HISTÓRIAEles não são santos da Igreja, mas recebem orações e pedidos de milagres em Belém
Em Belém, o Cemitério Santa Izabel guarda milhares de histórias de vidas paraenses, sendo que algumas transcendem a vida terrena e passam a despertar a fé e a devoção nas pessoas, como o caso de Severa Romana e Camilo Salgado. São os santos populares, cujos visitantes depositam orações e atribuem graças alcançadas a eles, apesar de não serem canonizados pela Igreja Católica.
De forma geral, os fatores que transformam uma pessoa em um santo popular são a forma da morte, a defesa da honra, a inocência ou a virtude que ela apresentava em vida, de acordo com o historiador e cientista da religião Márcio Neco.
“A Severa Romana morre defendendo a honra e o Camilo Salgado era um médico virtuoso e caridoso, logo a população dá continuidade falando que ele opera milagres após a morte”, exemplifica o especialista.
Por não serem canonizados e não terem uma igreja, o local de culto dos santos populares vira o túmulo da pessoa. Dessa forma, os túmulos ficam cheios de flores, velas e relatos de graças alcançadas, principalmente no Dia de Todos os Santos e no Dia de Finados.
Quem são os santos populares de Belém?
Santos
Entre os santos populares que estão no Cemitério Santa Izabel, localizado no bairro do Guamá, o túmulo de Camilo Salgado é um dos mais visitados. Falecido em 1938, ele era um médico virtuoso, que ficou conhecido pela dedicação aos pacientes e pelo trabalho desenvolvido em Belém.
Outro nome famoso é o de Severa Romana, uma mulher simples que foi vítima de um crime violento no início do século XX. Ela morreu defendendo a honra e sua morte causou uma grande comoção popular, levando-a a ser cultuada.
Neila Cristina Almeida também é alvo da devoção popular. Ela foi uma jovem que morreu aos 15 anos em um trágico acidente, de acordo com o historiador.
Muitas pessoas consideram Josephina Conte, conhecida como a moça do táxi, como uma santa popular. Inclusive, o seu túmulo conta com velas e flores deixadas pelos visitantes. Contudo, Márcio Neco levanta um questionamento sobre se ela realmente é uma santa popular.
“Existe uma diferença entre santos populares e nomes de grande destaque, cujos túmulos recebem homenagens. Ela não necessariamente é santa popular, mas é uma figura de grande destaque cujo túmulo é homenageado. Ela é muito visitada pela narrativa popular”, defende.
Tradição
Tradição dos santos populares em Belém
A tradição dos santos populares cresce na sociedade belenense, de acordo com Márcio Neco. “Vejo a prática potencializada, principalmente, no Dia de Todos os Santos e Finados, mas, ao longo dos anos, temos muitos visitantes indo aos túmulos”, relata.
Entre os motivos para esse fortalecimento, o historiador aponta que o advento da internet ajudou na divulgação da devoção e do costume popular, além do grande número de pesquisas realizadas sobre o assunto.
A forte relação das pessoas com a fé e com a devoção às almas também contribui para a continuidade da tradição. “Em uma sociedade complexa, é visto que as pessoas recorrem à fé para terem a realização de muitos pedidos. Lembrar também que sempre foi muito forte a devoção às almas, em Belém. Isso abriu caminhos para essas inúmeras devoções populares”, explica o especialista.
Outro fator importante é a transmissão do costume através das gerações. Por exemplo, a dona de casa Roseane Martins, de 46 anos, rotineiramente acende velas nos túmulos dos santos populares e reza por eles, sendo um costume adquirido desde a infância.
“Vinha com a minha madrinha aqui ao cemitério. Sempre visitávamos os santos, como o doutor Camilo Salgado. Agora, sempre acendo uma vela”, conta Roseane Martins.
A dona de casa reza pelos santos e acredita nos milagres atribuídos a eles. “Eles são anjos. Tem milagres atribuídos a eles para o bem das pessoas. Já vi histórias de pessoas curadas de câncer. Então, fica cheio de velas e flores no túmulo deles”, afirma.
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