Um novo tempo para o Repouso Santa Maria, herança viva da caridade carioca em Jacarepaguá
Na Rua Japurá, em Jacarepaguá, uma história de acolhimento está ganhando um novo capítulo. O Repouso Santa Maria–São Manoel, obra assistencial da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, passa por uma ampla reforma destinada a recuperar suas instalações e ampliar o atendimento. Hoje, cerca de 70 idosos residem no local. Com as intervenções, a capacidade deverá alcançar aproximadamente 250 residentes, abrindo espaço para que mais pessoas sejam acolhidas por uma instituição cuja trajetória reúne legados, dedicação de religiosas e o trabalho de gerações de benfeitores.
O projeto apresentado para essa transformação permite imaginar o percurso de quem chegará ao número 555: a fachada recuperada, a entrada renovada e, mais adiante, os espaços de convivência cercados de vegetação. Bancos distribuídos pelo jardim, uma fonte e ambientes destinados ao encontro compõem a proposta, que inclui dormitórios reestruturados e a renovação dos espaços internos. São intervenções voltadas a devolver conforto e qualidade aos ambientes onde se desenvolve a missão da casa, preparando-a também para receber novos moradores.
A identidade apresentada para esse novo momento traz a frase “Onde cuidar é humanizar”. No Repouso, a proposta se liga a uma tradição muito anterior à construção do edifício de Jacarepaguá. Sua história começa em outros endereços do Rio de Janeiro, quando a Misericórdia procurava dar destino digno a mulheres idosas que já não tinham condições de viver sozinhas ou de permanecer nas enfermarias dos hospitais.
A Santa Casa faz parte da vida carioca desde o século XVI. Tradicionalmente associada ao ano de 1582 e à atuação de São José de Anchieta, sua trajetória acompanha a própria formação da cidade. Ao longo dos séculos, a Irmandade reuniu esforços para tratar enfermos, acolher pessoas desamparadas, educar crianças e assegurar sepultamento aos que não tinham recursos. A tradição católica das Misericórdias encontrou no Rio uma expressão duradoura, sustentada pelo trabalho de irmãos, religiosas, profissionais e benfeitores.
Parte importante dessa história foi construída por pessoas que confiaram à instituição bens e recursos para que a caridade continuasse depois de suas mortes. Casas, terrenos e rendas passaram a sustentar obras assistenciais, ligando o patrimônio urbano às necessidades de quem precisava de ajuda. O Repouso Santa Maria–São Manoel é um dos lugares em que essa relação pode ser acompanhada através das gerações.
Uma de suas origens está no antigo Asilo Santa Maria, cuja inauguração é registrada pela documentação institucional em 24 de maio de 1884. Em sua trajetória, o estabelecimento acolheu mulheres sem recursos e idosas que antes permaneciam nas dependências do Hospital Geral da Santa Casa. A assistência foi sendo organizada para oferecer uma casa a quem necessitava de cuidados prolongados, com participação das Irmãs de Caridade.
A outra origem conduz ao Catete, aos antigos imóveis da Zona Sul e à vontade de uma benfeitora. Em testamento firmado em 1915, Luiza Amalia Ferreira de Castro, a Baronesa do Flamengo, determinou que uma propriedade sua na Rua do Catete, depois da morte de sua sobrinha e afilhada, passasse à Santa Casa. O destino estabelecido era a criação de um asilo para senhoras desamparadas, sob a denominação de São Manoel, em homenagem ao pai da doadora.
A casa funcionou no Catete até 1964. Os registros históricos descrevem um endereço cercado pelo movimento intenso da cidade: bondes, caminhões e ônibus passavam diante do portão, levando ruído e poeira para perto dos aposentos. O acolhimento permanecia, mas crescia a necessidade de oferecer instalações mais adequadas às moradoras.
Foi durante a provedoria do ministro Afrânio Antônio da Costa que tomou forma o projeto de reunir as duas instituições em um edifício planejado para essa finalidade. A construção em Jacarepaguá contou com recursos da própria Irmandade, provenientes também de seu patrimônio: a venda de uma antiga propriedade e a renda obtida com o imóvel do Catete ajudaram a viabilizar a mudança.
Em 8 de dezembro de 1964, foi inaugurado o Repouso Santa Maria–São Manoel. A nova sede reunia as duas obras em um terreno arborizado, escolhido para proporcionar melhores condições de acolhimento. A mudança representou a continuidade de compromissos assumidos décadas antes, agora acomodados em instalações concebidas para as necessidades das senhoras idosas.
Ao longo dessa trajetória, jardins, capela, refeitório e salas de convivência fizeram parte de um cotidiano no qual assistência material e religiosa caminhavam juntas. A dedicação das Irmãs de São Vicente de Paulo marcou a história da casa, assim como a preocupação em oferecer cuidado digno às moradoras, independentemente de seus recursos financeiros.
Trabalhos de crochê e tricô, apresentações ao piano, festas juninas e comemorações natalinas também integram a memória do Repouso. Aniversários reuniam familiares e convidados, enquanto peças produzidas pelas moradoras eram expostas e vendidas em benefício das próprias artesãs. Entre refeições, visitas e atividades manuais, construía-se uma vida comunitária na qual cada pessoa pudesse conservar seus interesses e vínculos.
É essa trajetória que a reforma em andamento pretende valorizar e ampliar. A recuperação da fachada principal, a reestruturação dos dormitórios e a proposta de renovação das áreas de convivência e do paisagismo dão forma ao esforço de preparar o Repouso para seus próximos anos. Nas imagens do projeto, o jardim ocupa um lugar central, articulando os espaços de encontro e a presença do verde que marcou a escolha de Jacarepaguá para receber a instituição.
A previsão de elevar a capacidade para aproximadamente 250 idosos dá à revitalização uma dimensão assistencial importante. A obra permitirá que o acolhimento hoje oferecido a cerca de 70 residentes possa alcançar um número muito maior de pessoas, ampliando a presença da Misericórdia no cuidado com a população idosa da cidade.
A transformação também ajuda a tornar conhecida uma face da Santa Casa que muitos cariocas encontram apenas quando precisam dela. Sua história se espalha pela cidade em hospitais, obras educacionais e casas de acolhimento. No Educandário da Misericórdia, na Rua São Clemente, essa missão se traduz na educação de crianças; na Rua Japurá, encontra expressão no cuidado com a velhice.
A revitalização do Repouso integra um movimento mais amplo de recuperação da Santa Casa, acompanhado pelo DIÁRIO DO RIO. Sob a provedoria do magistrado Francisco Horta, a instituição recuperou mais de R$ 300 milhões em ativos imobiliários, retomou dezenas de propriedades e passou a revisar contratos e reorganizar receitas destinadas à manutenção de suas obras. Na frente judicial, afastou cobranças superiores a R$ 200 milhões, incluindo disputas sobre honorários advocatícios de R$ 127 milhões e R$ 85 milhões, além de obter o cancelamento de uma multa trabalhista de aproximadamente R$ 1,9 bilhão. O saneamento também avançou no cumprimento das obrigações: segundo os números publicados em setembro, mais de R$ 100 milhões foram destinados ao pagamento de débitos trabalhistas em 2025 e 2026. A venda de três edifícios na Praia do Flamengo, por cerca de R$ 78 milhões, e o Plano de Amortização da Dívida Trabalhista ajudaram a organizar os pagamentos, enquanto a herança de aproximadamente R$ 88 milhões deixada pelo advogado José Maria Valdetaro Vianna foi integralmente destinada à Justiça do Trabalho para enfrentar o passivo acumulado. Os resultados dessa reconstrução começam a aparecer também nos espaços em que a Misericórdia serve à cidade. O Hospital Geral, na Rua Santa Luzia, voltou a registrar cerca de 15 mil atendimentos mensais, em mais de 30 especialidades e serviços de saúde; a instituição manteve seu Educandário e suas casas de acolhimento, anunciou exames gratuitos na programação do Outubro Rosa e prepara um novo centro de diagnóstico a preços populares. A recuperação alcançou ainda a Capela do Santíssimo Sacramento, conhecida como Capela do Imperador, que voltou a receber celebrações em julho de 2026, depois de aproximadamente duas décadas fechada. Entre consultas, dívidas pagas, imóveis recuperados e antigos espaços religiosos novamente abertos, a Santa Casa vem recompondo as condições para dar continuidade à sua missão. Em Jacarepaguá, a reforma do Repouso e a ampliação prevista para aproximadamente 250 idosos traduzem esse esforço em uma perspectiva concreta de mais acolhimento, cuidado e dignidade, prolongando uma história de caridade que atravessa mais de quatro séculos de vida carioca.
Recuperar e ampliar a unidade de Jacarepaguá significa dar continuidade ao trabalho de quem legou um imóvel, ajudou a erguer um edifício, acompanhou um morador ou dedicou sua vida ao serviço cotidiano da casa. Lá, a obra em andamento prepara novos espaços para uma responsabilidade antiga: oferecer acolhimento, cuidado e companhia a quem chega à velhice precisando de amparo. É assim que os séculos de beneficência da Misericórdia continuam a fazer parte da vida do Rio.
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Jornalista, Diretora do Diário do Rio, amante de pets e sempre atuante nas pautas de ordem pública.
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