Natal31 de outubro de 2026Viver o luto exige tempo de adaptação e acolhimento, avaliam especialistas
Redação Tribuna do Norte • 31 de outubro de 2026 • 17h00

Rayssa Vitorino
Repórter
O luto é um processo de adaptação à perda que exige tempo, acolhimento e respeito às diferentes formas de vivenciar a ausência. As psicólogas Millena Câmara e Rafaela Gimenez explicam que a experiência vai além da morte de uma pessoa querida e pode envolver outras perdas significativas, com impactos emocionais, físicos e sociais. Com a proximidade do Dia de Finados, no dia 2 de novembro, as especialistas ressaltam a importância de reconhecer a dor sem impor prazos ou maneiras certas de enfrentá-la.
A psicóloga Rafaela Gimenez explica que o luto é uma resposta emocional, física e psicológica diante de uma perda significativa, e suas manifestações variam de acordo com a história e as circunstâncias de cada indivíduo. “Se a psicologia pudesse definir o que é o processo de luto, é o processo de adaptação a uma realidade que mudou”, esclarece.
Neste processo, a especialista em psicologia do luto, Millena Câmara, esclarece que o indivíduo pode sentir tristeza, alterações no sono, perda de interesse por atividades, culpa e raiva. “Não existe, porém, uma forma única de atravessar esse período. As chamadas cinco fases do luto, frequentemente mencionadas em explicações sobre o tema, são uma referência didática, mas não representam uma sequência obrigatória. Nem todas as pessoas passam por todas elas, e as experiências não seguem necessariamente uma ordem”, afirma.
Millena Câmara destaca que uma perda costuma envolver outras mudanças além da ausência principal. “Quando você tem uma perda, você nunca perde uma coisa só. Uma perda primária traz consigo muitas perdas secundárias”, afirma.
A morte de uma pessoa próxima, por exemplo, pode representar também a perda da rotina compartilhada, dos planos construídos em conjunto, da convivência e do papel que aquela pessoa ocupava no cotidiano. Por isso, o processo de adaptação envolve reorganizar a vida diante de uma realidade diferente. “A gente vai precisar aprender a viver sem alguém que a gente ama. Aprender a lidar com o vazio é muito desafiador”, diz Millena.
O tempo necessário para essa adaptação não é igual para todos. Embora algumas referências da literatura indiquem períodos de seis meses a um ano, a duração depende do contexto, da relação com quem ou com aquilo que foi perdido e das condições de apoio disponíveis. O luto não se encerra simplesmente quando a tristeza desaparece, mas à medida que a pessoa aprende a viver com a ausência.
A psicóloga Rafaela Gimenez ressalta que não há um prazo universal para o sofrimento. O acompanhamento profissional pode ajudar quando as reações passam a comprometer a rotina pessoal, social ou profissional, ou quando a pessoa encontra dificuldades para lidar com a mudança. Isso não significa, entretanto, que todas as pessoas enlutadas precisem de tratamento psicológico contínuo.
Outro aspecto importante é compreender que nem toda perda recebe reconhecimento social. Segundo Millena Câmara, as regras e expectativas da sociedade influenciam a maneira como determinados vínculos são valorizados e como o sofrimento de cada pessoa é acolhido.
“As perdas não reconhecidas são aquelas que não são validadas socialmente. A sociedade, por meio de suas regras, define quais relações são valorizadas e de que forma. Algumas pessoas, por exemplo, não reconhecem a perda de um animal de estimação como a perda de um vínculo importante e saudável”, afirma Millena.
Esse tipo de desvalorização também pode ocorrer em perdas gestacionais e perinatais, quando a dor não recebe o reconhecimento esperado, ou em situações profissionais, como a de um profissional de saúde que perde um paciente. Em alguns casos, a pessoa ainda enfrenta a pressão para retomar rapidamente a rotina e deixar de demonstrar sofrimento.
Expressão
Para Millena, a forma como a sociedade compreende o luto influencia as manifestações de apoio, os rituais e as possibilidades de acolhimento. Quando a perda é desconsiderada, a pessoa pode ter mais dificuldade para expressar o que sente e encontrar espaço para viver o próprio processo.
Acolher, portanto, também significa reconhecer que os vínculos e as experiências são particulares. “A tristeza não é a única forma de se viver, de se expressar um luto”, afirma a psicóloga. Cada pessoa pode reagir de uma maneira, e a ausência de uma manifestação específica não significa que não exista sofrimento.
A chegada do Dia de Finados, celebrado em 2 de novembro, pode intensificar lembranças e sentimentos relacionados à morte. A data costuma levar famílias aos cemitérios, mas também pode ser vivida de outras formas. Não há obrigação de visitar um túmulo ou de seguir determinado ritual para demonstrar afeto por quem morreu.
Para quem deseja prestar homenagem, a data pode representar uma oportunidade de recordar a pessoa e reconhecer a importância do vínculo. Para outros, pode ser um dia de recolhimento ou de manutenção da rotina.
A aposentada Francisca da Silva, de 82 anos, está enfrentando o luto e os efeitos que ele causa. Francisca perdeu o marido, Júlio Ribeiro, que morreu aos 88 anos, no início de setembro. Os dois foram casados por mais de seis décadas e construíram uma rotina de convivência e cuidado.
Nos últimos meses de vida, ele estava debilitado e precisava de assistência diária. O casal morava sozinho e contava com uma cuidadora durante o dia, que ia embora ao anoitecer. A aposentada passava os dias ao lado do marido e sabia que, diante da fragilidade dele, a morte poderia acontecer. Ainda assim, a perda foi difícil de aceitar.
Católica, ela encontra na fé uma forma de compreender a morte como parte da vida, mas reconhece que isso não elimina a dor. No Dia de Finados, pretende visitar o túmulo do marido. Depois de tantos anos compartilhando a vida, tarefas e hábitos, Francisca da Silva agora está tentando se adaptar, mas, segundo ela, a adaptação exige tempo, e a saudade pode continuar presente mesmo quando a pessoa começa a reconstruir a rotina.
O amor também mora nos detalhes
O apoio de familiares, amigos e pessoas próximas pode fazer diferença durante o luto. De acordo com a especialista Rafaela Gimenez, existem várias formas de expressar o carinho, amor, solidariedade e apoio a pessoas que estão passando por este momento. “Nem sempre, porém, ajudar significa encontrar palavras para explicar a perda ou tentar fazer com que a tristeza passe. Em muitos casos, estar disponível para ouvir e oferecer ajuda prática é mais importante do que apresentar respostas”, ressalta.

“Preparar uma refeição, acompanhar a pessoa em uma tarefa, ajudar com atividades cotidianas ou simplesmente fazer companhia são formas de apoio que podem aliviar parte das dificuldades desse período. Também é importante permitir que a pessoa fale sobre quem morreu, relembre experiências e expresse sentimentos sem ser interrompida ou julgada”, orienta Rafaela.
Além disso, de acordo com Rafaela Gimenez, frases como “seja forte” ou “pelo menos ele não está mais sofrendo”, embora muitas vezes ditas com a intenção de consolar, podem diminuir a experiência de quem está sofrendo.
Para Millena Câmara, as comparações e tentativas de estabelecer um prazo para a recuperação também podem transformar o luto em motivo de cobrança. “Você ajuda quando acolhe, quando valida, quando respeita, quando consegue escutar, sem precisar dar receitas do que o outro deve fazer”, aconselha Millena Câmara.
O acompanhamento psicológico pode ser uma alternativa quando a pessoa sente necessidade de apoio para compreender as próprias reações e lidar com as mudanças. A busca por um psicólogo ou psiquiatra pode ocorrer conforme a disponibilidade e a necessidade de cada caso, sem que uma ordem única de atendimento seja obrigatória.
Para as especialistas, compreender o luto passa por reconhecer que a perda não pode ser apagada nem vivida de uma única maneira. O processo envolve aprender a conviver com a ausência, reconstruir hábitos e encontrar formas possíveis de seguir a vida, sem exigir que a saudade desapareça.
Rede de apoio ajuda a ressignificar
Em Natal, o Centro de Referência em Luto (CRLuto), vinculado à Secretaria Municipal de Saúde, oferece acolhimento psicológico a pessoas que enfrentam perdas. O serviço funciona desde 2022 na Unidade Básica de Saúde (UBS) de Candelária e atende tanto por demanda espontânea quanto por encaminhamento de outros serviços de saúde.
O atendimento é voltado a adultos, pessoas idosas, famílias e casais. No primeiro contato, a equipe acolhe a demanda e avalia se o acompanhamento pode ser realizado no próprio centro ou se há necessidade de encaminhamento para outro serviço da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do município.
O CRLuto prioriza situações que podem envolver maior risco ou sofrimento, como perdas decorrentes de homicídio, suicídio e mortes gestacionais e perinatais. Também acolhe pessoas que perderam outros vínculos afetivos significativos, independentemente de a perda ter ocorrido recentemente ou há mais tempo.
Além dos atendimentos individualizados, o serviço promove, ocasionalmente, grupos temáticos. Um grupo de apoio a pessoas enlutadas está em fase inicial de desenvolvimento.
A atuação do centro é especialmente importante quando o sofrimento compromete a vida pessoal, social ou profissional ou quando a pessoa encontra dificuldades para lidar com a perda. O serviço também mantém parceria com o Ministério Público do Rio Grande do Norte, por meio do Núcleo de Apoio às Vítimas de Violência (NUAVV), no atendimento a pessoas que passaram por situações de violência.
O acesso pode ser feito diretamente na UBS Candelária, localizada na Rua Barão de Açu, em Natal, de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h. Moradores da capital devem apresentar documento de identificação e cartão do Sistema Único de Saúde (SUS).
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