Rio encerra irmandade de Santo Eloy e revela a história dos joalheiros que tinham uma rua e um santo
Os joalheiros do Rio de Janeiro já tiveram uma rua que levava o nome de seu ofício, um oratório numa esquina do Centro e uma irmandade dedicada ao santo que os protegia. Entre oficinas de ouro e prata, lojas de pedras preciosas e igrejas abastecidas pelo trabalho desses artesãos, a Venerável Irmandade do Glorioso Santo Eloy atravessou gerações. Agora, com o envelhecimento e a posterior dispersão de seus integrantes, essa trajetória associativa chegou ao fim: o arcebispo do Rio, Cardeal Dom Orani João Tempesta, decretou sua dissolução na última semana. Mas a tradição da antológica irmandade não será esquecida.
Publicado na seção de atos de governo do jornal Testemunho de Fé, da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, o anúncio registra a decisão: “Decretando a dissolução da Associação Pública de Fiéis Venerável Irmandade do Glorioso Santo Eloy.” A formulação administrativa encerra uma história que ajuda a compreender como os cariocas trabalhavam, se reconheciam como grupo e organizavam sua vida religiosa muito antes de existirem as associações profissionais que conhecemos hoje.
Para encontrar seus vestígios, é preciso caminhar por um Centro cujos nomes e contornos mudaram. A antiga Rua dos Ourives foi repartida pelas transformações urbanas, e em grande parte apagada pela criação da Avenida Rio Branco, deixando apenas 2 trechos, hoje identificados como Rua Miguel Couto e Rua Rodrigo Silva. O nome desapareceu das placas, mas preservava a memória dos homens que trabalhavam metais preciosos e faziam desse ofício uma presença reconhecível na cidade.
Uma reportagem de A Noite Ilustrada, publicada em 20 de maio de 1936, recuperou esse endereço quando sua antiga denominação já cedia lugar à homenagem ao médico Miguel Couto. O texto lembrava que a concentração dos ourives e prateiros também permitia fiscalizar lojas e oficinas, numa atividade sujeita ao controle sobre a circulação e a qualidade dos metais preciosos. Na esquina com a atual Rua Sete de Setembro, se situava o oratório original de Santo Eloy, padroeiro dos mestres do ouro e das joias. A mesma imagem deste oratório reside hoje na Igreja de Santa Luzia.
A devoção, portanto, fazia parte da paisagem do trabalho. O santo estava associado à rua onde os artesãos exerciam sua profissão e também à comunidade religiosa que eles sustentavam.
O santo dos joalheiros também foi ourives
Santo Eloy, conhecido ainda como Santo Elói ou Santo Elígio, tinha uma ligação direta com aqueles que o escolheram como protetor. Antes de se tornar bispo de Noyon, na atual França, exerceu o ofício de ourives e trabalhou para a corte do rei Clotário II.
Sua tradição religiosa conserva uma história especialmente significativa para quem recebia ouro de terceiros para transformá-lo em objetos: encarregado de produzir um trono, teria confeccionado dois com o metal que lhe fora entregue para apenas um. O episódio, transmitido pela hagiografia, tornou-se uma demonstração de habilidade e honestidade. Sua festa é celebrada em 1º de dezembro, e seu padroado alcança ourives e joalheiros.
Para os profissionais cariocas, reunir-se sob essa invocação significava compartilhar uma devoção ligada à própria experiência cotidiana. Eram trabalhadores que conheciam o valor da matéria-prima, a responsabilidade de uma encomenda e a importância da confiança entre quem entregava o metal e quem o trabalhava.
Quando a profissão também reunia os fiéis
As irmandades eram associações de fiéis leigos, com dirigentes, regras e obrigações próprias. Seus integrantes mantinham celebrações, cuidavam do culto e podiam organizar assistência material e espiritual. Algumas reuniam pessoas de uma mesma profissão, aproximando a vida religiosa das relações construídas nas oficinas.
A historiadora Beatriz Catão Cruz Santos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, explica que as irmandades de ofício combinavam devoção, caridade e participação na regulamentação das atividades profissionais. O domínio de um trabalho e a pertença a uma comunidade católica podiam fazer parte da mesma organização da vida.
As corporações de ofício tratavam de aspectos como aprendizagem, exames e condições para exercer uma atividade. As confrarias cuidavam do culto e de seus compromissos religiosos e assistenciais. Na prática, havia aproximações, sobreposições e disputas entre essas esferas.
O Rio conheceu diversas associações desse tipo. Os trabalhadores da madeira se reuniam sob a proteção de São José; músicos, em torno de Santa Cecília; ferreiros e serralheiros, de São Jorge. Os mercadores tinham a devoção de Nossa Senhora da Lapa. Os ourives encontravam em Santo Eloy o patrono de sua arte.
Essa ligação podia aparecer até na escolha dos representantes profissionais. A reportagem de 1936 reproduziu parte de um regulamento apresentado ao governo pela Corporação dos Ourives e Relojoeiros em 1821: os mestres deveriam reunir-se na igreja onde estivesse estabelecida a irmandade, na tarde de 1º de dezembro, dia do padroeiro, para proceder à eleição.
Uma irmandade documentada desde o século XVIII
A antiguidade da organização carioca aparece em um documento de 15 de dezembro de 1760. Preservado no Arquivo Histórico Ultramarino e identificado no catálogo do Projeto Resgate, da Biblioteca Nacional, o parecer trata do pedido dos mestres ourives do ouro do Rio para confirmar o compromisso que regulamentava a irmandade e o culto de Santo Elói. A documentação demonstra que essa organização já existia naquele momento.
O pedido também revela que a união dos artesãos exigia delimitar competências. Ao analisar esse processo em sua tese na Universidade Federal da Bahia, Edjane Cristina Rodrigues da Silva mostra que o Conselho Ultramarino determinou uma alteração significativa: onde o compromisso mencionava governar o ofício, deveria referir-se a governar apenas a irmandade. A confraria não poderia atribuir aos seus dirigentes poderes que pertenciam às autoridades responsáveis pela profissão.
Ainda assim, a defesa do trabalho e de sua reputação atravessava a atuação da associação. Em Entre a cruz e o capital, a historiadora Mônica de Souza N. Martins descreve um caso de 1781 envolvendo marcação de peças e denúncias de falsificações. O escrivão da Irmandade de Santo Eloy deveria acompanhar o alcaide nas buscas em lojas de peças de prata, quando necessário. Procedência, qualidade e confiança também faziam parte daquele universo de devoção.
Da Igreja do Parto a Santa Luzia
A história religiosa dos ourives passou pela Igreja de Nossa Senhora do Parto, onde a irmandade permaneceu durante longo período. Em artigo publicado na Revista da Semana, em 9 de maio de 1936, o historiador Escragnolle Doria registrou que a associação fora transferida para a Igreja de Santa Luzia por despacho de 1913. Na ocasião em que escreveu, descrevia-a como uma irmandade mantida por ourives.
A imagem do padroeiro encontrou lugar no templo de Santa Luzia. Segundo o levantamento histórico da igreja, apoiado na obra de Augusto Maurício, ela foi levada para lá em 1913 e ocupou o altar à direita de quem entra, anteriormente dedicado ao Senhor do Bonfim. A devoção acompanhava seus irmãos para outro endereço do Centro, preservando a ligação entre o santo e os profissionais do ouro e da prata.
O oratório registrado na antiga Rua dos Ourives é outro testemunho dessa presença religiosa. A gravura de Louis Buvelot e Auguste Moreau, reproduzida na reportagem de A Noite Ilustrada, mostra a pequena estrutura projetada sobre a esquina, integrada à fachada do sobrado e à vida da rua. A foto do oratório aqui publicada é inspirada nesta litografia.
Uma tradição termina, outras começam
O encerramento da Irmandade de Santo Eloy representa o fim de uma tradição mantida por sucessivas gerações. Seus integrantes envelheceram, se dispersaram, e a associação chegou ao término de sua existência. O decreto arquiepiscopal formaliza esse desfecho, enquanto a história dos joalheiros católicos permanece ligada à memória do Centro.
A vida das confrarias cariocas, entretanto, continua a produzir novas associações. Um exemplo recente, acompanhado pelo DIÁRIO DO RIO, é a Confraria dos Devotos Tricolores de Nossa Senhora da Glória e São João Paulo II, que reúne católicos ligados ao Fluminense e promove celebrações e peregrinações.
Em épocas diferentes, vínculos compartilhados aproximam pessoas e encontram expressão na devoção. Para os antigos ourives, esse vínculo nascia entre ferramentas, encomendas, ouro e prata. A irmandade que agora se encerra deixa o testemunho de um Rio em que a profissão ajudava a definir a rua onde se trabalhava, os irmãos com quem se convivia e o santo diante do qual se rezava.
Jornalista, Diretora do Diário do Rio, amante de pets e sempre atuante nas pautas de ordem pública.
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