Diário do Rio de Janeiro
01/11/2026 09:30

Rio encerra irmandade de Santo Eloy e revela a história dos joalheiros que tinham uma rua e um santo

O oratório original de Santo Eloy, na esquina da rua dos Ourives com a Sete de Setembro - Reprodução

Os joalheiros do Rio de Janeiro já tiveram uma rua que levava o nome de seu ofício, um oratório numa esquina do Centro e uma irmandade dedicada ao santo que os protegia. Entre oficinas de ouro e prata, lojas de pedras preciosas e igrejas abastecidas pelo trabalho desses artesãos, a Venerável Irmandade do Glorioso Santo Eloy atravessou gerações. Agora, com o envelhecimento e a posterior dispersão de seus integrantes, essa trajetória associativa chegou ao fim: o arcebispo do Rio, Cardeal Dom Orani João Tempesta, decretou sua dissolução na última semana.  Mas a tradição da antológica irmandade não será esquecida. 

Publicado na seção de atos de governo do jornal Testemunho de Fé, da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, o anúncio registra a decisão: “Decretando a dissolução da Associação Pública de Fiéis Venerável Irmandade do Glorioso Santo Eloy.” A formulação administrativa encerra uma história que ajuda a compreender como os cariocas trabalhavam, se reconheciam como grupo e organizavam sua vida religiosa muito antes de existirem as associações profissionais que conhecemos hoje.

Para encontrar seus vestígios, é preciso caminhar por um Centro cujos nomes e contornos mudaram. A antiga Rua dos Ourives foi repartida pelas transformações urbanas, e em grande parte apagada pela criação da Avenida Rio  Branco, deixando apenas 2 trechos,  hoje identificados como Rua Miguel Couto e Rua Rodrigo Silva. O nome desapareceu das placas, mas preservava a memória dos homens que trabalhavam metais preciosos e faziam desse ofício uma presença reconhecível na cidade.

Uma reportagem de A Noite Ilustrada, publicada em 20 de maio de 1936, recuperou esse endereço quando sua antiga denominação já cedia lugar à homenagem ao médico Miguel Couto. O texto lembrava que a concentração dos ourives  e prateiros também permitia fiscalizar lojas e oficinas, numa atividade sujeita ao controle sobre a circulação e a qualidade dos metais preciosos. Na esquina com a atual Rua Sete de Setembro, se situava o oratório  original de Santo Eloy, padroeiro dos mestres do ouro e das joias. A mesma imagem deste oratório reside hoje na Igreja de Santa Luzia. 

A devoção, portanto, fazia parte da paisagem do trabalho. O santo estava associado à rua onde os artesãos exerciam sua profissão e também à comunidade religiosa que eles sustentavam.

O santo dos joalheiros também foi ourives

Altar de Santo Eloy na Igreja de Santa Luzia (1940)
Altar de Santo Eloy na Igreja de Santa Luzia (1940) - Reprodução

Santo Eloy, conhecido ainda como Santo Elói ou Santo Elígio, tinha uma ligação direta com aqueles que o escolheram como protetor. Antes de se tornar bispo de Noyon, na atual França, exerceu o ofício de ourives e trabalhou para a corte do rei Clotário II.

Sua tradição religiosa conserva uma história especialmente significativa para quem recebia ouro de terceiros para transformá-lo em objetos: encarregado de produzir um trono, teria confeccionado dois com o metal que lhe fora entregue para apenas um. O episódio, transmitido pela hagiografia, tornou-se uma demonstração de habilidade e honestidade. Sua festa é celebrada em 1º de dezembro, e seu padroado alcança ourives e joalheiros.

Para os profissionais cariocas, reunir-se sob essa invocação significava compartilhar uma devoção ligada à própria experiência cotidiana. Eram trabalhadores que conheciam o valor da matéria-prima, a responsabilidade de uma encomenda e a importância da confiança entre quem entregava o metal e quem o trabalhava.

Quando a profissão também reunia os fiéis

Os irmãos de Santo Eloy, em fotografia dos anos 20 publicada na revista Vida Doméstica. Ao centro, seu provedor, cuja opa era diferenciada.
Os irmãos de Santo Eloy, em fotografia dos anos 20 publicada na revista Vida Doméstica. Ao centro, seu provedor, cuja opa era diferenciada. - Reprodução

As irmandades eram associações de fiéis leigos, com dirigentes, regras e obrigações próprias. Seus integrantes mantinham celebrações, cuidavam do culto e podiam organizar assistência material e espiritual. Algumas reuniam pessoas de uma mesma profissão, aproximando a vida religiosa das relações construídas nas oficinas.

A historiadora Beatriz Catão Cruz Santos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, explica que as irmandades de ofício combinavam devoção, caridade e participação na regulamentação das atividades profissionais. O domínio de um trabalho e a pertença a uma comunidade católica podiam fazer parte da mesma organização da vida. 

As corporações de ofício tratavam de aspectos como aprendizagem, exames e condições para exercer uma atividade. As confrarias cuidavam do culto e de seus compromissos religiosos e assistenciais. Na prática, havia aproximações, sobreposições e disputas entre essas esferas.

O Rio conheceu diversas associações desse tipo. Os trabalhadores da madeira se reuniam sob a proteção de São José; músicos, em torno de Santa Cecília; ferreiros e serralheiros, de São Jorge. Os mercadores tinham a devoção de Nossa Senhora da Lapa. Os ourives encontravam em Santo Eloy o patrono de sua arte. 

Essa ligação podia aparecer até na escolha dos representantes profissionais. A reportagem de 1936 reproduziu parte de um regulamento apresentado ao governo pela Corporação dos Ourives e Relojoeiros em 1821: os mestres deveriam reunir-se na igreja onde estivesse estabelecida a irmandade, na tarde de 1º de dezembro, dia do padroeiro, para proceder à eleição.

Uma irmandade documentada desde o século XVIII

Numa outra festa, nos anos 1910, reuniu-se a irmandade de ourives e prateiros para celebrar o 13 de Janeiro
Numa outra festa, nos anos 1910, reuniu-se a irmandade de ourives e prateiros para celebrar o 13 de Janeiro - Reprodução

A antiguidade da organização carioca aparece em um documento de 15 de dezembro de 1760. Preservado no Arquivo Histórico Ultramarino e identificado no catálogo do Projeto Resgate, da Biblioteca Nacional, o parecer trata do pedido dos mestres ourives do ouro do Rio para confirmar o compromisso que regulamentava a irmandade e o culto de Santo Elói. A documentação demonstra que essa organização já existia naquele momento. 

O pedido também revela que a união dos artesãos exigia delimitar competências. Ao analisar esse processo em sua tese na Universidade Federal da Bahia, Edjane Cristina Rodrigues da Silva mostra que o Conselho Ultramarino determinou uma alteração significativa: onde o compromisso mencionava governar o ofício, deveria referir-se a governar apenas a irmandade. A confraria não poderia atribuir aos seus dirigentes poderes que pertenciam às autoridades responsáveis pela profissão. 

Ainda assim, a defesa do trabalho e de sua reputação atravessava a atuação da associação. Em Entre a cruz e o capital, a historiadora Mônica de Souza N. Martins descreve um caso de 1781 envolvendo marcação de peças e denúncias de falsificações. O escrivão da Irmandade de Santo Eloy deveria acompanhar o alcaide nas buscas em lojas de peças de prata, quando necessário. Procedência, qualidade e confiança também faziam parte daquele universo de devoção. 

Da Igreja do Parto a Santa Luzia

A história religiosa dos ourives passou pela Igreja de Nossa Senhora do Parto, onde a irmandade permaneceu durante longo período. Em artigo publicado na Revista da Semana, em 9 de maio de 1936, o historiador Escragnolle Doria registrou que a associação fora transferida para a Igreja de Santa Luzia por despacho de 1913. Na ocasião em que escreveu, descrevia-a como uma irmandade mantida por ourives. 

A imagem do padroeiro encontrou lugar no templo de Santa Luzia. Segundo o levantamento histórico da igreja, apoiado na obra de Augusto Maurício, ela foi levada para lá em 1913 e ocupou o altar à direita de quem entra, anteriormente dedicado ao Senhor do Bonfim. A devoção acompanhava seus irmãos para outro endereço do Centro, preservando a ligação entre o santo e os profissionais do ouro e da prata. 

O oratório registrado na antiga Rua dos Ourives é outro testemunho dessa presença religiosa. A gravura de Louis Buvelot e Auguste Moreau, reproduzida na reportagem de A Noite Ilustrada, mostra a pequena estrutura projetada sobre a esquina, integrada à fachada do sobrado e à vida da rua. A foto do oratório aqui publicada é inspirada nesta litografia. 

Uma tradição termina, outras começam

O encerramento da Irmandade de Santo Eloy representa o fim de uma tradição mantida por sucessivas gerações. Seus integrantes envelheceram, se dispersaram, e a associação chegou ao término de sua existência. O decreto arquiepiscopal formaliza esse desfecho, enquanto a história dos joalheiros católicos permanece ligada à memória do Centro.

A vida das confrarias cariocas, entretanto, continua a produzir novas associações. Um exemplo recente, acompanhado pelo DIÁRIO DO RIO, é a Confraria dos Devotos Tricolores de Nossa Senhora da Glória e São João Paulo II, que reúne católicos ligados ao Fluminense e promove celebrações e peregrinações. 

Em épocas diferentes, vínculos compartilhados aproximam pessoas e encontram expressão na devoção. Para os antigos ourives, esse vínculo nascia entre ferramentas, encomendas, ouro e prata. A irmandade que agora se encerra deixa o testemunho de um Rio em que a profissão ajudava a definir a rua onde se trabalhava, os irmãos com quem se convivia e o santo diante do qual se rezava.

Igreja de N. Sra. da Lapa dos Mercadores

Bruna Castro

Jornalista, Diretora do Diário do Rio, amante de pets e sempre atuante nas pautas de ordem pública.

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