Preparativos para o Dia dos Finados vira tradição familiar
Trabalhadores e visitantes compartilham tradições de gerações, mantendo vivo os laços afetivos e históricos dentro dos cemitérios
Por Gabriele Félix
Notícia
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Atualizado às 18:58, 30/10/2026 | Publicado às 18:56, 30/10/2026
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Resumo
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Famílias visitam cemitérios de Fortaleza para limpar túmulos, trocar flores, acender velas e fazer orações em homenagem aos entes queridos.
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No Cemitério Parque da Paz, a florista Jéssika Queiroz mantém a barraca herdada da avó, falecida há 13 anos, preservando a memória dela por meio da venda de flores.
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Os irmãos Francisco Assis, Tarcísio Moreira e Nelsa Dantas seguem o costume herdado do pai de visitar o jazigo da família, onde limpam o túmulo, trocam flores e fazem orações.
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As irmãs Francisca e Maria Socorro Lacerda visitam mensalmente os túmulos dos pais e irmãos no Cemitério Parque da Paz.
Entre buquês de flores e guarda-sóis, centenas de famílias se reúnem nos cemitérios da ensolarada capital cearense, na manhã desta sexta-feira, 30, para dar início aos preparativos em homenagem ao Dia dos Finados. A data, celebrada no dia 2 de novembro, é marcada por rituais de memória e temporalidade aos entes queridos que já partiram.
Com 160 anos de tradição, o cemitério São João Batista, no Centro, é conhecido pela arte tumular, cercada por elementos religiosos e lápides de ilustres vultos cearenses. Há 46 anos, Francisca Pereira Lima, 76, trabalha na zeladoria dos túmulos do local. Ao longo das décadas, conta ter percebido o número de visitantes diminuir durante o feriado.
“Chica Loura”, como é chamada pelos familiares de seus clientes e pelos amigos do cemitério, costuma trabalhar diariamente, das 7 às 17 horas, durante os dias que antecedem a data, que tende ser a melhor época do ano para ofertar seus serviços.
“Passou o Finados, a gente vem três vezes. Segunda, quarta e sexta. Pronto. Aqui eu tenho uns 10, 12 túmulos. Aqui está bonito, não tem de que reclamar daqui porque, olha, lá na frente você vê a boniteza dos apartamentos que têm lá. Estão tudo botando a cera, que não era do jeito que tá ali, era pedra de cimento, mas tá tudo bonito. Estão correndo para deixar tudo limpo ao redor todo do cemitério e dentro. Tá ótimo”, compartilha.
Na entrada do Cemitério Parque da Paz, no Passaré, a florista Jéssika Queiroz, 34, mantém viva a memória da avó por meio da venda de flores. A barraca onde funciona o seu negócio foi herança da ancestral, que faleceu há 13 anos, e era apaixonada pelo trabalho.
Para além da vendedora, há a neta. Quando a visita no túmulo, faz questão de levar flores de cores neutras, brancas e amarelas, mantendo a ligação entre as duas, que também está estampada em uma tatuagem floral que carrega no antebraço.
“Eu acompanhei ela desde que eu vinha pequenininha para cá, para o ponto, ajudar ela. Aí a bichinha faleceu e eu continuei, porque isso aqui era a cara dela. Aí ficou a tradição. A gente vem mesmo porque ela era o sangue dela isso, essa vendinha”, conta.
A vendedora de flores também percebeu uma diminuição das vendas durante os preparativos e o Dia dos Finados. De uns anos para cá, precisou reduzir o estoque de jarros que adquire para a data comemorativa, evitando prejuízos financeiros.
A movimentação de clientes oscila conforme o dia da semana em que acontece o feriado. Quando ocorre em uma segunda-feira, como é o caso de 2026, ela explica que os visitantes costumam antecipar as compras para o final de semana, antes de viajarem para os cemitérios. O negócio de flores, segundo ela, costuma ser sustentado pela presença dos clientes fiéis, que fazem questão de sempre procurar as mesmas barracas.
A irmandade de rituais que atravessa gerações
Em uma tradição herdada do patriarca da família, que costumava visitar o cemitério todos os domingos para rezar pelos antepassados, os irmãos Francisco Assis, 73; Tarcísio Moreira, 66; e Nelsa Dantas, 63, se encontraram no São João Batista para limpar o túmulo onde estão sepultados os parentes.
No local, estão sepultados o pai e a mãe dos irmãos Moreira; além de um dos filhos de Tarcísio, que morreu aos 17 anos, após ser vítima de um tiro acidental. Durante a visita, os irmãos costumam limpar o jazigo, trocar as flores, acender velas e fazer orações.
As homenagens, segundo eles, costumam ser prestadas de forma antecipada, evitando a superlotação que costuma ser registrada no cemitério durante o Dia dos Finados. Tarcísio e Nelsa contam que buscam transmitir o exemplo aos filhos e sobrinhos, relembrando que aqueles que permanecem no coração continuam vivos pelo afeto e pelas lembranças.
“Eu acho que é um momento de pessoas que já estão no outro plano serem lembradas, ter orações para eles. É questão de se manter vivo no coração de alguém. Agora, isso é uma particularidade de cada pessoa, de cada família, de cada costume”, enfatiza Tarcísio.
“Eu acho que é importante as famílias, depois que sepultam os seus entes queridos, não abandonar, não deixar para lá, vir pelo menos uma vez no ano dá uma olhadinha no túmulo, vê como é que tá a situação período de Finados, que era mais importante ainda. É acender uma vela, trazer rosas. Eu sei que sei que é uma questão de credo de cada um, mas eu tô falando da nossa experiência”, explica Nelsa.
No Passaré, os Lacerdas também se preparavam para antecipar a limpeza dos túmulos e a visita aos seus familiares. No cemitério, estão sepultados o pai, a mãe e quatro irmãos. A fraternidade que une as donas de casa Francisca Lacerda, 73, e Maria Socorro Lacerda, 60, se expande no amor que as reúne mensalmente para manter a memória dos parentes.
Ao todo, elas contam que a família é formada por sete irmãos, que se dividem em grupos para realizar as visitas. Uma parte vai dias antes, para limpar o local, e a outra se encontra no feriado, prestando homenagens.
“A gente gosta de tocar os terços, de deixar bem aguadinho, bem ajeitadinho, porque aí quando o restante dos irmãos vier na segunda, aí já está tudo organizadinho. Se precisar acender alguma vela, se precisar fazer mais alguma coisa, já é mais simples para eles organizarem”, explica Maria.
A ida ao cemitério foi organizada pelo filho de Maria, o segurança Ronne Lacerda, 42. Ele foi o motorista responsável por levar a mãe e a tia ao local, participando também dos preparativos e da limpeza. Às vésperas do feriado, as irmãs costumam lavar a sepultura, regar, trocar as rosas e fazer orações, especialmente o Pai Nosso, considerado indispensável.
“O Pai Nosso não pode faltar, porque é a única reza que Deus deixou para nós. O Dia dos Finados significa saudade, gostar, recordações, sonhos que sonhamos juntos, são todas as coisas boas. E se resume no final de tudo de pedir, continuar pedindo a Deus que dê o descanso eterno, que Deus abençoe tanto eles lá como nós aqui na terra”, reforçam Francisca e Maria.
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