O Tempo
31/10/2026 20:30

Milhares de pessoas voltam às ruas da França para protestar

Centenas de milhares de pessoas voltaram às ruas na França neste sábado (31/10), pelo terceiro fim de semana consecutivo, para protestar contra o alto custo de vida.

Nas últimas semanas, houve protestos liderados por jovens em toda a Europa, e também ocorreram passeatas neste sábado na Alemanha, onde a polícia disparou canhões de água para dispersar os manifestantes.

A seis meses da eleição presidencial e diante da multiplicação de apelos à "revolução" e à "insurreição" nas redes sociais, as autoridades francesas mobilizaram neste sábado (31/10) 70 mil agentes de segurança.

Embora os protestos em nível nacional tenham sido em grande medida pacíficos, houve tensões em várias cidades, e circularam chamados para que os manifestantes se reunissem em praças públicas na noite deste sábado.

Segundo a prefeitura de polícia de Paris, centenas de vândalos atacaram as forças de segurança com projéteis, incluindo um coquetel molotov.

O ministro do Interior, Laurent Nuñez, comemorou o fato de que a jornada tenha transcorrido "bem", apesar da "violência inaudita" de grupos de vândalos.

Em coletiva de imprensa, o ministro apontou grupos de "extrema esquerda" que se enfrentaram com as forças de segurança e qualificou como "tentativa de assassinato" o lançamento de um coquetel molotov em Paris contra um policial, que ficou "levemente ferido".

Os candidatos à eleição presidencial, Marine Le Pen (Reagrupamento Nacional, extrema direita) e Bruno Retailleau (Os Republicanos, direita), criticaram neste sábado o lançamento do coquetel molotov.

Ao final do dia, ocorreram confrontos em Lyon (centro-leste), Rennes (oeste), Marselha (sudoeste) e Toulouse (sudoeste).

No total, 422 pessoas já haviam sido detidas antes das 19h GMT (16h em Brasília), indicou Nuñez. E esse número provavelmente aumentará nesta noite de Halloween, advertiu.

As autoridades afirmam ter contabilizado 320 mil pessoas nas ruas em todo o país, sendo 70 mil em Paris, nesta terceira jornada de manifestações convocadas por estudantes do ensino médio e universitários, além dos coletes amarelos e sindicatos.

A coalizão de sindicatos e agremiações estudantis estimou a participação em cerca de 500 mil pessoas, incluindo 200 mil na capital.

Em Paris, sob um céu ensolarado, os franceses marcharam carregando cartazes com mensagens como "alerta climático e pelo custo de vida" pelo único trajeto autorizado pela polícia, nos bairros residenciais da zona leste da cidade.

As autoridades voltaram a mobilizar o amplo aparato de segurança utilizado no fim de semana passado para evitar a repetição do caos de 17 de outubro, quando, segundo estimativas, entre 550 mil e 800 mil pessoas foram às ruas. Houve saques a lojas, incêndios em prédios públicos e confrontos com as forças de segurança em várias cidades.

Às reivindicações dos sindicatos e aos protestos contra o aumento do custo de vida somou-se a denúncia do crescimento do racismo, após um atentado que resultou em um morto e sete feridos em 23 de outubro na região parisiense.

"Dizemos não ao custo de vida, não à extrema direita, sim às reivindicações dos estudantes do ensino médio, sim à palavra dos cidadãos", declarou Camille Guérin, uma manifestante de 31 anos em Nantes (oeste).

Deriva autoritária

Em toda a França, manifestantes criticaram o governo por não autorizar protestos nos centros urbanos.

"Tenho medo de ver o que está acontecendo nesta democracia francesa. Está sendo instaurado um Estado policial", afirmou Eloïse, de 35 anos, em Toulouse, onde nenhum tipo de manifestação foi autorizado.

O líder da esquerda radical e candidato à eleição presidencial de abril e maio de 2027, Jean-Luc Mélenchon, acusou o governo, em uma publicação no X, de promover uma "deriva autoritária".

Toques de recolher 

Em Paris, dezenas de estações de metrô foram fechadas e muitos comerciantes protegeram suas vitrines com painéis de madeira.

"O pretexto da noite de Halloween não será motivo legítimo para ocultar o rosto em espaços públicos" com o objetivo de "perturbar a ordem", advertiu o ministro do Interior, Laurent Nuñez.

A legislação francesa permite o uso de máscaras em espaços públicos durante festividades, mas proíbe seu uso nas proximidades de manifestações.

Toques de recolher foram decretados em algumas áreas da capital nas noites de sábado e domingo, medida que também já havia sido adotada em várias cidades francesas nos últimos dias.

Diversas organizações defendem a continuidade do movimento, e duas delas convocaram bloqueios de escolas de ensino médio e universidades para terça e quinta-feira.

Também está prevista uma greve na próxima quinta-feira (5/11), e os "coletes amarelos" pedem ainda um movimento popular nos dias 6 e 7 de novembro para manter a mobilização.

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