CotidianoAbóboras, doces e fantasias: por que esses elementos viraram símbolos do Halloween? Muito antes das festas, a noite de 31 de outubro estava relacionada a antigas tradições europeias
Hoje em dia, a festa de Dia das Bruxas ou Halloween é muito diferente das antigas celebrações que ajudaram a formar sua história. A data é marcada por festas, doces, fantasias, decoração de casas e “trick-or-treat” (doces e travessuras). Mas como esses itens viraram símbolo dessa festa?
Muito antes das fantasias, das abóboras, dos doces e das festas que marcam o Halloween moderno, a noite de 31 de outubro estava relacionada a antigas tradições europeias. A história da celebração reúne elementos de festividades celtas, práticas cristãs medievais e costumes que foram se transformando ao longo dos séculos até chegar ao formato conhecido atualmente.
Uma das principais referências históricas é o Samhain, uma antiga celebração associada aos povos celtas, especialmente nas regiões que hoje correspondem à Irlanda, Escócia e outras partes das Ilhas Britânicas. O festival marcava o fim do período de colheitas e a chegada do inverno, uma época relacionada à escuridão, à morte e à passagem para um novo ciclo. A tradição também ficou associada à ideia de que, naquele período, a fronteira entre o mundo dos vivos e o dos mortos se tornava mais próxima.
O historiador Nicholas Rogers, autor do livro “Halloween: From Pagan Ritual to Party Night”, publicado pela Oxford University Press, explica que a relação entre Halloween e Samhain é importante, mas não deve ser tratada como uma simples continuidade. Segundo sua pesquisa, a festa atual resulta de uma combinação complexa entre tradições celtas e cristãs que foram se sobrepondo ao longo do tempo.
Entre os elementos associados ao Samhain estavam fogueiras, rituais ligados à passagem das estações e práticas relacionadas ao sobrenatural. No entanto, muitas das descrições populares sobre como os antigos celtas celebravam a data foram registradas séculos depois, o que exige cautela ao separar evidências históricas de interpretações posteriores.
De onde surgiu o nome ‘Halloween’?
O nome Halloween deriva de “All Hallows’ Eve”, expressão que significa a véspera do Dia de Todos os Santos, celebrado em 1º de novembro. O dia seguinte, 02 de novembro, passou a ser associado ao Dia de Finados ou Dia de Todas as Almas, dedicado à memória dos mortos. Assim, a sequência de 31 de outubro a 02 de novembro acabou reunindo diferentes tradições relacionadas à morte, à memória e ao mundo espiritual.
A mudança do Dia de Todos os Santos para 1º de novembro também faz parte desse processo. O historiador Nicholas Rogers chama atenção para uma questão pouco conhecida: não há consenso histórico de que a Igreja simplesmente tenha criado a celebração de novembro para substituir o Samhain. Segundo sua pesquisa, diferentes igrejas cristãs adotaram datas distintas para celebrar santos e mártires antes da consolidação da data de 1º de novembro, o que torna a relação entre as duas festas mais complexa do que a ideia de uma simples substituição.
Fantasias e Doces
Com o passar da Idade Média, práticas populares foram se misturando às celebrações religiosas. Na Inglaterra, por exemplo, surgiu a tradição conhecida como “souling”, na qual pessoas pobres percorriam casas pedindo alimentos em troca de orações pelas almas dos mortos. Na Escócia e na Irlanda, também se desenvolveu o “guising”, costume de se fantasiar ou se disfarçar para visitar outras casas. Essas tradições são consideradas algumas das raízes históricas do atual “trick-or-treat” (doces ou travessuras).
A transformação mais importante aconteceu quando o Halloween atravessou o Atlântico. A celebração chegou aos Estados Unidos principalmente com imigrantes irlandeses e escoceses durante o século XIX. Inicialmente concentrada entre comunidades de imigrantes, a festa foi gradualmente incorporada por outros grupos e ganhou características próprias. No século XX, doces, fantasias, brincadeiras e festas passaram a ocupar cada vez mais espaço na celebração.
O famoso “trick-or-treat” (quando crianças vão nas casas de vizinhos em busca de doces), por sua vez, ganhou força nos Estados Unidos especialmente depois da Segunda Guerra Mundial. O fim do racionamento de açúcar, o crescimento dos bairros residenciais e a popularização dos doces industrializados ajudaram a transformar a prática infantil em uma das marcas do Halloween contemporâneo.
Abóboras
Até mesmo a tradicional abóbora iluminada tem uma história própria. Antes das abóboras, que se tornaram populares nos Estados Unidos, eram utilizadas outras plantas, como nabos, para criar lanternas. A tradição está relacionada a histórias folclóricas britânicas e irlandesas, incluindo a lenda de “Stingy Jack”, que posteriormente ajudou a consolidar o chamado “jack-o’-lantern”.
A história do Halloween, portanto, não pode ser resumida simplesmente como uma festa pagã que virou uma celebração cristã e depois uma festa comercial. O que existe é uma longa transformação cultural, na qual tradições celtas, calendário cristão, costumes medievais, imigração e cultura popular foram acrescentando novos significados à noite de 31 de outubro.
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