CULTURA FLICA 2026 começa nesta quinta com debate sobre criatividade e IA
A literatura é uma forma de imaginar novos mundos, preservar memórias e compreender as transformações da sociedade. Em um cenário marcado pelo avanço da inteligência artificial e pelas mudanças nas formas de produzir e compartilhar conhecimento, a criatividade humana ganha novos desafios. É a partir dessas reflexões que a 14ª Festa Literária Internacional de Cachoeira (FLICA) acontece desta quinta-feira, 5, até o próximo domingo, 8, no Recôncavo Baiano, reunindo escritores, pesquisadores, artistas e leitores em uma programação gratuita que discutirá literatura, tecnologia, ancestralidade e diversidade cultural.
Com o tema “Como ser criativo com tanta IA por aí?”, a edição deste ano propõe discussões sobre autoria, originalidade, democracia, racismo algorítmico e os impactos das ferramentas digitais na produção artística. Entre os convidados estão a jornalista e escritora Miriam Leitão, a cientista da computação Nina da Hora, a educadora Nilma Lino Gomes e a escritora Scholastique Mukasonga. A expectativa da organização é receber mais de 100 mil visitantes nos quatro dias de festival.
Tudo sobre Cultura em primeira mão!Segundo George Lessa Caires, responsável pela Schommer Produções, empresa realizadora da FLICA, a escolha do tema acompanha transformações que já fazem parte da vida cotidiana e da maneira como as pessoas se relacionam com a informação e a cultura.
“A inteligência artificial já faz parte da nossa realidade e está mudando a forma como a gente trabalha, aprende, escreve e se comunica. Nada mais natural do que trazer esse debate para a FLICA. A ideia é discutir essas mudanças, entender os desafios e refletir sobre o papel da criatividade humana nesse cenário”, destaca.
A programação foi construída a partir do diálogo entre diferentes curadorias e será distribuída em espaços temáticos, com atividades para públicos de todas as idades. A Tenda Paraguaçu, instalada às margens do rio, concentrará encontros sobre literatura, tecnologia e questões sociais. No Cine Theatro Cachoeirano, a Geração FLICA promoverá debates sobre criatividade e novas linguagens voltados à juventude, enquanto a Fliquinha ocupará o Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), com atividades de incentivo à leitura e experiências artísticas para as crianças.
Para George, além de promover o encontro entre diferentes gerações, o festival representa uma oportunidade de fortalecer a produção literária e cultural da região e contribuir para a movimentação econômica de Cachoeira.
“A FLICA vai muito além da programação literária. Ela coloca Cachoeira e o Recôncavo em evidência, atrai visitantes, movimenta a economia e gera oportunidades para artistas, escritores, produtores e diversos profissionais”, afirma.
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Literatura e liberdade
Entre os destaques da programação está a participação da jornalista e escritora Miriam Leitão, que apresentará pela primeira vez em um evento literário seu novo romance, "A dança de Elisa" (Editora Intrínseca).
O encontro é na quinta-feira, 5, às 11h, na abertura da Tenda Paraguaçu, durante a mesa “Penso, logo... IA: distopias à vista?”, ao lado da cientista da computação Nina da Hora, com mediação do especialista em cultura Zulu Araújo. O livro marca o retorno de Miriam à ficção depois de mais de uma década e apresenta uma sociedade autoritária em que as mulheres enfrentam a perda progressiva de direitos e liberdades.
A narrativa acompanha uma dançarina que lidera uma rebelião contra o conservadorismo e as diferentes formas de repressão. A escritora conta que a ideia para o romance surgiu durante um período em que enfrentava ataques nas redes sociais. Inicialmente concebida como um conto, a história ganhou novos personagens e se transformou em uma narrativa sobre mulheres que resistem ao silenciamento.
“O primeiro capítulo do A Dança de Elisa nasceu num momento em que eu estava sendo alvo de uma violenta campanha de ódio nas redes sociais. Eu imaginei essa mulher tão diferente de mim e tão surpreendente. Uma dançarina que lidera uma rebelião contra o conservadorismo, contra os ataques às mulheres”, revela Miriam.
A escolha pela ficção distópica também permitiu à autora abordar o feminismo a partir de uma perspectiva literária. Segundo ela, o desejo de escrever sobre o tema já existia há muitos anos, mas encontrou na construção de personagens femininas uma nova forma de expressão.
Embora o lançamento oficial da obra esteja marcado para 10 de novembro, no Rio de Janeiro, o público da FLICA terá a oportunidade de conhecer o romance antecipadamente. Para Miriam, a mesa de abertura será uma oportunidade de conectar a literatura aos debates contemporâneos sobre cultura digital, racismo e violência de gênero, a partir do encontro entre autoras de diferentes gerações.
Na mesma mesa, Nina da Hora levará ao público reflexões sobre os impactos da inteligência artificial nas relações sociais, especialmente na reprodução de desigualdades raciais. A cientista também apresentará o livro Do rosto ao vetor: uma história da medição do rosto, da eugenia ao algoritmo, no qual investiga como práticas históricas de classificação humana se relacionam com o desenvolvimento das tecnologias digitais. O encontro aproxima, assim, duas perspectivas sobre os desafios contemporâneos: a ficção distópica de Miriam e as pesquisas de Nina sobre os sistemas algorítmicos.
Ancestralidade e tecnologia
Além das discussões propostas na mesa de abertura, a Tenda Paraguaçu reúne encontros que exploram diferentes formas de expressão, preservação de saberes e enfrentamento das desigualdades. Segundo o curador Marielson Carvalho, a proposta foi aproximar escritores, pesquisadores e artistas de diferentes trajetórias, ampliando as possibilidades de diálogo entre literatura e questões contemporâneas.
“Estamos vivendo uma virada tecnológica incontornável na relação homem-máquina. A história da humanidade sempre foi marcada por essas revoluções sociais a partir da mediação tecnológica, então pensamos na Tenda Paraguaçu para conectar várias referências de saberes, linguagens e identidades como forma de lidar com a agenda pública sobre racismo, feminismos, ancestralidades, sexualidades, diásporas”, pontua.
Ainda na quinta-feira, 5, às 19h, o sarau Sued Nunes Não Anda Só reúne a cantora e compositora de Sapeaçu com Afropecado, Duda Santhana, MC Jaynne e Matheus Kawan. A apresentação combina poesia e música, valorizando a produção artística negra e as experiências compartilhadas por diferentes gerações de artistas baianos.
Na sexta-feira, 6, às 15h, a mesa “Inteligência ancestral, memórias afrofuturistas” recebe o escritor Ale Santos e o pesquisador Cesar Sobrinho, com mediação de Cristian Sales. O encontro propõe reflexões sobre a preservação dos saberes africanos e afrodiaspóricos, a importância da oralidade e as possibilidades de imaginar novos futuros a partir das heranças culturais.
Já no sábado, 7, às 18h, a mesa “Inteligência artificial e racismo – Algoritmos da branquitude” reúne a pedagoga e escritora Nilma Lino Gomes e o pesquisador Tarcízio Silva, com mediação de Jamile Borges. A discussão abordará como os sistemas digitais podem reproduzir e aprofundar desigualdades historicamente presentes na sociedade.
Para Nilma, compreender o funcionamento dessas ferramentas exige uma educação crítica, capaz de reconhecer as relações de poder que influenciam seu desenvolvimento.
“Uma educação democrática e emancipatória nos ensina a analisar criticamente a realidade social. Por isso, pode nos ajudar a compreender que a inteligência artificial é uma criação humana, produzida em um mundo marcado por desigualdades sociais, raciais e econômicas”, analisa.
Novas gerações
A relação entre literatura e tecnologia também orienta a programação da Geração FLICA, espaço dedicado ao público jovem, que ocupará o Cine Theatro Cachoeirano. Sob curadoria do escritor Deco Lipe, a proposta reúne escritores, ilustradores, humoristas e criadores de conteúdo digital para discutir os desafios da autoria e da originalidade em tempos de inteligência artificial.
“A ideia surgiu da vontade de conversar com os jovens sobre algo que já faz parte da vida deles. A inteligência artificial está mudando a forma como criamos, escrevemos e produzimos imagens. Por isso, quis trazer uma programação que provocasse uma reflexão sobre como manter a originalidade nesse cenário”, explica Deco.
Na quinta-feira, 5, às 14h, a mesa “(IA)gora, para onde vai a nossa imaginação?” reúne o escritor e diretor criativo André Carvalhal e a poeta e professora Sandra Liss, com mediação de Breno Fernandes. O encontro discutirá os limites entre a utilização das ferramentas digitais e a preservação da imaginação, da identidade e da autonomia criativa.
Já na sexta-feira, 6, às 16h, a escritora e atriz Dora Freind e o artista, cordelista e educador Matheus Chão de Palha participam da mesa “Histórias que só a gente conta”, mediada por Catarina Neris. A conversa abordará a importância das experiências humanas na construção de narrativas e os elementos que diferenciam a criação artística dos conteúdos produzidos por sistemas automatizados. Na ocasião, Dora também apresentará o livro As vacas não me olham mais na cara.
No sábado, 7, às 9h, a programação segue com a mesa “Traço, quadro e ideia: Ilustração e HQ na era da IA”, que reúne os ilustradores Paulo Moreira, Isabella Ismile e Breu, com mediação de Daniel Cesart. O encontro discutirá os impactos das ferramentas de IA na produção de quadrinhos, na reprodução de estilos artísticos e na proteção dos direitos autorais.
Para Deco, um dos principais desafios da formação de leitores é reconhecer que as novas gerações já produzem e compartilham narrativas em diferentes plataformas. Por isso, a aproximação com a literatura não deve acontecer em oposição às tecnologias, mas a partir do diálogo entre essas linguagens.
“Acredito que o desafio é aproximar a literatura da realidade dos jovens, sem colocar os livros em oposição às redes sociais. Eles já produzem conteúdo, contam histórias e compartilham ideias na internet. Precisamos reconhecer isso e criar pontes com a leitura”, destaca.

Literatura e imaginação
O público infantil também terá uma programação própria na Fliquinha, que acontecerá no Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL) da UFRB. Com curadoria de Emília Nuñez, o espaço terá como conceito “Original como a infâncIA!”, propondo experiências que valorizam a imaginação, a criatividade e o contato das crianças com a literatura para além das telas.
Na quinta-feira, 5, às 14h, a programação recebe Gabriel Dearo e Manu Digilio, criadores da série de livros "As Aventuras de Mike", que já ultrapassou a marca de dois milhões de exemplares vendidos. A dupla participa da mesa “Entre telas, livros e capivaras: Crianças (bem) conectadas”, com mediação de Aloma e Aninha, do perfil Coelhos Leitores, para discutir como os conteúdos digitais podem aproximar crianças e adolescentes do universo literário.
Na sexta-feira, 6, às 15h, a escritora e educadora Luana Tolentino apresenta o livro Mamãe aprendeu a ler, inspirado na trajetória de sua mãe, que iniciou os estudos aos 70 anos. A mesa “Ler e conquistar a liberdade!” contará com a participação de Irmã Cleusa Santana, presidente da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, e mediação de Ananda Luz. O encontro abordará a importância da educação, da memória e da transmissão de conhecimentos entre gerações.
Já no sábado, 7, às 16h, a música ganha destaque com o lançamento do livro "O menino que era música", de Liris Letieres e Caroline Feitosa. A obra apresenta ao público infantil a trajetória do maestro baiano Letieres Leite, criador da Orkestra Rumpilezz, falecido em 2021. A homenagem contará com a participação do Rumpilezzinho, projeto de formação musical ligado ao legado do artista.
Além dos encontros literários, a Fliquinha contará com a Área Verde, sob curadoria da educadora e produtora Duca Clara. O espaço oferecerá atividades como cinema, pintura, teatro de fantoches, oficinas de produção textual e a Pedaloteca, biblioteca itinerante montada em uma bicicleta. Também haverá orientação de psicopedagogas para famílias de crianças atípicas, ampliando as possibilidades de participação e acolhimento durante o festival.
A 14ª edição da FLICA tem patrocínio do Governo do Estado da Bahia, por meio do FazCultura, da Secretaria da Fazenda (Sefaz), da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA) e da Secretaria da Educação (SEC). O evento integra o Bahia Literária, programa da Fundação Pedro Calmon (FPC), unidade vinculada à SecultBA. A realização é da SCHOMMER Produções.
Serviço:
14ª Festa Literária Internacional de Cachoeira – FLICA
A partir de quinta-feira, 5, até domingo 8.
Cachoeira
Mais informações e programação completa no site.
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.
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