PolíticaLista de boicote político expõe empresas e profissionais de Rio Preto e regiãoMaterial que circula em grupos de mensagens relaciona comerciantes, médicos, dentistas e outros profissionais por...por Francela PinheiroPublicado em 31/10/2026 às 00:02
Listas que circulam em grupos de WhatsApp por Rio Preto, pela região e Brasil afora convocam apoiadores da direita bolsonarista a boicotar empresas, comerciantes, médicos, dentistas, arquitetos e outros profissionais apontados como apoiadores do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou pessoas que não se alinham ao bolsonarismo. O material reúne estabelecimentos de diferentes setores e incentiva a adesão de outras pessoas ao boicote local, com a orientação de “só copiar e colar acrescentando o nome da empresa”.
A iniciativa de apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL), derrotado no último domingo, 25, levanta questionamentos sobre o uso da divergência política como critério para pressionar economicamente empresários, trabalhadores e empreendedores. Entre as empresas mencionadas estão restaurantes, cafeterias, lojas de roupas, estabelecimentos de decoração, óticas, empresas de comunicação, comércios de móveis e cosméticos, postos de combustíveis e bancos. O documento também inclui profissionais liberais, entre eles médicos e dentistas. A lista atribui posicionamentos políticos aos nomes boicotados.
A líder bolsonarista e ex-candidata a deputada estadual pelo PL, Danila Azevedo justificou a produção e divulgação das listas como liberdade de escolha e de expressão. “Assim como cada cidadão tem o direito de escolher seus representantes pelo voto, também tem a liberdade de decidir onde comprar, de quem consumir e quais valores deseja apoiar”, defendeu. Segundo ela, o respeito às diferentes opiniões é essencial para uma sociedade democrática. “Defendo a liberdade individual, sem ataques, perseguições ou qualquer forma de discriminação. Afinal, democracia é respeitar o direito de cada um fazer suas próprias escolhas”, ressaltou.
A direção do Psol de Rio Preto encaminhou uma representação ao Ministério Público do Trabalho, na qual pede apuração sobre a postagem de Danila. Pede que sejam avaliados "eventuais ilícitos penais decorrentes de discriminação político-partidária, perseguição e ameaças contra empresários, profissionais liberais, trabalhadores e prestadores de serviços identificados como apoiadores de determinado partido político".
Citados
Um empresário (não identificado) ligado ao ramo da estética, afirmou que tomou conhecimento da lista com nomes de empresas do grupo, mas acredita no poder da democracia. “Não levo isso (boicote) a sério, pois creio muito na democracia e a pessoa ou as pessoas que fazem isso não têm compromisso nem mesmo com ela, imagina no respeito a opinião do outro”, afirmou.
Outro empresário boicotado, desta vez do ramo do agronegócio e da construção civil, também se posicionou. “Ignoro completamente, me recuso a discutir política com fanáticos. Os fatos sempre tem mais força e os últimos acontecimentos mostram que optamos pelo melhor do Brasil livre e soberano”, disse. “O governo Tarcísio é um bom exemplo para todos nós. A eleição acabou, agora é lutar para que um bom governo melhore a vida de toda a população, especialmente os que mais precisam”, completou.
Outro empresário do ramo do entretenimento e da gastronomia afirmou que é com tristeza que vê a retomada da lista que já havia circulado após as eleições de 2022 e agora volta a ser compartilhada, “inclusive com estabelecimentos que nem sequer existem mais”, disse. De acordo com o empresário, o que mais entristece é a polarização que transforma divergências políticas em ataques que podem atingir a atividade econômica e a reputação de pessoas. “Em todos os estabelecimentos, estejam ou não nessas listas, existem proprietários, funcionários, fornecedores e clientes com diferentes opiniões políticas”, afirmou.
O empresário defendeu a liberdade de expressão e o direito de cada cidadão de escolher onde consumir. “Esses direitos precisam caminhar junto com a responsabilidade na divulgação de informações e o respeito aos demais. A Constituição Federal protege tanto a livre manifestação do pensamento quanto a honra, a imagem e o direito à reparação em caso de danos”, citou. “Não queremos alimentar mais conflitos nem expor pessoas. Queremos que as diferenças sejam respeitadas e que eventuais excessos sejam tratados pelos meios legais adequados", completou.
Acirp
A divulgação ocorre em meio à circulação de iniciativas semelhantes em outras cidades do Interior Paulista, no Estado e no País. Na região, há registros de listas de boicote em Rio Preto, Tanabi, Mirassol e Votuporanga, além de episódios em outras regiões do país. A Associação Comercial e Empresarial de Rio Preto (Acirp) pediu cautela. “Esse tipo de iniciativa já foi observado em outros períodos eleitorais e não é exclusivo de Rio Preto”, afirmou o presidente Jean Daher.
Segundo Daher, o comércio local depende do consumo para gerar renda e empregos. “Divergências políticas não devem ser generalizadas para empresas e empreendedores, nem se transformar em embate entre consumidores e comerciantes”, alertou. A orientação da entidade, de acordo com o presidente, é manter o foco no planejamento e acompanhar os fatos com prudência. “O empresário deve seguir atento às condições necessárias para trabalhar, como previsibilidade, segurança jurídica e um ambiente de negócios favorável”, reforçou.
O doutor em Direito Constitucional Pedro Quintino afirmou que cada cidadão e cidadã têm o direito de escolher onde comprar, de expressar a opinião política, e o direito de pensar diferente é protegido pela Constituição Federal. “Por isso, quando surgem listas de boicote após as eleições, o que preocupa é seu uso para intimidar comerciantes e profissionais, pressionando quem pensa diferente a esconder ou mudar sua posição. Ninguém deveria precisar esconder seu voto para trabalhar em paz”, disse.
Por outro lado, segundo o especialista, nem todo boicote é ilegal. “É preciso distinguir uma escolha de consumo de uma campanha com ameaças, exposição abusiva ou perseguição”, ressaltou. De acordo com Quintino, porém, todos têm direito à proteção contra abusos. “Quando a campanha busca intimidar quem votou diferente, ela ganha um sentido de vingança eleitoral e pode sair pela culatra: prejudicar um comércio também pode atingir empregos, fornecedores e famílias de diferentes posições políticas”, reforçou.
O doutor em Direito Constitucional também citou o filósofo norte-americano John Rawls para uma reflexão. “Ele defendia que uma sociedade livre precisa conviver com diferentes ideias e reconhecer seus cidadãos como livres e iguais. Trazendo isso para o cotidiano, discordar do voto do vizinho faz parte da democracia; ameaçá-lo para que se cale ou mude de lado compromete essa convivência. Esse tipo de intimidação não é exercício legítimo da liberdade e enfraquece a democracia”, concluiu.
O promotor de Justiça Carlos Romani afirmou que o boicote econômico motivado por divergências políticas pode constituir exercício legítimo das liberdades de expressão e de escolha do consumidor, não sendo, por si só, juridicamente proibido, mas há uma ressalva: “a organização e a divulgação de listas destinadas a identificar comerciantes, empresários e profissionais liberais em razão de suas convicções políticas exigem exame mais rigoroso, especialmente quando envolvem tratamento de dados pessoais sensíveis, exposição indevida, intimidação, divulgação de informações falsas ou práticas de perseguição”, citou.
Segundo Romani, o pluralismo político pressupõe a convivência democrática entre cidadãos que sustentam posições ideológicas distintas. “A liberdade de discordar e de escolher onde consumir não se confunde com uma autorização irrestrita para constranger, ameaçar ou violar direitos de quem pensa diferentemente”, disse. “Portanto, a licitude dessas iniciativas deve ser examinada concretamente, evitando-se tanto a criminalização da divergência política quanto a tolerância com práticas efetivamente abusivas”, complementou.
Precedente
Em 2025, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) condenou dois administradores de um grupo de WhatsApp pelo crime de perseguição após a divulgação de uma lista contra comerciantes e profissionais liberais de Cafelândia, durante as eleições de 2022. O material identificava pessoas como adversárias políticas e incentivava que fossem banidas comercialmente. A decisão considerou as provas reunidas no processo e também estabeleceu indenizações por danos morais às vítimas.
Contexto
A lista de boicotes também remete a episódios históricos de exclusão econômica. Em 1º de abril de 1933, o regime nazista promoveu na Alemanha um boicote organizado contra estabelecimentos de propriedade de judeus, como parte de uma política antissemita que se aprofundaria nos anos seguintes. O episódio é documentado pelo Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos.
Para o sociólogo André Mattos, as campanhas de boicote têm raízes históricas e se relacionam a formas de protesto e desobediência civil. “A ideia do boicote é antiga. O êxito maior está lá na independência da Índia. Orientação do Gandhi, no Conselho Nacional Africano, no processo de independência, foi o boicote aos empregos e a produtos ingleses”, contou.
Com o avanço das redes sociais, segundo Mattos, essas mobilizações também passaram a assumir características do chamado cancelamento digital. “No decorrer do século 20 se falou muito em boicote. Em certo modo, o boicote no mundo virtual virou o cancelamento: eu vou lá e deleto uma página que eu seguia, ou bloqueio, ou deixo de seguir. Isso também é uma forma de boicote”, afirmou.
Mattos pontuou também que listas semelhantes já circularam no Brasil em eleições anteriores, tanto contra empresas identificadas com a direita quanto com a esquerda. “Essas listas já rodaram em outras eleições e já teve lista para boicotar o Madero, já teve lista para boicotar a Havan (ligada a empresário bolsonarista), para boicotar pró-Bolsonaro e listas que eram para boicotar pró-Lula”, afirmou.
O sociólogo afirmou, no entanto, que a tendência é que a mobilização perca força após a euforia pós-resultado das urnas, especialmente porque decisões de consumo também são influenciadas por fatores como preço, orçamento e hábitos já consolidados dos clientes. Na avaliação do pesquisador, entretanto, a repercussão pública e o constrangimento provocado pelas listas não significam, necessariamente, prejuízo financeiro aos estabelecimentos citados. “Eu não vejo que isso tenha um resultado prático para o negócio, no sentido de diminuição de consumo”, afirma. (fp)
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