Diário da Região
01/11/2026 07:00

CidadesRegistros de racismo crescem 52% em dois anos, em Rio Pretopor Marco AntonioPublicado em 01/11/2026 às 00:16

Rio Preto registrou aumento de 52,4% nos boletins de ocorrência sobre racismo em dois anos. Entre janeiro e setembro de 2026, foram contabilizados 96 registros, ante 63 no mesmo período de 2024. Em 2025, foram 90 ocorrências nos primeiros nove meses do ano. As estatísticas vão pautar os debates e eventos em novembro, mês da consciência negra, inclusive no dia 20, feriado nacional, em lembrança à luta do líder quilombola Zumbi dos Palmares.

Na comparação entre janeiro e setembro de 2024 e o mesmo período de 2025, os registros passaram de 63 para 90, aumento de 42,9%. Já entre 2025 e 2026, o crescimento foi de 6,7%, com seis boletins a mais.

Entre os boletins registrados neste ano, 41 mencionam expressamente ofensas à dignidade ou ao decoro em razão de raça, cor, etnia ou procedência nacional. Outros dez incluem a classificação de prática de discriminação.

Fevereiro concentrou o maior número de registros, com 20, seguido por janeiro, com 17, e março, com 13. Juntos, os três meses somaram 50 ocorrências, o equivalente a 52,1% do total.

Em abril, foram contabilizados nove boletins, enquanto maio teve oito. O levantamento aponta sete registros em junho, cinco em julho, dez em agosto e sete em setembro.

Entre as ocorrências deste ano, 41 mencionam expressamente ofensas à dignidade ou ao decoro em razão de raça, cor, etnia ou procedência nacional. Outras dez incluem a classificação de prática de discriminação.

Entre as vítimas está o promotor de vendas Regis Aielo, de 24 anos, que relata ter sido informado de que precisaria ter o cabelo revistado ao terminar seu trabalho em um hipermercado de Rio Preto, em setembro. Segundo ele, a exigência partiu de um funcionário do setor de prevenção de furtos, durante sua segunda visita ao estabelecimento.

O trabalhador interpretou a abordagem como uma suspeita de furto baseada em sua aparência. “Isso foi uma coisa que me abalou muito”, afirma. Após o episódio, registrou um boletim de ocorrência e procurou apoio de organizações do movimento negro. O caso motivou uma manifestação em frente ao supermercado, com representantes do movimento negro de Rio Preto. “A gente ainda tem que estar exposto a um caso de racismo enquanto eu estou indo trabalhar”, diz.

O empresário Carlos Henrique Ferreira dos Santos também decidiu buscar responsabilização após sofrer ofensas raciais durante um evento em Rio Preto. Segundo ele, os ataques partiram de um homem durante uma festa, que o xingou sua cor de pele e menosprezou sua condição social. Entre as expressões que afirma ter ouvido estava “carro de negro de periferia”.

Carlos procurou um advogado e afirma ter obtido decisões favoráveis nas esferas cível e criminal cerca de um ano depois. “Fiquei feliz porque a justiça foi feita”, diz.

Para Carlos, a melhora das condições financeiras não impede que pessoas negras continuem expostas à discriminação. “Quem sofre não tem que ter medo. Tem que buscar os seus direitos”, afirma o empresário. A orientação também é defendida por Regis, que destaca a importância do registro policial e do apoio de organizações. “Busque os seus direitos. Primeiramente, registre o boletim de ocorrência”, diz o promotor.

O delegado seccional de Rio Preto, Everton Contelli, afirma que a Polícia Civil ampliou a capacitação dos policiais para identificar casos de racismo, incentivar o registro e acolher as vítimas. Nos últimos dois anos, também fortaleceu a parceria com o Departamento de Igualdade Racial, vinculado à Secretaria Municipal da Mulher, para atendimento após o boletim de ocorrência.

Everton Contelli observa que o endurecimento da legislação também pode ter estimulado as denúncias. “Esse avanço pode ter gerado mais confiança das pessoas que passaram a acreditar nas instituições e na resposta estatal e passaram a denunciar aquilo que antes ficava escondido”, analisa o delegado, que destaca a importância dos registros de ocorrências.

SERVIÇO PÚBLICO

O enfrentamento ao racismo e todas as suas conexões de mesma natureza exige que o poder público reconheça e interrompa práticas discriminatórias nos serviços oferecidos à população. O combate exige que se dê visibilidade aos fatos.

A avaliação está em sintonia com o que defende o sociólogo Danilo de Souza Morais, que defende formação permanente de profissionais da educação, saúde, assistência social e segurança pública, acompanhada de indicadores para medir resultados.

Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e pesquisador do Reconexão Periferias, da Fundação Perseu Abramo, Morais afirma que a discriminação também se manifesta em procedimentos, abordagens e formas de atendimento, por vezes sem que o profissional reconheça a própria conduta.

“Muito frequentemente, a discriminação racial não é inclusive percebida por aquele que comete o ato como tal”, afirma o especialista. “Isso você só muda com trabalho de formação constante”, reforça ele.

A análise ocorre diante do aumento dos registros em Rio Preto. Entre janeiro e setembro de 2026, foram contabilizados 96 boletins, ante 90 no mesmo período de 2025, crescimento de 6,7%.

Para Morais, a alta pode refletir tanto a intensificação da violência racial quanto a maior disposição das vítimas para denunciar. Ele avalia que o ambiente de disputa político-eleitoral favoreceu manifestações de violência, enquanto pessoas, especialmente jovens, estão menos dispostas a tolerar a discriminação.

O sociólogo defende que o Estado examine como o racismo se reproduz em cada serviço. Na segurança, a formação deve preparar agentes para reconhecer práticas de filtragem racial nas abordagens. Nos demais setores, deve ajudar a identificar condutas discriminatórias incorporadas à rotina.

A capacitação, afirma, precisa preparar servidores para intervir diante do racismo e evitar sua reprodução. Indicadores permitiriam verificar mudanças efetivas no atendimento.

Morais cobra participação da sociedade, além dos movimentos negros, tanto na reação à discriminação cotidiana quanto na exigência de medidas para enfrentar manifestações diretas e indiretas.

A presidente do Conselho Afro, a advogada Claudionora Elis Tobias (Marco Antonio dos Santos)

O Departamento de Promoção da Igualdade Racial de Rio Preto informou 103 atendidos entre janeiro e agosto de 2026, média de três por semana, ou seja: dia sim, dia não, o problema se manifesta no município. O serviço oferece acolhimento psicossocial e orientação jurídica a vítimas de racismo e injúria racial, na Casa SP Afro “Antônio Pompeo”, no Jardim Santa Lúcia, zona norte da cidade.

Nos primeiros quatro meses de 2026, o órgão informou 58 atendidos. De maio a agosto, foram outros 45. No mesmo período de 2025, foram 162, sendo 83 no primeiro quadrimestre e 79 no segundo. No último quadrimestre de 2025, foram outros 42 atendidos, totalizando 204 no ano. Os números apresentados pelo departamento não incluem a participação em grupos reflexivos e oficinas.

A Casa SP Afro “Antônio Pompeo”, na avenida José Rodrigues Lisboa, 470, oferece acolhimento psicossocial das 8h às 20h e orientação jurídica, independentemente de boletim de ocorrência. O acesso pode ser espontâneo ou por encaminhamento.

A Polícia Civil, responsável pelo registro e pela investigação dos crimes, encaminha os boletins ao departamento, que busca as vítimas para oferecer apoio. O acompanhamento envolve serviços de assistência social, saúde e educação, com encaminhamento à Defensoria Pública quando necessário e conforme os critérios de atendimento gratuito. O órgão também atende a solicitações do Ministério Público e pretende fortalecer essa articulação até 2027.

A Casa Afro oferece ainda oficinas gratuitas de pintura em tela, teatro, capoeira e escrita criativa para pessoas a partir dos 6 anos, além de cursos de capacitação e atividades voltadas à geração de renda. As inscrições e informações sobre a programação estão disponíveis presencialmente ou pelo WhatsApp (17) 99735-8607.

CONSELHO AFRO

A presidente do Conselho Afro de Rio Preto, a advogada Claudionora Elis Tobias, avalia que os registros ainda não mostram a dimensão do problema. “Suspeito que uma boa parte das vítimas, por medo ou mesmo por falta de tempo, sequer registra boletim de ocorrência”, afirma.

Segundo ela, a ampliação do debate sobre igualdade racial e a atuação de conselhos, coletivos e políticas públicas ajudam as vítimas a reconhecer a discriminação e buscar seus direitos. Apesar dos avanços, o enfrentamento ainda exige mudanças profundas. “A gente tem a sensação, muitas das vezes, de estar nadando contra a maré”, diz.

Claudionora cita o trabalhador que denunciou a exigência de revista em seu cabelo em uma unidade do Carrefour. Para ela, o caso exemplifica suspeitas associadas às características físicas de pessoas negras. Segundo a advogada, após a intervenção do conselho, a empresa se dispôs a discutir uma composição pelo dano moral relatado.

O Conselho Afro mantém atividades até 21 de novembro, com temas como saúde mental, juventude, participação de mulheres em espaços de poder, segurança, educação e empregabilidade. “Esse assunto não se esgota no mês de novembro”, afirma.

O acesso ao conhecimento amplo é uma das ferramentas mais eficazes no combate ao racismo. Nesse contexto, o Departamento de Igualdade Racial mantém um projeto que reúne professores para discutir relações raciais e o ensino de história e aprofundamento na cultura afro-brasileira e indígena.

Segundo o departamento, escolas e locais de trabalho são os ambientes mais recorrentes nos relatos acolhidos. Crianças, adolescentes e mulheres são as principais vítimas atendidas. As situações envolvem, sobretudo, ofensas relacionadas aos cabelos e à cor da pele, frequentemente acompanhadas de expressões que comparam pessoas a animais.

Uma atividade de contação de histórias, realizada em parceria com os criadores do jogo Ìrántí, alcançou mais de 150 crianças. A programação abordou trajetórias de personalidades negras, como Dandara e Zumbi dos Palmares, Luiza Mahin, Luiz Gama e Lélia Gonzalez, além de homenageados da galeria. Depois, as crianças participaram de um jogo da memória voltado à valorização de personalidades negras de Rio Preto.

Na Casa Afro também mantém a Galeria Aristides dos Santos, dedicada a pessoas que se destacaram no enfrentamento ao racismo e na luta pela igualdade racial. Outra iniciativa considerada importante é o troféu de mesmo nome, que reconhece pessoas, empresas e organizações que contribuem para o combate à discriminação.

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