O Povo
01/11/2026 09:00

Preparativos para o Dia dos Finados vira tradição familiar

Fortaleza

Trabalhadores e visitantes compartilham tradições de gerações, mantendo vivo os laços afetivos e históricos dentro dos cemitérios

Por Gabriele Félix

Notícia

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Atualizado às 18:58, 30/10/2026 | Publicado às 18:56, 30/10/2026

Em uma tradição herdada do patriarca da família, os irmãos Tarcísio Moreira, 66, e Nelsa Dantas, 63, se encontraram no São João Batista para limpar o túmulo onde estão sepultados os parentes
Em uma tradição herdada do patriarca da família, os irmãos Tarcísio Moreira, 66, e Nelsa Dantas, 63, se encontraram no São João Batista para limpar o túmulo onde estão sepultados os parentes Crédito: FÁBIO LIMA

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Resumo

  • Famílias visitam cemitérios de Fortaleza para limpar túmulos, trocar flores, acender velas e fazer orações em homenagem aos entes queridos.

  • No Cemitério Parque da Paz, a florista Jéssika Queiroz mantém a barraca herdada da avó, falecida há 13 anos, preservando a memória dela por meio da venda de flores.

  • Os irmãos Francisco Assis, Tarcísio Moreira e Nelsa Dantas seguem o costume herdado do pai de visitar o jazigo da família, onde limpam o túmulo, trocam flores e fazem orações.

  • As irmãs Francisca e Maria Socorro Lacerda visitam mensalmente os túmulos dos pais e irmãos no Cemitério Parque da Paz.

Entre buquês de flores e guarda-sóis, centenas de famílias se reúnem nos cemitérios da ensolarada capital cearense, na manhã desta sexta-feira, 30, para dar início aos preparativos em homenagem ao Dia dos Finados. A data, celebrada no dia 2 de novembro, é marcada por rituais de memória e temporalidade aos entes queridos que já partiram.

Com 160 anos de tradição, o cemitério São João Batista, no Centro, é conhecido pela arte tumular, cercada por elementos religiosos e lápides de ilustres vultos cearenses. Há 46 anos, Francisca Pereira Lima, 76, trabalha na zeladoria dos túmulos do local. Ao longo das décadas, conta ter percebido o número de visitantes diminuir durante o feriado.

“Chica Loura”, como é chamada pelos familiares de seus clientes e pelos amigos do cemitério, costuma trabalhar diariamente, das 7 às 17 horas, durante os dias que antecedem a data, que tende ser a melhor época do ano para ofertar seus serviços.

Há 46 anos, Francisca Pereira Lima, 76, trabalha na zeladoria dos túmulos do local

Há 46 anos, Francisca Pereira Lima, 76, trabalha na zeladoria dos túmulos do local
Crédito: FÁBIO LIMA

Há 46 anos, Francisca Pereira Lima, 76, trabalha na zeladoria dos túmulos do local

Há 46 anos, Francisca Pereira Lima, 76, trabalha na zeladoria dos túmulos do local
Crédito: FÁBIO LIMA

“Passou o Finados, a gente vem três vezes. Segunda, quarta e sexta. Pronto. Aqui eu tenho uns 10, 12 túmulos. Aqui está bonito, não tem de que reclamar daqui porque, olha, lá na frente você vê a boniteza dos apartamentos que têm lá. Estão tudo botando a cera, que não era do jeito que tá ali, era pedra de cimento, mas tá tudo bonito. Estão correndo para deixar tudo limpo ao redor todo do cemitério e dentro. Tá ótimo”, compartilha.

Na entrada do Cemitério Parque da Paz, no Passaré, a florista Jéssika Queiroz, 34, mantém viva a memória da avó por meio da venda de flores. A barraca onde funciona o seu negócio foi herança da ancestral, que faleceu há 13 anos, e era apaixonada pelo trabalho.

Para além da vendedora, há a neta. Quando a visita no túmulo, faz questão de levar flores de cores neutras, brancas e amarelas, mantendo a ligação entre as duas, que também está estampada em uma tatuagem floral que carrega no antebraço.

“Eu acompanhei ela desde que eu vinha pequenininha para cá, para o ponto, ajudar ela. Aí a bichinha faleceu e eu continuei, porque isso aqui era a cara dela. Aí ficou a tradição. A gente vem mesmo porque ela era o sangue dela isso, essa vendinha”, conta.

A vendedora de flores também percebeu uma diminuição das vendas durante os preparativos e o Dia dos Finados. De uns anos para cá, precisou reduzir o estoque de jarros que adquire para a data comemorativa, evitando prejuízos financeiros.

FORTALEZA-CE, BRASIL,30.10.2026: Preparativos para o dia de finados. Parque da paz.  (Fotos: Fabio Lima/OPOVO)
FORTALEZA-CE, BRASIL,30.10.2026: Preparativos para o dia de finados. Parque da paz. (Fotos: Fabio Lima/OPOVO) Crédito: FÁBIO LIMA

A movimentação de clientes oscila conforme o dia da semana em que acontece o feriado. Quando ocorre em uma segunda-feira, como é o caso de 2026, ela explica que os visitantes costumam antecipar as compras para o final de semana, antes de viajarem para os cemitérios. O negócio de flores, segundo ela, costuma ser sustentado pela presença dos clientes fiéis, que fazem questão de sempre procurar as mesmas barracas.

A irmandade de rituais que atravessa gerações

Em uma tradição herdada do patriarca da família, que costumava visitar o cemitério todos os domingos para rezar pelos antepassados, os irmãos Francisco Assis, 73; Tarcísio Moreira, 66; e Nelsa Dantas, 63, se encontraram no São João Batista para limpar o túmulo onde estão sepultados os parentes.

No local, estão sepultados o pai e a mãe dos irmãos Moreira; além de um dos filhos de Tarcísio, que morreu aos 17 anos, após ser vítima de um tiro acidental. Durante a visita, os irmãos costumam limpar o jazigo, trocar as flores, acender velas e fazer orações.

As homenagens, segundo eles, costumam ser prestadas de forma antecipada, evitando a superlotação que costuma ser registrada no cemitério durante o Dia dos Finados. Tarcísio e Nelsa contam que buscam transmitir o exemplo aos filhos e sobrinhos, relembrando que aqueles que permanecem no coração continuam vivos pelo afeto e pelas lembranças.

“Eu acho que é um momento de pessoas que já estão no outro plano serem lembradas, ter orações para eles. É questão de se manter vivo no coração de alguém. Agora, isso é uma particularidade de cada pessoa, de cada família, de cada costume”, enfatiza Tarcísio.

Em uma tradição herdada do patriarca da família, os irmãos Tarcísio Moreira, 66, e Nelsa Dantas, 63, se encontraram no São João Batista para limpar o túmulo onde estão sepultados os parentes

Em uma tradição herdada do patriarca da família, os irmãos Tarcísio Moreira, 66, e Nelsa Dantas, 63, se encontraram no São João Batista para limpar o túmulo onde estão sepultados os parentes
Crédito: FÁBIO LIMA

FORTALEZA-CE, BRASIL,30.10.2026: Cemitério São João Batista.  Preparativos para o dia de finados.  (Fotos: Fabio Lima/OPOVO)

FORTALEZA-CE, BRASIL,30.10.2026: Cemitério São João Batista. Preparativos para o dia de finados. (Fotos: Fabio Lima/OPOVO)
Crédito: FÁBIO LIMA

FORTALEZA-CE, BRASIL,30.10.2026: Cemitério São João Batista.  Preparativos para o dia de finados.  (Fotos: Fabio Lima/OPOVO)

FORTALEZA-CE, BRASIL,30.10.2026: Cemitério São João Batista. Preparativos para o dia de finados. (Fotos: Fabio Lima/OPOVO)
Crédito: FÁBIO LIMA

“Eu acho que é importante as famílias, depois que sepultam os seus entes queridos, não abandonar, não deixar para lá, vir pelo menos uma vez no ano dá uma olhadinha no túmulo, vê como é que tá a situação período de Finados, que era mais importante ainda. É acender uma vela, trazer rosas. Eu sei que sei que é uma questão de credo de cada um, mas eu tô falando da nossa experiência”, explica Nelsa.

No Passaré, os Lacerdas também se preparavam para antecipar a limpeza dos túmulos e a visita aos seus familiares. No cemitério, estão sepultados o pai, a mãe e quatro irmãos. A fraternidade que une as donas de casa Francisca Lacerda, 73, e Maria Socorro Lacerda, 60, se expande no amor que as reúne mensalmente para manter a memória dos parentes.

Ao todo, elas contam que a família é formada por sete irmãos, que se dividem em grupos para realizar as visitas. Uma parte vai dias antes, para limpar o local, e a outra se encontra no feriado, prestando homenagens.

“A gente gosta de tocar os terços, de deixar bem aguadinho, bem ajeitadinho, porque aí quando o restante dos irmãos vier na segunda, aí já está tudo organizadinho. Se precisar acender alguma vela, se precisar fazer mais alguma coisa, já é mais simples para eles organizarem”, explica Maria.

A dona de casa Francisca Lacerda, 73, vai mensalmente para manter a memória dos parentes

A dona de casa Francisca Lacerda, 73, vai mensalmente para manter a memória dos parentes
Crédito: FÁBIO LIMA

FORTALEZA-CE, BRASIL,30.10.2026: Preparativos para o dia de finados. Parque da paz.  (Fotos: Fabio Lima/OPOVO)

FORTALEZA-CE, BRASIL,30.10.2026: Preparativos para o dia de finados. Parque da paz. (Fotos: Fabio Lima/OPOVO)
Crédito: FÁBIO LIMA

FORTALEZA-CE, BRASIL,30.10.2026: Preparativos para o dia de finados. Parque da paz.  (Fotos: Fabio Lima/OPOVO)

FORTALEZA-CE, BRASIL,30.10.2026: Preparativos para o dia de finados. Parque da paz. (Fotos: Fabio Lima/OPOVO)
Crédito: FÁBIO LIMA

FORTALEZA-CE, BRASIL,30.10.2026: Preparativos para o dia de finados. Parque da paz.  (Fotos: Fabio Lima/OPOVO)

FORTALEZA-CE, BRASIL,30.10.2026: Preparativos para o dia de finados. Parque da paz. (Fotos: Fabio Lima/OPOVO)
Crédito: FÁBIO LIMA

FORTALEZA-CE, BRASIL,30.10.2026: Preparativos para o dia de finados. Parque da paz.  (Fotos: Fabio Lima/OPOVO)

FORTALEZA-CE, BRASIL,30.10.2026: Preparativos para o dia de finados. Parque da paz. (Fotos: Fabio Lima/OPOVO)
Crédito: FÁBIO LIMA

A ida ao cemitério foi organizada pelo filho de Maria, o segurança Ronne Lacerda, 42. Ele foi o motorista responsável por levar a mãe e a tia ao local, participando também dos preparativos e da limpeza. Às vésperas do feriado, as irmãs costumam lavar a sepultura, regar, trocar as rosas e fazer orações, especialmente o Pai Nosso, considerado indispensável.

“O Pai Nosso não pode faltar, porque é a única reza que Deus deixou para nós. O Dia dos Finados significa saudade, gostar, recordações, sonhos que sonhamos juntos, são todas as coisas boas. E se resume no final de tudo de pedir, continuar pedindo a Deus que dê o descanso eterno, que Deus abençoe tanto eles lá como nós aqui na terra”, reforçam Francisca e Maria.

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