Poder360 — Geral
01/11/2026 06:00

Hackers viram fontes e desafiam práticas do jornalismo

Por Philip Di Salvo

Algumas das reportagens de maior impacto dos últimos anos surgiram graças ao que normalmente se define como hack-and-leak, um tipo específico de ataque cibernético que resulta na divulgação de informações obtidas por hackers. Quando o Anonymous e coletivos aliados invadiram empresas e órgãos governamentais durante a onda de hacktivismo dos anos 2010, por exemplo, transformaram dados roubados em notícias de primeira página.

Jornalistas que cobrem a invasão da Ucrânia frequentemente trabalharam com documentos extraídos de instituições russas por hackers de diferentes alinhamentos. Hacktivistas invadiram fornecedores de tecnologias de vigilância e empresas de programas espiões, concedendo a jornalistas acesso direto e exclusivo a arquivos internos de companhias que vendem seus produtos a governos repressivos.

Grupos de ransomware, organizações criminosas que atuam no ambiente digital e hackers ligados a governos disponibilizam novos conjuntos de dados obtidos por invasões na internet aberta ou os tornam públicos por meio de intermediários, como o Distributed Denial of Secrets.

Como os jornalistas estão reagindo a esses cenários de apuração? Para minha pesquisa, recentemente publicada na revista Journalism Practice, entrevistei 10 jornalistas dos Estados Unidos e da Europa que trabalham ou já trabalharam com dados obtidos por invasões. Alguns são especializados na cobertura de questões cibernéticas; outros se concentram principalmente em atualidades e conflitos internacionais.

Esses profissionais atuam em diferentes veículos de comunicação, desde redações dedicadas ao jornalismo investigativo até publicações generalistas e especializadas em tecnologia, e tiveram diferentes níveis de contato com hackers que atuam como fontes.

Os jornalistas com quem conversei descrevem uma prática profissional emergente, e não um método consolidado. Eis algumas das minhas conclusões.

Não existem diretrizes fixas nem práticas estabelecidas e compartilhadas sobre como lidar com materiais obtidos por invasões e produzir reportagens a partir deles. Em vez disso, os métodos estão sendo desenvolvidos pelos próprios profissionais, caso a caso. Um repórter que trabalha em uma redação de jornalismo investigativo me disse:

“De um lado, há os jornalistas investigativos tradicionais, que examinam grandes conjuntos de dados provenientes de vazamentos importantes e abordam o material com as ferramentas clássicas da reportagem: checagem, entrevistas, contextualização dos dados… De outro, há esse nicho mais recente e técnico, no qual as pessoas trabalham com exposições de dados que surgem constantemente, muitas vezes em menor escala, como a coleta de dados divulgados na dark web, em serviços como o Pastebin ou em repositórios de armazenamento em nuvem sem proteção, transformando essas informações em reportagens produzidas rapidamente sobre violações de segurança, vulnerabilidades e privacidade digital.”

Trata-se menos de uma investigação aprofundada e mais de monitorar e revelar exposições contínuas de dados em tempo real.

Os próprios hackers estão se tornando cada vez mais estratégicos em seus relacionamentos com a imprensa. Um repórter que acompanha uma área específica de cobertura cibernética destacou:

“Eu diria que hackers de todos os tipos adoram se exibir e receber reconhecimento. Muitos não fazem isso, mas vários certamente fazem. Não sei se o desejo de se exibir aumentou, mas é possível perceber claramente que alguns hackers amadureceram na maneira como abordam a imprensa. Já não se trata apenas de publicar coisas no Twitter (atual X), como talvez acontecesse antes.”

Esse amadurecimento significa desenvolver uma percepção de como uma reportagem será apresentada e distribuída, além de calcular qual jornalista procurar. Hoje, hackers podem escolher os veículos de sua preferência, direcionando um vazamento ao repórter que consideram capaz de compreender a história e levá-la adiante.

Existem diferentes tipos de hackers, que desempenham papéis distintos e/ou múltiplos. Os entrevistados fizeram distinções entre criminosos cibernéticos motivados por interesses financeiros, cujos vazamentos muitas vezes equivalem a uma forma alternativa de extorsão, e agentes ligados a governos, que também podem se apresentar como hacktivistas independentes para dar aparência de credibilidade jornalística a vazamentos com motivações políticas.

Ao mesmo tempo, alguns hackers ou coletivos de hackers — como Phineas Fisher, conhecido por sua atuação ativista contra empresas de vigilância — podem agir por razões políticas e orientadas pelo interesse público, procurando jornalistas para expor irregularidades, questões antiéticas ou crimes. É notório, porém, que o universo hacker não é um campo no qual essas classificações sejam tão simples: identidades, definições e interesses, incluindo a mera intenção de provocar, podem se confundir.

Materiais obtidos por invasões precisam ser tratados com muito ceticismo. Ao trabalhar com fontes hackers, disse um jornalista, é uma questão de “tratar cada conjunto de dados como se tivesse clamídia”. Mas as técnicas de verificação que os entrevistados disseram utilizar — como confirmar que um endereço de e-mail existe nos registros de uma empresa, cruzar informações com fatos conhecidos ou examinar um arquivo em busca de sinais de adulteração — são bastante convencionais.

Esse tipo de reportagem exige maior transparência, especialmente quando não é possível estabelecer a identidade de uma fonte. Um jornalista que trabalha nessa área afirmou:

“Acho que você deve ser muito transparente sobre isso na sua reportagem. Deve dizer algo como: ‘Não sabemos quem é a fonte; pode ser o GRU [da Federação Russa] ou qualquer outra pessoa, mas confirmamos que esses dados são autênticos e que mostram isto’.”

Quando declarada abertamente, a incerteza pode se tornar uma parte significativa da própria reportagem.

A proteção das fontes se torna ainda mais complicada quando se trata de hackers. Alguns entrevistados estendem aos hackers toda a proteção que ofereceriam a qualquer fonte, recusando-se a colaborar com as autoridades policiais mesmo quando a fonte se declara criminosa. Outros preferem saber o mínimo possível sobre suas fontes, entendendo essa escolha como uma forma de reduzir os riscos para ambas as partes. Como explicou um dos jornalistas da minha amostra:

“Quanto menos eu souber sobre essas coisas, mais difícil será para mim expor minha fonte ou publicar algo que, sem querer, acabe sendo prejudicial a ela.”

Repórteres que trabalham exclusivamente com materiais que já circulam na internet, em fóruns de crimes cibernéticos ou em outros repositórios da web, consideram a proteção das fontes uma questão secundária, porque não é possível rastrear a origem das informações e porque o material, na prática, já “está disponível”.

Por trás de tudo isso está a conclusão com as implicações mais amplas: as decisões éticas nesse campo resistem a uma codificação rígida. Segundo os repórteres com quem conversei, nenhuma regra geral pode ser estabelecida antecipadamente, e a avaliação de cada caso é o único guia viável. Publicar material obtido por invasões é justificável? Depende das particularidades de cada situação, disse um repórter.

“Acho que tudo depende do que você está revelando. Talvez seja geralmente errado invadir os computadores das pessoas e roubar dados, mas, se você está expondo crimes graves, acho que isso pode ser justificável.”

Os entrevistados descreveram uma sabedoria prática exercida sob pressão: a capacidade de interpretar uma situação específica e agir de maneira apropriada diante dela, sem ter a oportunidade de recorrer a um código ou a uma lista de procedimentos estabelecidos.

Enquanto isso, as redações talvez precisem desenvolver padrões de verificação adequados a informações de origem ilícita, normas de transparência que tratem a incerteza como algo a ser revelado, em vez de encoberto, e uma linguagem compartilhada para os julgamentos éticos que os jornalistas atualmente fazem, por conta própria, caso a caso.


Philip Di Salvo é pesquisador sênior e professor do Instituto de Gestão de Mídia e Comunicações da Universidade de St. Gallen, na Suíça.


Texto traduzido por Sabrina Freire. Leia o original em inglês.


O Poder360 tem uma parceria com duas divisões da Fundação Nieman, de Harvard: o Nieman Journalism Lab e o Nieman Reports. O acordo consiste em traduzir para português os textos do Nieman Journalism Lab e do Nieman Reports e publicar esse material no Poder360. Para ter acesso a todas as traduções já publicadas, clique aqui.

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