Imirante
31/10/2026 14:17

O futuro e o sorvete de coco

<p>Era quase meio-dia no Centro Histórico de São Luís. O sol esquentava as pedras da Praia Grande e um vendedor de sorvete de coco descansava à sombra de um casarão, com o isopor ao lado da cadeira. Trabalhava ali havia mais de trinta anos. Conhecia os comerciantes, os moradores antigos e os motoristas das vans que passavam pela região. Sabia também quais casarões estavam vazios, onde a água se acumulava quando chovia e em que porta ainda morava gente daquele tempo em que a Praia Grande era mais bairro do que passeio de turista.</p><p>Uma van parou ali perto. Desceu um homem de camisa social, pasta debaixo do braço, procurando sombra.</p><p>— Tem sorvete de quê, meu chefe?</p><p>— De coco.</p><p>— Só coco?</p><p>— Só. O povo gosta.</p><p>— Quanto é?</p><p>— Cinco reais.</p><p>— Rapaz, tudo está caro!</p><p>— Pois é. Só o dinheiro da gente que continua pequeno.</p><p>O homem sorriu, comprou um sorvete e ficou por ali enquanto o motorista chamava os últimos passageiros.</p><p>— E aí, meu amigo, como é que o senhor está vendo esse Brasil?</p><p>O vendedor ajeitou a cadeira.</p><p>— Vou levando. E o senhor?</p><p>— Não, estou falando do país. Do futuro do Brasil.</p><p>— Ah, o futuro! Desse aí eu escuto falar desde pequeno. Já deve estar um homem feito.</p><p>O passageiro riu.</p><p>— Mas muita coisa está mudando. Hoje temos tecnologia, inteligência artificial, um mundo cheio de oportunidades.</p><p>— É, eu vejo falar. Meu neto vive mexendo nessas coisas. Outro dia mostrou um telefone que responde pergunta, escreve carta, faz conta…</p><p>— Isso mesmo. É o futuro chegando.</p><p>— Pois eu perguntei se o telefone também arranjava emprego pra mãe dele. O menino disse que ainda não.</p><p>O passageiro deu outra colherada no sorvete.</p><p>— Mas essas tecnologias vão criar novas profissões.</p><p>— Tomara. Minha filha estudou, fez curso, entregou currículo em um bocado de lugar. Hoje vende comida por encomenda. Tem dia que ganha alguma coisa, tem dia que só paga os ingredientes.</p><p>— Pelo menos ela está empreendendo.</p><p>O vendedor olhou para ele.</p><p>— É. Agora deram esse nome. No meu tempo a gente chamava de se virar.</p><p>O homem sorriu, meio sem jeito.</p><p>— O senhor acompanha política?</p><p>— Acompanho um pouco. Quando dá tempo, vejo o jornal. Quando não dá, escuto o pessoal conversando aqui na rua. Tem opinião de todo tipo. Até quem não sabe da notícia já chega sabendo de quem é a culpa.</p><p>— E o que o senhor acha que está faltando ao Brasil?</p><p>— Rapaz, tanta coisa… Mas se o dinheiro desse pra chegar ao fim do mês, já ajudava bastante.</p><p>— O problema é mais complicado. Temos questões institucionais, dificuldades na representação política, problemas na democracia…</p><p>O vendedor olhou para o homem com curiosidade.</p><p>— O senhor é professor?</p><p>— Não, sou advogado.</p><p>— Ah, tá explicado.</p><p>— Explicado o quê?</p><p>— Esse tanto de palavra pra falar do Brasil.</p><p>O passageiro riu.</p><p>— Mas o senhor não acha que o brasileiro precisa aprender a votar melhor?</p><p>— Precisa aprender muita coisa. Quem vota e quem recebe o voto. Porque, depois da eleição, tem uns que ficam difíceis de encontrar. Aqui mesmo já apareceu candidato que abraçou tanta gente que pensei que fosse parente de todo mundo.</p><p>Uma senhora se aproximou.</p><p>— Meu filho, ainda tem sorvete?</p><p>— Tem, minha tia. De coco.</p><p>— Quanto?</p><p>— Cinco reais.</p><p>— Eita! Não faz por quatro?</p><p>— Se eu fizer por quatro pra senhora, daqui a pouco estou comprando coco fiado.</p><p>A mulher abriu a bolsa, remexeu algumas moedas e contou o dinheiro na palma da mão. Faltava cinquenta centavos.</p><p>— Depois eu lhe dou o resto.</p><p>— Leve, minha tia. A senhora passa aqui quase todo dia.</p><p>Ela agradeceu e saiu devagar, segurando o sorvete.</p><p>O passageiro acompanhou a cena.</p><p>— Pensei que o senhor não vendesse fiado.</p><p>— E não vendo. Mas tem gente que a gente conhece. Essa senhora já comprou muito sorvete comigo. Agora está aposentada. Diz que, quando paga a luz e compra os remédios, precisa fazer conta até pra tomar um sorvete.</p><p>— O senhor também é aposentado?</p><p>— Ainda não. Continuo trabalhando. E mesmo quando conseguir, acho que vou ficar por aqui. Em casa, parado, não sei se aguento.</p><p>— Mas o senhor não gostaria de descansar?</p><p>— Gostaria, sim. Só que descansar com conta atrasada não descansa ninguém.</p><p>O passageiro ficou olhando os casarões. Um grupo de turistas passou fotografando as fachadas coloridas. Mais adiante, um homem empurrava um carrinho carregado de mercadorias, desviando dos buracos entre as pedras.</p><p>— Essa região é muito bonita. Tem um patrimônio histórico extraordinário.</p><p>— Tem mesmo. Eu gosto daqui. Vi muito casarão fechado, vi obra começar, parar e começar de novo. Quando arrumam uma fachada, fica uma beleza. O problema é que tem gente morando atrás dela com goteira dentro de casa.</p><p>— É preciso preservar nossa história.</p><p>— Precisa. Mas o povo também faz parte da história, não faz?</p><p>— Claro que faz.</p><p>— Pois é. Tem turista que chega aqui, tira retrato da porta, da janela, do azulejo. Tudo bonito. Só não aparece na fotografia a mulher que sai de madrugada pra pegar ônibus nem o rapaz que passa o dia procurando serviço.</p><p>O advogado ficou calado por um instante.</p><p>— O senhor sempre trabalhou vendendo sorvete?</p><p>— Não. Já fiz de tudo um pouco. Trabalhei descarregando mercadoria, fui ajudante de pedreiro, vendi fruta. Depois comecei com o sorvete. Aqui pelo menos conheço meus fregueses.</p><p>— E dá pra viver?</p><p>— Dá pra ir vivendo. Quando vendo bem, separo um dinheiro. Quando vendo pouco, aperto as despesas. Se fico doente, não vendo. Se chove muito, também não. O senhor deve saber como é.</p><p>O passageiro pensou um pouco antes de responder.</p><p>— No meu trabalho é diferente. Tenho uma renda mais regular.</p><p>— Pois é. Eu não tenho salário certo. O que entra depende do movimento. Mas a conta de luz chega certinha todo mês.</p><p>O homem pediu outro sorvete, também de coco.</p><p>— O senhor tem uma visão muito crítica do país.</p><p>— Tenho nada, doutor. Só estou contando o que vejo. O senhor perguntou.</p><p>Na rua, um motorista discutia por causa de uma vaga. Dois turistas procuravam um endereço no telefone. Um menino de uniforme escolar passou com a mochila nas costas, acompanhado da avó.</p><p>O vendedor apontou discretamente.</p><p>— Está vendo aquele menino? Estuda ali perto. A avó compra sorvete pra ele quando sobra algum dinheiro. Ela diz que quer ver o neto formado.</p><p>— A educação é fundamental para o futuro do Brasil.</p><p>— É mesmo. Eu não estudei muito. Meu pai precisava de ajuda e comecei a trabalhar cedo. Por isso faço questão de que meus netos estudem. Só queria que, depois de estudar, eles encontrassem trabalho por aqui mesmo. Não precisassem ir embora pra ganhar a vida.</p><p>— O senhor não quer que eles saiam de São Luís?</p><p>— Sair pra conhecer o mundo é bom. Ruim é sair porque não tem outro jeito.</p><p>O motorista da van buzinou.</p><p>— Bora, doutor! Só falta o senhor!</p><p>O passageiro olhou para o relógio, mas ainda tinha uma pergunta.</p><p>— Me diga uma coisa. O senhor é de direita ou de esquerda?</p><p>O vendedor olhou para os lados.</p><p>— Eu fico mais é aqui no Centro.</p><p>— No Centro político?</p><p>— Não, homem! No Centro Histórico. Se eu sair daqui, meus fregueses não me acham.</p><p>O passageiro soltou uma risada.</p><p>— O senhor não perde a oportunidade de brincar.</p><p>— Se a gente levar tudo a sério, doutor, acaba ficando doente.</p><p>O homem apertou a mão do vendedor e caminhou para a van. Já com um pé no carro, voltou-se:</p><p>— E o futuro do Brasil? O senhor acha que melhora?</p><p>— Tomara. Tenho neto pequeno. Queria que ele tivesse uma vida mais folgada que a minha.</p><p>— Então o senhor acredita no futuro?</p><p>— Acredito. Só queria que ele chegasse enquanto a gente ainda está por aqui pra aproveitar um pouco.</p><p>O motorista tornou a buzinar. O passageiro entrou e a van seguiu pela rua estreita.</p><p>O vendedor abriu o isopor, contou os sorvetes que restavam e puxou a cadeira para onde a sombra tinha chegado.</p><p>Uma mulher apareceu com um menino pela mão. A criança devia ter uns sete anos e olhava para o isopor com a curiosidade de quem já sabia o que havia lá dentro.</p><p>— Moço, tem sorvete de coco?</p><p>— Tem, meu filho. Bem geladinho.</p><p>— Quanto é?</p><p>— Cinco reais.</p><p>A mãe abriu a bolsa, procurou algumas moedas e perguntou se ele não fazia por quatro. O vendedor conhecia aquela conversa. Era a segunda vez naquele dia.</p><p>— Leve por quatro, minha senhora.</p><p>O menino recebeu o sorvete com um sorriso. Antes que começasse a tomar, a mãe avisou:</p><p>— Não esquece de guardar um pouco pra tua irmã.</p><p>Ele olhou para o sorvete, depois para a mãe.</p><p>— Mas ela não veio…</p><p>— Justamente por isso.</p><p>O vendedor fingiu que estava arrumando o isopor. Quando a mulher se afastou, chamou o menino.</p><p>— Ei, meu filho, vem cá.</p><p>Tirou outro sorvete e entregou a ele.</p><p>— Leva esse pra tua irmã. Assim tu não precisas dividir o teu.</p><p>A mãe voltou, constrangida.</p><p>— Mas, moço, eu não tenho dinheiro pra outro.</p><p>— Eu sei, minha senhora. Esse é por minha conta.</p><p>O menino agradeceu e saiu segurando os dois sorvetes, um em cada mão, como quem carregava uma riqueza.</p><p>O vendedor ficou olhando até os dois dobrarem a esquina. Depois abriu o isopor, contou novamente o que restava e fez uma conta de cabeça. Não era a melhor hora para distribuir mercadoria. Ainda precisava comprar coco, pagar a luz e levar dinheiro para casa.</p><p>Mas fechou a tampa sem arrependimento.</p><p>O sol continuava quente na Praia Grande. Os turistas fotografavam os casarões, as vans chegavam e partiam, e o vendedor voltou a anunciar:</p><p>— Olha o sorvete de coco!</p><p>Naquela manhã, um advogado havia passado quase meia hora discutindo com ele o futuro do Brasil. Falara de tecnologia, democracia, instituições e oportunidades.</p><p>O vendedor não sabia quando esse futuro chegaria. Nem se estaria vivo para vê-lo.</p><p>Sabia apenas que, naquele dia, duas crianças poderiam tomar um sorvete inteiro.</p><p>E, para quem passara a vida dividindo quase tudo, aquilo já era alguma coisa.</p><p>Não resolvia o problema do Brasil, é verdade.</p><p>Mas o Brasil também precisava aprender a não deixar tudo para depois.</p>
📄 Contenido indexado automáticamente. No es de autoría de altabusqueda.com; los derechos pertenecen a su fuente: Imirante.
Ver nota original ↗
🤖 Profundizá esta noticia con OIMA (IA)

¿Querés un resumen rápido de esta noticia, hecho por nuestra IA?

Respuestas de OIMA · IA, sobre esta noticia · Abrir OIMA Chat ↗
💬 0

Comentarios

También te puede interesar

Bolinhas de leite em pó saudável
Imirante
6588
Maju Coutinho deixa o Fantástico em janeiro para licença-maternidade
Imirante
[media :type="fotolegenda" :ref="698619" :title="Maju Coutinho passa a apresentação para o jornalista Rodrigo…
Morre Mulher Banana, ex-Furacão 2000 e pioneira trans no funk
Imirante
[media :type="fotolegenda" :ref="828580" :title="Tati Quebra Barraco lamentou morte da artista. (Foto: Reprod…
Mônica Fonseca é expulsa de A Fazenda 18 após confusão com Mayk Leão em festa
Imirante
[media :type="fotolegenda" :ref="828579" :title="Segundo a Record TV, Mônica Fonseca foi a causadora da confu…
Marieta Severo fala sobre perda do marido e relembra exílio durante a ditadura
Imirante
[media :type="fotolegenda" :ref="735337" :title="Atriz contou revelou detalhes de sua vida em entrevista ao “…
Linguiça assada com batatas
Imirante
6590