Entretenimento Mulheres indígenas são protagonistas da 27ª edição do Festival do Peixe-Boi
Novo Airão (AM) – Dos grafismos aos cantos tribais, dos saberes de cura às pajelanças, a cultura amazônica têm profundas raízes na cultura dos povos originários. Neste ano, essa herança ancestral ganha ainda mais visibilidade no XXVII Eco-Festival do Peixe-Boi — que têm início nesta sexta-feira (30) e vai até domingo (01) em Novo Airão (município distante 200 quilômetros de Manaus) —, por meio da arte de mulheres da etnia Baré. Rompendo anos de invisibilização, elas assumem o protagonismo, mostrando que a preservação da floresta e da memória passa, obrigatoriamente, pela valorização da mulher e do indígeno.
De um lado, Geyse Baré, que estreia como Deusa da Canção do Peixe-Boi Anavilhanas. Do outro, Cassiane Lima, nova Porta-Estandarte do Peixe-Boi Jaú. Pela primeira vez em suas trajetórias no festival, as duas mulheres indígenas assumem posições de protagonismo na disputa, transformando arte, ancestralidade e pertencimento em símbolos de valorização da cultura Baré e da preservação da floresta.
Para Geyse Baré, ser a primeira mulher indígena a ocupar o posto de Deusa da Canção (item 7) do Anavilhanas na história do Eco-Festival do Peixe-Boi é uma honra, mas também sinônimo de resistência frente aos desafios de ser mulher e de ser mulher indígena. Andrade defendeu ainda que levará à Lagoa do Peixe-Boi a cultura e a ancestralidade do povo Baré.
“Representar a cultura do meu povo e levar essa voz pro mundo é muito maravilhoso. Acredito que a minha força, a minha garra e a minha coragem, a partir das vivências que eu já tive como mulher indígena, lutando pela sobrevivência do meu povo, vai me influenciar muito na minha apresentação. Ser determinada e ter garra, que os povos indígenas têm, está me ajudando muito, porque todos sabem que ser indígena não é fácil”.Geyse Baré
Estreando na arena como a defensora do pavilhão verde e preto do Jaú, Cassiane Lima ressalta que sua ancestralidade não se resume ao passado, mas é também o presente e o futuro do povo Baré e dos povos indígenas brasileiros. Para ela, o Jaú é o reflexo da floresta e como a primeira porta-estandarte indígena, tem o papel de ser a voz do ecossistema amazônico defendido pelo peixe-boi.
“Minha ancestralidade é a força que me move. Como filha de Novo Airão e mulher indigena, eu trago no meu sangue a resistência, a sabedoria e a proteção da floresta. Defender o estandarte do Jaú na arena não é apenas um papel coreográfico ou festivo, é um ato de representatividade. Pretendo entrar naquela arena com a força de todas as mulheres que vieram antes de mim. Transformando a nossa história em dança, garra e orgulho”Cassiane Lima
A canção e o estandarte
Antes de assumirem seus respectivos itens, Geyse Andrade e Cassiane Lima já trilhavam caminhos ligados à cultura popular de Novo Airão. Formadas na vivência das manifestações folclóricas do município, elas construíram suas trajetórias nos bastidores e nos grupos artísticos que mantêm viva a tradição e a brincadeira do peixe-boi.
Enquanto Geyse integrou o Bailado Verde e Branco, do Anavilhanas, aperfeiçoando sua expressão artística e sua conexão com o espetáculo, Cassiane acumulou experiência como item substituta do Jaú, além de ter participado de outras apresentações culturais da cidade.
“Minha caminhada dentro da agremiação é o que dá alma a minha apresentação hoje. Ter vivido o peixe-boi, sentindo a pulsação da nossa Batucada e defendido a nossa Fauna e Flora, não foram apenas etapas, foram a minha escolha. Essa vivência me trouxe maturidade artística e, acima de tudo, um respeito profundo pela nossa identidade. Eu não caí de paraquedas no cargo, eu cresci aqui dentro”, assegurou Cassiane.

Anos de dedicação, aprendizado e pertencimento ajudaram a lapidar as duas artistas que agora chegam à arena para representar, em papéis de protagonismo, a força da mulher indígena Baré.
“Quando eu visto a camisa verde e branca, eu não levo apenas o nome de uma agremiação, eu levo a história de um povo. Levo minha avó, minha mãe, minhas tias, todas aquelas mulheres que me ensinaram que trançaram meu cabelo com tucunã e me ensinaram a ser indígena, a ter orgulho da minha história”, salientou Geyse.

O protagonismo indígena
Na Lagoa do Peixe-Boi, quando as luzes se acendem e dão lugar ao espetáculo cultural e ecológico do povo airãoense, o protagonismo, a história e a memória, em defesa do meio ambiente, também entram em cena. Itens, brincantes, galera, músicos e artesãos, seja do Anavilhanas ou do Jaú, partilham de um mesmo sentimento em prol de um objetivo único e universal.
“Quando eu entro na arena como porta estandarte, eu não carrego apenas um pavilhão, eu carrego a história de cada um que faz o nosso bloco acontecer. Porque eu também estive lá na base. Essa trajetória me preparou emocional e tecnicamente para defender nossas cores com garra e com a propriedade de quem conhece e ama a nossa raíz”, salientou a porta-estandarte.
Da mesma forma que o ‘pavilhão’ erguido, a ‘canção’ toma conta de todos os atos da brincadeira de peixe-boi. Entretanto, não apenas um entoar de um canto, mas a vivência deste canto. “Eu não vou cantar sobre o rio, eu vou cantar com o rio”, argumentou Andrade, destacando que o protagonismo da mulher indígena é pautado na luta, na resistência e na força dos povos originários.
“O item de Deusa da canção é a inspiração dos poetas, dos músicos e esse ano eu não vou apenas representar somente os músicos e os poetas, mas sim um povo, uma cultura e uma raiz indígena. Eu não vou interpretar a Amazônia, porque eu sou a Amazônia. Sou filha de Nova Airão, cresci ouvindo botos, os rios, os pássaros, na beira do rio, respeitando o meu peixe-boi, minha cultura e minha história”, terminou a deusa da canção.
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