O passeio da revista vinha da Rua dos Pescadores, identificada pelo cronista como a Rua Visconde de Inhaúma, e entrava pela Rua Estreita, associada ao eixo da atual Marechal Floriano. Antes de prosseguir, porém, Heitgen fazia uma parada no Beco dos Cachorros, anteriormente conhecido pelo nome de Gaspar Gonçalves.

Ali aconteciam brigas de galos, acompanhadas de apostas em que os frequentadores ganhavam ou perdiam suas patacas. Segundo o autor, não havia rinhas propriamente organizadas: os animais se enfrentavam em pequenos terreiros cercados por tábuas ou pedras. Existia também um jogo de bola, embora Heitgen não soubesse determinar se, naquele tempo, o beco ainda se chamava Gaspar Gonçalves ou já havia recebido o nome de Cachorros.

As mudanças de denominação atravessavam todo o percurso. O Beco dos Cachorros também fora conhecido como Travessa de Santa Rita, recentemente rebatizada, à época da reportagem, de Rua Alcântara Machado. A Rua Estreita aparecia ainda como Rua Estreita de São Joaquim, enquanto a ladeira da Conceição já era identificada como Rua Major Daemon. O cronista precisava traduzir as placas para que seus leitores encontrassem continuidade entre a cidade antiga e a de 1951.

Uma vala que se atravessava com um salto

Ao chegar à vala, Heitgen convidava o leitor a atravessá-la com um salto. Tratava-se, em sua descrição, de um canal estreito, que desembocava nas proximidades do Aljube. Junto dele passava a muralha construída entre 1713 e 1718, já então precária e, segundo o relato, com apenas seis pés de altura naquele trecho.

O autor recordava que havia escrito anteriormente sobre o muro da cidade, em uma edição de setembro da revista. Aproveitava também para identificar a Rua do Aljube, depois chamada Rua da Prainha, como a então Rua Leandro Martins. A sucessão dos nomes acompanhava as diferentes funções de uma região que fora margem da cidade, lugar de defesa, passagem e expansão urbana.

Na paisagem colonial reconstruída pelo texto, o Morro da Conceição ainda era verdejante. A subida não passava de um caminho tortuoso; o palácio episcopal e a fortaleza ainda não coroavam seu alto. O Aljube, associado à prisão e à vigilância, aparecia como parte de uma transformação posterior daquele cenário.

Nas digressões sobre os arredores, Heitgen fazia referência à vida noturna e aos encontros amorosos fora do muro, recorrendo ao vocabulário e às imagens de seu tempo. Seu passeio reunia a geografia construída, os costumes e as histórias que os nomes das ruas já não conseguiam contar sozinhos.

A memória da escravidão diante de Santa Rita

Rua Teófilo Otoni, na região da antiga Ilha Seca, em ilustração publicada na revista Vida Doméstica, em agosto de 1951. A perspectiva registra sobrados, pedestres e automóveis no Centro do Rio
Rua Teófilo Otoni, na região da antiga Ilha Seca, em ilustração publicada na revista Vida Doméstica, em agosto de 1951. A perspectiva registra sobrados, pedestres e automóveis no Centro do Rio - Colorização digital com cores interpretativas, preservando o caráter do desenho original

Mais adiante, o olhar se voltava para o Valongo. Heitgen recordava a violência do comércio de pessoas escravizadas, transportadas da África e negociadas como mercadoria. Mencionava uma antiga casa desse comércio, de paredes espessas e grades de ferro no centro de um terreno, que teria sido demolida poucos meses antes da publicação.

Segundo o autor, o imóvel funcionara posteriormente como fábrica de remédios. O terreno também fora utilizado para sepultamentos. A passagem registrava, em 1951, o desaparecimento de uma construção que o cronista associava à história do tráfico e da escravidão.

Perto do antigo sítio do Valverde, ele situava ainda um cemitério de pessoas negras diante da Igreja de Santa Rita de Cássia. Mas rejeitava a conclusão de que a Ilha Seca fosse simplesmente o Largo de Santa Rita. Para explicar sua interpretação, lembrava a existência de outros cemitérios mais próximos da cidade, como o do Largo da Carioca, e observava que Santa Rita já possuía nome próprio.

Era uma tentativa de distinguir os lugares, não uma solução definitiva para toda a geografia antiga. O valor da reportagem está também em conservar as dúvidas de quem pesquisava nomes e caminhos quando parte de suas referências materiais já havia desaparecido.

A Ópera dos Vivos e o padre que subia ao palco

O passeio alcançava a antiga Rua da Ópera dos Vivos, identificada como a Rua dos Andradas, anteriormente chamada Rua do Fogo. Heitgen atribuía a denominação a uma casa de diversões conhecida como Ópera dos Vivos, que existira ali por volta de 1748 e era dirigida por um padre chamado Ventura.

O cronista recorria ao médico e historiador José Vieira Fazenda, que escrevera sobre o estabelecimento. Entre os episódios recordados estava o de Conde da Cunha, futuro vice-rei, que teria assistido, durante uma passagem pela cidade, a um espetáculo em uma casa próxima da praia.

O que mais surpreendera o visitante, segundo a narrativa, fora o diretor: um padre de batina, corcunda e de pele parda, que comandava o teatro e regia a orquestra. De vez em quando, subia ao palco para tocar violão, cantar modinhas e dançar o fado.

Heitgen acrescentava que o teatro acabara incendiado em uma noite de espetáculo e que o nome Rua do Fogo era anterior ao de Ópera dos Vivos. A história de uma rua se desdobrava, assim, em música, teatro, um incêndio e uma figura capaz de impressionar quem passava pela cidade.

Uma casa ligada à Independência

Na esquina da Rua Estreita com a Rua dos Andradas, também chamada Rua das Vielas ou dos Três Cegos, a reportagem recordava um grande prédio assobradado que ainda existira cerca de quarenta anos antes.

Segundo Heitgen, a construção pertencera à família Marinho, dona do Engenho de Tapacuá, e depois passara ao oficial da Marinha José Domingos Moncorvo, antepassado de Moncorvo Filho, cujo nome ficou associado ao hospital da rua que o homenageia.

Português de nascimento, Moncorvo teria aderido à causa da Independência e contribuído financeiramente para a construção de um navio de guerra. O cronista registrava uma reunião realizada em sua casa em 24 de junho de 1821, quando partidários da emancipação teriam fundado a loja maçônica Comércio e Artes e discutido planos favoráveis à Independência.

A caminhada seguia até a Rua da Conceição e a esquina da antiga Rua de São Pedro, deixando a Rua das Violas à esquerda. Para demonstrar que Ilha Seca era uma referência antiga, Heitgen recorria a uma carta de aforamento passada pela Câmara em 4 de outubro de 1786.

O documento descrevia um terreno com três braças de frente na Rua de São Pedro, da vala para o campo, e sete braças de fundo para a Ilha Seca, fazendo esquina com o caminho que ia da capelinha da Conceição à Pedreira. O nome não era apenas uma lembrança vaga: servia para localizar propriedades e descrever suas confrontações.

A rua dos fabricantes de instrumentos

Ao entrar na Rua das Violas, anteriormente chamada Domingos Coelho, Heitgen considerava estar na Ilha Seca. A atual Teófilo Otoni teria recebido aquela denominação por concentrar oficinas de violeiros, fabricantes de violões e cavaquinhos.

O autor demonstrava afeição pelo nome antigo, que lhe parecia conservar a presença dos instrumentos de corda e sua ligação com o canto popular. A rua podia ser reconhecida pelo trabalho feito em suas oficinas, pelos objetos produzidos e pela atividade dos artífices.

É uma camada da história que modifica a leitura do endereço atual. Antes de aparecer nas notícias de negócios imobiliários ou nos roteiros de restaurantes, a Teófilo Otoni guardara uma identidade ligada à fabricação de instrumentos e à música da cidade.

Mas os violeiros não eram os únicos artesãos a trabalhar ali.

José de Oliveira Coutinho, o grande prateiro da Rua das Violas

Um dos mestres da prata carioca mantinha seu endereço justamente nessa rua. José de Oliveira Coutinho, reconhecido nas peças pela punção JOC, estava estabelecido na Rua das Violas, 142, em 1854, conforme a pesquisa documental recuperada pelo DIÁRIO DO RIO e publicada em setembro.

A informação esclarece uma exceção importante. Embora a vizinha Rua dos Ourives concentrasse grande parte dos profissionais do ramo, o endereço conhecido de Coutinho ficava na rua hoje chamada Teófilo Otoni. A história daquele eixo não se limitava, portanto, aos instrumentos musicais: também abrigava o trabalho de um dos grandes artífices da prata do Rio imperial. 

Foi Coutinho quem executou, entre 1851 e 1855, a monumental banqueta de prata da Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, na Rua do Ouvidor. O conjunto compreendia uma cruz de 2,15 metros de altura, seis castiçais e seis jarras com suas respectivas palmas ornamentais.

O próprio Heitgen havia apresentado essa obra em outra reportagem da Vida Doméstica, publicada em fevereiro de 1950. Além de descrever a banqueta, mostrou moldes de uma palma e de um laço utilizados em sua fabricação. As chapas de prata eram aplicadas às formas e trabalhadas com ferramentas delicadas, recebendo o relevo e a ornamentação desejados. 

A ligação entre a antiga Rua das Violas e a igreja dos comerciantes voltou ao noticiário em setembro de 2026. O DIÁRIO relatou a localização, em Lisboa, de quatro tocheiros monumentais e da cruz da banqueta, desaparecidos havia décadas. A apuração sobre o patrimônio da Lapa dos Mercadores recuperou também o endereço oitocentista do artista responsável por aquelas peças. 

O número 142 de 1854, entretanto, não pode ser automaticamente identificado com a casa de mesmo número descrita por Heitgen em 1951. A equivalência depende de verificar as mudanças de numeração. O que a documentação permite afirmar é a presença de Coutinho na antiga Rua das Violas, devolvendo à história daquele logradouro um personagem de primeira grandeza da arte sacra carioca.

O largo que talvez sobreviva no desenho da rua

1 — Rua Alcântara Machado, antiga Travessa de Santa Rita. Nº 2 — Casa nº 183–185 da Rua Teófilo Otoni. Nº 3 — Rua dos Andradas, antigamente Rua do Fogo. Nº 4 — Trecho da Rua dos Andradas, na antiga Ilha Seca
1 — Rua Alcântara Machado, antiga Travessa de Santa Rita. Nº 2 — Casa nº 183–185 da Rua Teófilo Otoni. Nº 3 — Rua dos Andradas, antigamente Rua do Fogo. Nº 4 — Trecho da Rua dos Andradas, na antiga Ilha Seca - Fotografias publicadas na revista Vida Doméstica, em agosto de 1951. Colorização digital

Entre a Miguel Couto, antiga Rua dos Ourives, e a Uruguaiana, Heitgen observava um alargamento triangular da Teófilo Otoni. A razão daquele desenho lhe escapara até encontrar referências a um Largo de João Batista na Ilha Seca e a um beco com o mesmo nome.

Seria aquele pequeno espaço o antigo largo? O autor não fechou a questão. Também não conseguiu localizar o desaparecido Beco de João Batista, apesar das pesquisas que disse ter realizado.

O desenho publicado na segunda página da reportagem mostra a Teófilo Otoni e sugere, na legenda, que aquele trecho talvez correspondesse ao antigo largo. A imagem vale como registro da paisagem de 1951, acompanhada de uma hipótese histórica que o próprio cronista teve o cuidado de não apresentar como certeza.

O cirurgião francês e a fábrica de anil

O João Batista associado ao largo seria um cirurgião francês, identificado na revista como João Batista Darrigue, ou Berrigue, morador de um sobrado naquele trecho da rua.

Heitgen atribuía a ele a percepção das possibilidades econômicas do índigo, planta da qual se extraía o anil. O francês teria sugerido ao Marquês do Lavradio, vice-rei do Brasil, seu cultivo em grande escala, atraído investidores e montado uma fábrica.

O empreendimento consumira 16 mil cruzados, quantia apresentada como respeitável. Teria fracassado, porém, porque faltava conhecimento sobre a extração do corante.

O cronista lembrava que muito índigo fora plantado nos arredores do Rio. Em 1951, dizia não ter notícias de cultivo regular, embora encontrasse a planta espontaneamente em diferentes lugares. Acrescentava a informação de que existira uma fábrica de anil em Vila Isabel, onde houvera uma Rua do Anil.

A digressão ampliava o retrato da Ilha Seca: oficinas, residências e comércio conviviam com personagens envolvidos nas experiências econômicas da administração colonial.

Bocage também esteve por ali

Outro nome associado à região era Manuel Maria Barbosa du Bocage, nascido em Setúbal, em 1765, e morto em 1805, conhecido literariamente como Elmano Sadino.

Segundo Heitgen, o poeta passara alguns meses no Rio e morara em uma casa da Ilha Seca durante o governo do vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa. O autor supunha que a viagem ao Oriente pudesse ter uma natureza próxima do degredo.

Há, nesse ponto, uma correção cronológica necessária. A revista indicou partida de Lisboa em 4 de abril de 1787 e chegada a Goa em outubro daquele ano. A viagem com escala no Rio, contudo, é situada em 1786 pelo Centro Nacional de Cultura, de Portugal, e pela documentação apresentada em uma exposição do arquivo municipal de Setúbal.

A reportagem acrescentava que outro Bocage, avô materno do poeta, chegara ao Brasil antes dele. Nascido em Cherburgo, na Normandia, teria ingressado na Marinha portuguesa em 1704 e vindo posteriormente para o Rio.

Heitgen ligava esse antepassado à defesa da cidade durante a invasão de Duguay-Trouin, em 1711, apresentada pelo cronista como represália ao assassinato de Duclerc. Uma bateria comandada pelo avô de Bocage, no Morro de São Bento, teria causado estragos às forças francesas que procuravam ocupar a Ilha das Cobras. Segundo o texto, a atuação fora reconhecida pelo próprio almirante invasor.

Menino no frontão, ferro nas portas e azulejos na fachada

Ao terminar o passeio, Heitgen chamou atenção para duas construções da Teófilo Otoni. Uma era a casa de número 142, datada de 1878. No frontão, havia uma figura de menino segurando um monograma; sobre as portas principais, ornamentos de ferro fundido representavam motivos industriais.

A outra, de números 183–185, trazia a data de 1879 e possuía fachada revestida de azulejos. Os beirais tinham telhas de faiança com arremates azuis. Uma das fotografias da reportagem registrava essa construção.

As demais imagens mostravam a Alcântara Machado, a Rua dos Andradas e um trecho identificado na legenda como o antigo centro da Ilha Seca, nas proximidades do Beco do Fogo. O conjunto visual complementava o passeio: ruas estreitas, sobrados, automóveis e fachadas que já conviviam com edifícios mais altos.

Os endereços e detalhes pertencem ao registro de 1951. Sem uma identificação complementar, não cabe presumir que a numeração e todos os elementos descritos tenham atravessado intactos os 75 anos seguintes. Mas a escolha do cronista revela o que merecia ser observado: uma data, o ferro de uma porta, o acabamento de um telhado, a cerâmica de uma fachada.

A esquina que voltou ao mercado

A conexão mais direta com o noticiário atual está na esquina da Teófilo Otoni com a Miguel Couto. Em 5 de março de 2026, o DIÁRIO DO RIO noticiou a venda de um conjunto de sobrados históricos a investidores de São Paulo.

O complexo reúne cerca de 3.600 metros quadrados em quatro pavimentos, com elevadores modernos e elementos arquitetônicos preservados. A negociação foi intermediada pela Sérgio Castro Imóveis; anteriormente, a propriedade pertencera ao Grupo Opportunity. O conjunto abrigara um grande restaurante atingido por um incêndio e fora restaurado. 

A recuperação arquitetônica desse encontro de ruas também aparece em documentação do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade. O órgão descreveu o chamado Edifício Miguel Couto, com endereços nas duas vias, como um conjunto originalmente formado por nove blocos de tipologia e altura semelhantes.

O relatório destacou os arcos, a cantaria de granito carioca, os ornatos em estuque e a esquina chanfrada. Registrou ainda a conclusão da obra no fim de 2018 e a emissão do certificado de adequação em 2019. 

A notícia da venda e o registro da restauração permitem acompanhar uma transformação concreta. A arquitetura antiga volta a ser considerada para novos usos, com infraestrutura adaptada e preservação dos elementos que dão identidade à esquina.

O leitão do Málaga e a vida ao redor de Santa Rita

Na Miguel Couto, 121, quase na esquina com a Teófilo Otoni, o Málaga oferece outra forma de continuidade. Em reportagem publicada em 20 de junho, Cláudio André de Castro apresentou o leitão como a grande atração da casa, instalada em um sobrado tradicional.

O texto observava os prédios restaurados em frente ao restaurante e os sinais de abandono que ainda permaneciam nas redondezas. Também relacionava a experiência gastronômica à recuperação do Beco das Sardinhas e à presença da Igreja de Santa Rita, cuja programação religiosa contribui para a circulação de fiéis e visitantes. 

Nesse pedaço do Centro, a recuperação pode ser acompanhada pela permanência dos restaurantes, pela ocupação das mesas e pela volta de atividades que ajudam a sustentar o movimento das ruas. O Málaga faz parte dessa história como um estabelecimento tradicional que continua oferecendo um motivo próprio para frequentar a região.

Aos sábados, a literatura acrescentou outra atração. O DIÁRIO acompanhou a Feirinha Literária da Santa Rita, criada pelo escritor Henrique Rodrigues em parceria com o empresário e produtor cultural Raphael Vidal.

Em setembro, o evento recebeu Eliana Alves Cruz e promoveu debates e encontros ao longo do dia no Beco das Sardinhas. A programação oferece um exemplo documentado de ocupação do Centro para além do expediente dos escritórios. 

Do Beco das Sardinhas ao Bragança

Nas proximidades, o Beco do Bragança mostra outra combinação de atividades. Em agosto, o DIÁRIO DO RIO registrou a presença do Mergulho Bar, da Vidadura Galeria, da Firma, da Tapilogie, da Casa Capioca e da Cabiúna, distribuídos pelo beco e por endereços vizinhos.

Música, arte, gastronomia, tapetes e mobiliário passaram a ocupar sobrados e pavimentos, ampliando os usos de uma região marcada por sua arquitetura histórica. O Bragança funciona como ligação próxima com o território descrito por Heitgen, embora não seja necessário incluí-lo integralmente no perímetro proposto para a Ilha Seca. 

Esse movimento também apareceu na VEJA Rio. Em 9 de outubro, Lucas Vieira publicou “De volta para o Centro: novos empreendimentos aquecem o Rio de Janeiro”, apresentando o Bragança como um dos lugares em que os negócios procuram ampliar a permanência do público na região.

A reportagem informou ainda que Raphael Vidal preparava quatro casas no Beco das Sardinhas: Fumeiro Santa Rita, Galeto Comendador, Bife Gracioso e Pensão. Eram aberturas previstas para 2026, condição que precisa ser distinguida do funcionamento efetivo de cada estabelecimento.

O interesse contemporâneo pelos sobrados ganha, assim, diferentes formas. Há quem procure espaço para um restaurante, uma galeria ou uma loja; há quem recupere grandes conjuntos para novos empreendimentos. Em todos esses casos, a arquitetura participa da atividade econômica e da experiência de frequentar o Centro.

O patrimônio que ainda espera recuperação

A retomada convive com problemas que permanecem visíveis no noticiário. A Teófilo Otoni e a Visconde de Inhaúma apareceram na cobertura do DIÁRIO entre os trechos com casario degradado alcançados pela discussão do Reviver Centro Patrimônio Pró-APAC.

Em maio de 2025, o jornal noticiou o lançamento do plano e a consulta pública destinada a identificar imóveis abandonados ou deteriorados em núcleos do Centro. Entre os instrumentos anunciados estavam a desapropriação e a participação privada por meio de hasta pública, com recuperação e adaptação das construções para novos usos.

A inclusão de uma região nas iniciativas de recuperação não significa, entretanto, que as desapropriações ou as obras já tenham sido executadas. Na Teófilo Otoni e nas áreas próximas, os anúncios e as possibilidades de intervenção precisam ser acompanhados até sua realização.

É essa convivência entre atividade, restauração e abandono que dá atualidade ao passeio de 1951. Na antiga Ilha Seca, os terrenos alagadiços deram lugar às ruas; os nomes dos artífices e das oficinas se perderam das placas; casas foram demolidas, adaptadas ou recuperadas. Outros edifícios continuam esperando uma destinação que permita conservá-los.

Heitgen deixou um retrato dessa região quando o nome Ilha Seca já exigia explicação. Hoje, seu texto ajuda a reconhecer a profundidade de lugares que reaparecem nas notícias: a rua dos fabricantes de violas também foi endereço de José de Oliveira Coutinho; a esquina dos sobrados negociados pertence a uma geografia colonial; o almoço no Málaga e os encontros de Santa Rita acontecem entre caminhos que guardam séculos de circulação e trabalho. Sob as portas que voltam a abrir, permanece uma parte do Rio que o cronista procurou impedir que fosse esquecida.

📄 Contenido indexado automáticamente. No es de autoría de altabusqueda.com; los derechos pertenecen a su fuente: Diário do Rio de Janeiro.
Ver nota original ↗
🤖 Profundizá esta noticia con OIMA (IA)

¿Querés un resumen rápido de esta noticia, hecho por nuestra IA?

Respuestas de OIMA · IA, sobre esta noticia · Abrir OIMA Chat ↗
💬 0

Comentarios

También te puede interesar

Cemitério da Penitência terá instalação interativa no Dia de Finados
Diário do Rio de Janeiro
Crematório e Cemitério da Penitência - Foto: Reprodução O Crematório e Cemitério da Penitência, localizado no…
GENTE DO RIO - Dan Stulbach volta aos palcos do Rio; Thiago Martins na próxima novela das 19h da Globo & outras novidades
Diário do Rio de Janeiro
Nova Friburgo recebe 1ª Caravana de Inovação e Inclusão do Sesc Senac
Diário do Rio de Janeiro
Caravana da Inclusão - Divulgação 
 
 Nos dias 3 e 4 de novembro, o Centro de Referência em Educação …
Coronel do CBMERJ conquista 13 medalhas em competição no México
Diário do Rio de Janeiro
CBMERJ no México - Divulgação 
 Um coronel do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro (CBM…
Após investimentos, Hospital Carlos Tortelly, em Niterói amplia capacidade assistencial
Diário do Rio de Janeiro
Hospital Municipal Carlos Tortelly - Divulgação O Hospital Municipal Carlos Tortelly (HMCT), em Niterói, regi…
Rio registra aumento de 1,35% na cesta básica em setembro
Diário do Rio de Janeiro
Mulher carrega cesta básica, item que ficou mais barato em agosto — Foto: Divulgação - Mulher carrega cesta b…