Economia31 de outubro de 2026De geração para geração: herança familiar retoma cafeicultura no RN
Redação Tribuna do Norte • 31 de outubro de 2026 • 17h00

Fernando Azevêdo
Repórter
A cafeicultura virou herança de família no Rio Grande do Norte. A partir de plantas remanescentes, produtores como Diogo Castro, 45, e Gerlane Magalhães, 58, retomaram o cultivo e a produção de café nas terras da família. Esta segunda reportagem da série “Caminhos do Café Potiguar”, que aborda a história e a força da cafeicultura no RN, mostra como ele, em Jaçanã, e ela, em Portalegre, integram um movimento de retorno da atividade no estado, impulsionado por ações de incentivo e pelo resgate da tradição.
Para Diogo, tudo começou em 2020 quando trabalhava na área de turismo. Com o isolamento social durante a pandemia da covid-19, ele foi para o sítio da família e, com o incentivo do pai, viu a possibilidade de retomar a produção no Sítio Rio Grande e recuperar o legado de décadas deixado pelo avô, Firmino Gomes de Castro.
“O café veio através desse histórico que temos de família e o sonho que meu pai tinha de retomar a produção. Estamos aqui novamente, mostrando que o RN já foi produtor e tem potencial de ter cafeicultura novamente”, conta. A retomada começou com cerca de duas mil plantas remanescentes.
As primeiras vendas ocorreram ainda em 2020, inicialmente para amigos, até ganhar escala. Em 2025, o Café Jaçanã, marca criada por Diogo, produziu 29 sacas de café, o equivalente a 1.740 kg. Para 2026, o produtor prevê perdas em razão do inverno com poucas chuvas.
Ainda em 2020, o maquinário da fazenda foi reconstruído e a torrefação instalada. Uma barista os apresentou ao universo dos cafés especiais. Segundo Diogo, a partir desse contato, ele passou a pesquisar como produzir cafés de qualidade. “Vimos nesse momento que não precisávamos nos comparar com outras empresas, como as tradicionais que tem no mercado. Nos posicionamos como uma empresa que queria fazer um diferencial de um café de qualidade, que trouxesse algo diferenciado para o consumidor”, afirma.
O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Rio Grande do Norte (Sebrae-RN) tornou-se parceiro da retomada a partir de 2021. Diogo conta que a entidade mapeou regiões do estado com potencial para a cafeicultura. Consultores também contribuíram com orientações sobre produção e capacitação.
Em dezembro de 2022, foi a vez de Gerlane receber a visita do Sebrae-RN. Inicialmente, a família resistiu à ideia de retomar a produção, mas, em 2023, aceitou a proposta e plantou mudas. Em 16 de outubro de 2026, durante a Festa do Boi, Gerlane lançou o Café Laurides, sob o slogan “Feito por quem ama”.
O nome da marca de café especial homenageia a mãe da produtora, de 82 anos. “Eu não acreditava que isso daria certo, por conta da dificuldade de água que nós tínhamos. Hoje já temos um poço, mas no começo eu regava o café com regador, pegando água e levando de casa pro campo. Muitas vezes quis desistir”, confessa.

Gerlane e os irmãos retomam a tradição da família, iniciada quando os pais, Laurides e Paulo, foram morar no sítio. Ao lado de Martins, Portalegre foi um dos principais municípios produtores de café do RN nas décadas de 1970 e 1980. A produção foi interrompida por uma forte seca.
A safra de 2026 resultou em 40 quilos de grãos, e há mil mudas plantadas no campo. “Foi um café especial e parte gourmet. O especial, você colhe de grão em grão. Foi um trabalho bem árduo, e, apesar de termos passado por estresse hídrico, conseguimos um bom café”, explica Gerlane. O café especial obteve nota 86,50.
Segundo os protocolos da Specialty Coffee Association, um café precisa obter mais de 80 pontos para ser considerado especial. A bebida é avaliada por aspectos como fragrância, sabor, acidez, corpo, finalização e doçura.
O mercado de cafés especiais e a valorização da identidade local marcam o retorno da atividade no RN. A cafeicultura cresceu no estado e movimentou R$ 10,04 milhões em 2025, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além disso, a indústria do café também está presente no território potiguar.
Segundo o presidente do Sindicato da Indústria de Torrefação e Moagem de Café do Estado (Sindicafé-RN), Heyder Dantas, o setor gera cerca de 1.100 empregos diretos e 400 indiretos no RN. O estado tem quatro indústrias de café em atividade: duas em Natal, uma em Caicó e uma em Currais Novos. Os grãos utilizados na industrialização são comprados em Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia.
Mudanças no mercado impulsionaram retorno
O engenheiro-agrônomo Jheyson Dantas relaciona a retomada da produção cafeeira no RN ao cenário mundial e às mudanças no mercado brasileiro, especialmente após a pandemia e a busca por mais qualidade de vida. “Há 100 anos, não se falava em cafés gourmet, superior e especial. O mercado se tornou mais exigente, com consumidores que querem saber o que estão consumindo, de onde vem, a qualidade que tem e como é o cuidado”, diz o pesquisador e consultor especializado em cafeicultura.
A partir dessa nova mentalidade, os produtores potiguares identificaram uma oportunidade de investir no cultivo de café e transformar a própria realidade com a agregação de valor ao produto. “Uma saca de café que há anos era comercializada a R$ 500, R$ 400, hoje é vendida a R$ 4 mil, R$ 5 mil”, exemplifica o especialista.
Segundo ele, o estado tem desde pequenos produtores, com propriedades de um ou dois hectares, até cafeicultores com projetos para 1.000 hectares. O mercado potiguar percebeu que vale a pena investir em assistência técnica e conhecimento sobre manejo para retomar essa cultura.
Entre os desafios do setor no estado,o agrônomo destaca a disponibilidade hídrica. Os efeitos dos períodos de poucas chuvas também são relatados pelos produtores Diogo e Gerlane como desafios em suas jornadas.
Para Jheyson Dantas, o clima nordestino é um fator “limitante”, mas apresenta maior estabilidade em comparação com outras regiões do país. Minas Gerais, por exemplo, enfrenta geadas e chuvas de granizo que prejudicam a colheita. No RN, o desafio está na quantidade e na qualidade da água, que não pode apresentar salinidade elevada quando a intenção é produzir cafés de alta qualidade.
Superadas as dificuldades, o especialista acredita que a atividade conquista quem começa a investir nela.
“Quem começa a plantar café se apaixona. O cara começa a plantar um hectare, aprende a manejar, entende como é a cultura, as dificuldades, vai acertando e errando.”
Sebrae e os Cafés do RN
Elton Alves, gestor de cafeicultura do Sebrae-RN, conta que a instituição começou, em 2021, a trabalhar o tema a partir de um resgate histórico. “Houve café aqui na década de 1970, numa tentativa de trazer uma novidade para o estado, mas em função de diversos fatores da época, a atividade não foi perpetuada”, diz.
O cultivo não se consolidou como uma vocação do estado, seja por causa das secas, da falta de assistência técnica, de pragas ou da perda de espaço para outras culturas, como a cana-de-açúcar. “Parece que essa descontinuidade apaga essa perspectiva. Mas, nos últimos anos, estamos disseminando a inovação nas propriedades rurais, trazendo essa perspectiva da liderança dos jovens e das mulheres no campo e a responsabilidade ambiental”, afirma o gestor.
Por meio do projeto Cafés do RN, o Sebrae-RN busca estimular os pequenos produtores a reconhecer o potencial do cultivo de café e desenvolver marcas potiguares. O projeto oferece atendimento especializado e realiza visitas mensais às propriedades participantes. Atualmente, o Cafés do RN atende 46 produtores. Cerca de 40% são mulheres, em municípios da Serra de Santana e das regiões Agreste, Trairi, Alto Oeste e Mato Grande.
Diogo foi o primeiro produtor a receber apoio do Sebrae-RN. Desde então, sua meta é ampliar em um hectare por ano a área de produção.
A propriedade tem 15 hectares, dos quais restava cerca de meio hectare da plantação de café iniciada na década de 1970. Hoje, a área cultivada chega a 5,5 hectares. “Passamos os três primeiros anos aprendendo qual manejo precisaria ser feito aqui na nossa região. Estamos numa serra, mas estamos no sertão, no semiárido, e chove pouco”, conta.
Para o futuro, ele planeja seguir trabalhando para ter café com qualidade, reconhecido como de excelência. “A produção está crescendo e já está havendo algumas conversas para ampliar a visibilidade do Café Jaçanã [...] Vamos tentar negociar para mandar o nosso café para fora”, projeta.
Gerlane também sonha em ampliar a produção e abrir uma cafeteria da família na cidade. Para 2027, ela pretende continuar investindo no café especial. Quando houver maior volume de colheita e oferta, sua ideia é comercializar o produto em supermercados.
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