Economia31 de outubro de 2026Mercado de cavalos Quarto de Milha no RN gera mais de R$ 10 milhões por ano
Redação Tribuna do Norte • 31 de outubro de 2026 • 17h00

Felipe Salustino
Repórter
Omercado de criação de cavalos Quarto de Milha no Rio Grande do Norte vive um momento de expansão, impulsionado pelo crescimento de competições que conquistam cada vez mais espaço no país, como a vaquejada e as provas de tambor. Mais do que tradição, essas modalidades envolvem criadores, treinadores e investidores e estimulam o desenvolvimento de animais de alto desempenho. A qualidade genética do rebanho potiguar também contribui para o avanço da atividade, que movimenta mais de R$ 10 milhões por ano apenas com a comercialização dos animais.
De acordo com estimativas da Associação de Criadores de Quarto de Milha do RN (ANQM), o estado possui cerca de 2 mil animais da raça. Vladimir Gurgel, presidente da entidade, explica que é difícil dimensionar com precisão o impacto econômico dessa cadeia, que envolve diversos profissionais, como veterinários e tratadores, além de uma ampla rede de fornecedores de insumos para os criadores. As competições, que têm recebido apoio de personalidades como cantores e ex-jogadores de futebol, também ajudam a explicar o crescimento do mercado.
“Hoje, a criação de cavalos Quarto de Milha vem numa crescente muito interessante no RN, graças a competições como a vaquejada, que é nossa principal tradição equestre. Mas também temos as provas de tambor, em que os cavalos precisam fazer um percurso na pista desviando de dois ou três tambores”, diz Gurgel. Nessa modalidade, vence o animal que completar o percurso no menor tempo. “Quanto à vaquejada, que sempre foi uma manifestação cultural do Nordeste, a gente já registra eventos em Minas Gerais e São Paulo. O ex-jogador Ronaldinho Gaúcho entrou nesse ramo e planeja promover uma vaquejada no Rio de Janeiro”, conta.
Segundo o presidente da ANQM, o RN tem cerca de 390 criadores de Quarto de Milha, com perfis variados, que vão de pequenos proprietários a competidores e investidores. “Muitos possuem apenas um animal. Ele compra, parcela em até 50 vezes e faz um plantio de capim para alimentar o cavalo. A grande maioria começa assim.” Gurgel conta que, com o tempo, o criador aprende a montar e, quando se adapta, começa a participar de competições até se profissionalizar. “E tem o perfil do investidor com muito dinheiro, que quer uma genética boa e compra o cavalo à vista”, afirma.

O preço de um animal da raça, segundo Gurgel, depende de fatores como idade, genética, cruzamento, nível de doma e finalidade, como a participação em competições ou a reprodução. Os valores também variam conforme o sexo do animal e costumam partir de R$ 20 mil. “Um animal jovem, de cruzamento de machos reconhecidos na vaquejada, custa em torno de R$ 30 mil. Temos conhecimento de um cavalo que foi vendido por R$ 1 milhão a um comprador aqui do RN”, detalha.
Os custos de manutenção também variam, conforme o presidente da ANQM. “Depende da sofisticação de cada haras ou se o cavalo é criado em hotel ou pousada, onde os custos são menores e não é necessário ter uma fazenda ou pátio para treinamento.” A alimentação e os cuidados com os animais também precisam ser considerados. “Mas, geralmente, os custos variam a partir de R$ 200 ao mês, podendo chegar a R$ 1,5 mil”, afirma.
A geração de empregos na atividade é outro dado difícil de dimensionar, segundo Gurgel, uma vez que muitos serviços são terceirizados. Ele é proprietário do Haras Conclave, no distrito de Euzébio, em Vera Cruz, na região Agreste do estado. Para cuidar dos 80 animais que compõem o rebanho, conta com os serviços de 22 profissionais. Parte das atividades, como os serviços de veterinários, zootecnistas e tratadores, porém, é terceirizada.
Leilões e genética atraem compradores de várias regiões
Outros dois fatores importantes para o fortalecimento do mercado de criação de cavalos Quarto de Milha no Rio Grande do Norte são os leilões e a qualidade genética dos animais. O veterinário Rodrigo Azevedo, especialista em reprodução de equinos, afirma que o estado é um importante fornecedor de genética de qualidade para todo o Brasil. Segundo ele, a produção potiguar é voltada principalmente para animais destinados à vaquejada.
“As linhagens mais valorizadas para essa prática esportiva são as que conseguem unir características como habilidade e velocidade. Podemos citar os garanhões Apollo VM, Don Diego Bars, Holland Ease, Eternaly Fred, Shady Apollo Bars e Príncipe Rojo como os principais formadores de famílias que se destacam na vaquejada. Eles estão entre os campeões dos principais circuitos no país. O RN faz boas pontuações com seus cavalos e os nossos criadores estão sempre no ranking dos melhores todos os anos”, explica Rodrigo Azevedo.
Manter a qualidade da genética potiguar, no entanto, exige investimentos. Segundo o veterinário, o valor do sêmen dos principais garanhões vivos varia entre R$ 10 mil e R$ 25 mil. “E quando falamos de cavalos que já morreram, as cifras dessa comercialização chegam na casa dos R$ 200 mil na modalidade de venda do sêmen congelado”, diz.
Apesar dos valores elevados, o investimento compensa, na avaliação do especialista. “A criação de Quarto de Milha é um mercado que movimenta milhões de reais todos os meses, com a comercialização de potros, cavalos atletas, matrizes, garanhões e material genético como sêmen e embriões”, aponta.
O trabalho de aprimoramento genético no estado também atrai investidores de outras regiões interessados na compra de animais. De acordo com Vladimir Gurgel, presidente da ANQM, entre os principais mercados compradores de cavalos Quarto de Milha do RN estão São Paulo, Pará, Tocantins, Ceará e Pernambuco.
Outro fator que contribui para ampliar o mercado são os leilões. Segundo o presidente, a associação realiza dois por ano e projeta aumentar esse número para três em 2027, com eventos na Festa do Cavalo, na Expo Macaíba e na Festa do Boi. Em 2026, os dois leilões promovidos pela ANQM — na Expo Macaíba e na Festa do Boi, em Parnamirim — movimentaram, juntos, mais de R$ 2,7 milhões. “No total, a gente estima que são realizados seis leilões por ano, sendo que alguns são separados da ANQM.”
Gurgel explica que os leilões facilitam a comercialização porque permitem parcelar as vendas em até 50 vezes e também ajudam a valorizar os animais. “Quando o criador vende na própria fazenda, geralmente o número de parcelas é bem menor ou até mesmo à vista e os valores ficam mais em conta. Para se ter uma ideia, o preço médio de um cavalo Quarto de Milha em um dos nossos leilões ficou na casa dos R$ 40 mil”, conta.
Impacto vai além de uma atividade recreativa
A chegada dos cavalos Quarto de Milha ao Brasil ocorreu em fevereiro de 1954, na Fazenda Bartira, no interior paulista. Na ocasião, a empresa Swift King Ranch (SKR) trouxe dos Estados Unidos o garanhão Saltillo Jr. e outras seis éguas, provenientes da tradicional matriz norte-americana King Ranch, no Texas, considerada a maior fazenda do mundo na época. À medida que pecuaristas, banqueiros e empresários conheceram os animais, passaram a pressionar a SKR pela venda de exemplares.
Segundo a Associação Brasileira de Quarto de Milha (ABQM), a companhia atendeu a poucos criadores, comercializando um número reduzido de potros. Atualmente, ainda de acordo com a entidade, os plantéis de Quarto de Milha no Brasil consomem cerca de 1,2 milhão de toneladas de ração por ano, com gastos estimados em R$ 950 milhões. A mão de obra empregada diretamente corresponde a aproximadamente 460 mil postos de trabalho — número que não inclui veterinários, agrônomos, zootecnistas, ferradores e outros profissionais ligados à cadeia.
O economista Ricardo Valério avalia que o impacto econômico da criação desses animais vai além de uma atividade meramente recreativa. “Mais do que um hobby, a criação movimenta o circuito de vaquejadas, que espalha premiações elevadas e incentiva a economia do turismo de eventos, lotando hotéis, restaurantes e bares nos locais onde eles acontecem”, explica.
Ele também destaca o crescimento dos investimentos em biotecnologia e na importação de embriões para aprimorar a qualidade genética dos animais. “Esta, inclusive, é outra área com forte geração de receitas e renda”, diz o economista.
“Temos um mercado de criação muito seletivo, que exige bastante dedicação diária, mas é também um mercado com espaço para crescer”, analisa Vladimir Gurgel.
Números
- RN possui cerca de 390 criadores e 2 mil animais
- Mercado movimenta mais de R$ 10 milhões por ano com a comercialização de animais
- Custos com os animais variam de R$ 200 a R$ 1,5 mil
Fonte: ANQM
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