CidadesNos bastidores da despedidapor Luciana VinhaPublicado em 01/11/2026 às 00:25
FINADOS
Por trás dos sepultamentos e dos cuidados com os cemitérios, trabalhadores de diferentes funções convivem com o luto, acolhem famílias e encontram na rotina profissional lições sobre a importância de valorizar a vida
por Luciana Vinha
Publicado em 01/11/2026 às 00:25
Atualizado em 01/11/2026 às 06:30
Para a maioria das pessoas, o cemitério é um lugar de visitas pontuais, especialmente em datas como o Dia de Finados. Para outras, o ambiente faz parte da rotina profissional. É ali que trabalhadores de diferentes áreas convivem diariamente com a morte, participam dos momentos de despedida e testemunham a dor de famílias enlutadas. Por trás de cada sepultamento, do cuidado com os túmulos e da manutenção das alamedas, existe essa engrenagem de profissionais que, muitas vezes, passa despercebida, mas é essencial para garantir a organização, a conservação e o funcionamento desses espaços.
Antes mesmo de os portões se abrirem, muitos deles já estão em atividade. Entre eles está Robson Alves da Silva, de 59 anos, que há três anos integra a equipe de serviços gerais do Cemitério da Ressurreição. Para ele, o cemitério é um lugar de tranquilidade e segurança. “Sinto uma paz inexplicável quando estou aqui”, diz. A boa convivência com os colegas também torna a rotina mais leve. “Procuramos trabalhar com alegria, em harmonia, conversando e ajudando uns aos outros. Quem nos conhece sabe que realmente temos muita amizade aqui dentro”, afirma. A satisfação aumenta quando os visitantes elogiam a limpeza do local. “Graças a Deus, são só elogios”, destaca.
A consciência sobre a responsabilidade do espaço também se reflete na preparação para datas de grande movimento. Há quatro anos e meio à frente da equipe de manutenção do Cemitério Jardim da Paz, Edmar Lira, conhecido como Dimas, de 57 anos, destaca que o trabalho vai muito além dos cuidados com o local. Ele explica que na preparação para o Dia de Finados, os serviços são intensificados para que o cemitério esteja organizado para receber os visitantes. “A equipe está preparada para auxiliar as famílias com amor, carinho e atenção”.
Para alguns, o começo da trajetória profissional costuma ser marcado por descobertas e quebra de preconceitos. Jardineiro no Cemitério da Ressurreição há sete meses, Daniel Henrique da Silva, de 27 anos, conta que chegou ao novo emprego com certo receio. “Eu confesso que não sabia o que esperar, mas depois do primeiro dia, vi que era muito diferente do que eu pensava e fiquei mais tranquilo. Tomei gosto pelo que faço e pretendo crescer profissionalmente e conquistar uma oportunidade como coveiro”, afirma. A rotina no cemitério também o faz olhar para a vida de outra maneira. “Quando vejo um enterro, isso me faz valorizar ainda mais a vida e as pessoas que amo”, ressalta.
Em outros casos, a relação com o cemitério vem de gerações. Aos 33 anos, Jonatas Oliveira de Deus trabalha como coveiro há oito meses no Cemitério da Ressurreição. A função já foi exercida pelo seu avô. Para ele, a experiência trouxe uma nova perspectiva sobre a vida e a importância das relações pessoais. “Os primeiros dias foram bem complicados, a gente leva um choque, porque mexe com o lado emocional e certamente muda a nossa forma de enxergar a vida”, explica. Hoje, já adaptado à atividade, ao final do expediente, quando volta pra casa, não deixa a vida profissional interferir na pessoal. “Casa é casa, trabalho é trabalho”, resume.
Para o coveiro Osuel de Araújo Sousa, de 42 anos, que desde 2018 trabalha no Cemitério São João Batista, a relação com o ambiente começou ainda na infância, quando acompanhava o pai, também coveiro. “Estou aqui desde os cinco anos”, conta. Ele aponta a pandemia como um dos períodos mais marcantes de sua trajetória. “Ver a quantidade de pessoas falecendo, mais do que o normal, mudou muito a minha forma de enxergar a morte. Foi uma situação muito difícil”, relata. Acostumado com a rotina, ele destaca que quando a despedida envolve alguém próximo, a comoção é ainda maior. “Quando é um desconhecido, a gente não sente da mesma forma, mas, com quem é do nosso convívio, a gente sente na pele, a dor é muito maior”, afirma.
A experiência de perder alguém influenciou a maneira como Rafael Fernandes Silva Batista, de 28 anos, iniciou na carreira. Agente funerário há cinco anos, ele sempre teve interesse pelo setor, mas a oportunidade de ingressar na área surgiu após a morte do avô materno, a quem considera a pessoa mais importante de sua vida. Desde então, procura realizar cada atendimento como se fosse para a própria família e, ao chegar em casa, sente a satisfação de dever cumprido.
“Costumo dizer que nós somos a última etapa pela qual as pessoas vão passar. Por isso, procuramos sempre desempenhar nossa função da melhor forma possível, porque é o momento final que a família tem para dar o adeus ao seu ente querido.” Para ele, a experiência também reforçou sua percepção sobre o valor da vida. “A vida é uma oportunidade única e valiosa, que deve ser aproveitada com prudência e responsabilidade.”
Há quatro anos e meio no cargo, o coordenador do Cemitério da Ressurreição, Eduardo Nascimento Vessani, destaca que a experiência profissional lhe trouxe aprendizados importantes, como valorizar o dia a dia e ter mais paciência com as pessoas, especialmente os amigos e familiares. “Aqui a gente aprende que a vida tem um destino igual para todos, independentemente da situação financeira, da saúde, da religião ou da cor”, pontua. Entre as experiências mais marcantes, ele se recorda do sepultamento de um amigo com quem já havia trabalhado anteriormente. “Quando você conhece alguém, o sentimento é diferente, você fica triste”, relata.
Para o coordenador do Cemitério São João Batista, Ernandes Pereira Nascimento, de 61 anos, que atua no local desde 2017, o ambiente de trabalho e as experiências adquiridas ensinam muito sobre o que as pessoas devem fazer enquanto estão vivas. “Trabalhar no cemitério, para mim, é um privilégio. É a oportunidade que você tem todos os dias de valorizar mais a vida, porque, depois que acaba, o que fica não são os seus bens, mas o que as pessoas vão lembrar de você”, reflete. Para ele, o contato diário com a finitude ensina a dar prioridade ao que realmente importa. “Aqui não dá para saber se a pessoa era rica, pobre, branca, negra ou qual era a religião dela. É tudo igual. Por isso, durante a nossa vida, a gente tem que parar com esses preconceitos bestas, porque, no fim, todos têm o mesmo destino”, conclui.
Cemitérios
Os cemitérios de Rio Preto esperam por grande público nesta segunda-feira, 2. No Cemitério Jardim da Paz, acontece missa às 8h30, com o arcebispo, dom Antonio Emidio Vilar. A programação musical ficará sob a coordenação de Alexandre Neves e contará com seis vozes, acompanhadas por músicos que executarão piano, escaleta, cajón, violão, violoncelo, violino, flauta e saxofone. A formação foi preparada para acompanhar a celebração e proporcionar um ambiente de reflexão e recolhimento. Ao término da missa, está prevista a soltura de balões, como gesto simbólico de homenagem à memória daqueles que permanecem presentes nas lembranças e na história de seus familiares e amigos.
No São João Batista, a visitação será das 6h30 às 18h, com missas às 10h e às 16h. No cemitério da Ressurreição, a abertura também é das 6h30 às 18h, com celebrações às 8h30 e às 10h. Em Engenheiro Schmitt, o cemitério funciona das 7h às 17h, com missa às 8h.
A Secretaria Municipal de Administração, responsável pelos cemitérios municipais, informa que o acesso ao Cemitério da Ressurreição, na Vila Ercília, será pelo portão da avenida América. A entrada principal, pela avenida da Saudade, está interditada por causa de obras de melhoria.
O vínculo afetivo com o cemitério muitas vezes ultrapassa a obrigação profissional e se transforma em um ato de carinho diário à memória dos entes queridos. Para o jardineiro Magno José de Almeida, de 76 anos, o cuidado com os jardins do Cemitério São João Batista tem um significado especial. Há 15 anos na profissão, seis deles no local, ele exerce suas atividades com satisfação e compromisso. A dedicação também tem um motivo pessoal, já que seu neto está sepultado ali. “Saber que tenho um familiar, sangue meu, é mais uma razão para cuidar desse lugar. Chego cedo e já vou procurando fazer o melhor para o ambiente. Até porque, quando a gente faz o que gosta, faz com perfeição e amor. E o resultado é visível, as pessoas passam e elogiam: ‘Está bonito, parabéns’, e isso incentiva a gente”, diz.
A sensibilidade e o olhar atento às histórias preservadas nas lápides também transformam o jeito como cada trabalhador enxerga a dor do próximo. Há dois anos na equipe de jardinagem do Cemitério Jardim da Paz, Gilberto Mendonça da Silva, de 41 anos, conta que o trabalho ampliou sua compreensão sobre os sentimentos das pessoas e o tornou mais paciente e sensível à dor de quem enfrenta a perda de um ente querido. “A convivência com os túmulos e as fotografias me fazem refletir diariamente sobre as histórias de vida interrompidas, especialmente as de crianças que morreram precocemente”, diz.
O contato direto com o luto também marcou a trajetória de José Augusto Pereira Lima, de 47 anos, que trabalha como coveiro no Cemitério Jardim da Paz há seis anos. Para ele, a profissão mudou completamente sua maneira de enxergar a vida e reforçou a importância de valorizar cada momento ao lado das pessoas queridas. “O trabalho exige respeito, dignidade e compreensão diante das diferentes formas com que cada família expressa sua dor. Mesmo quando as pessoas não conseguem expressar o que sentem, é necessário respeitar seu momento e realizar cada atividade com seriedade e sensibilidade”, afirma.
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