MidiaNews
01/11/2026 09:30

Victor Ostetti/MidiaNews ARQUITETURA NEOGÓTICA; VEJA A igreja centenária que ajudou a transformar a história de Cuiabá 0

Diariamente, centenas de pessoas passam diante de um prédio de arquitetura imponente no coração do Centro Histórico de Cuiabá. Localizado na movimentada Rua 13 de Junho, o templo de estilo neogótico se tornou parte da paisagem da Capital, mas guarda uma história que muitos cuiabanos desconhecem.

O João Pedro Dias tem um sonho que Deus coloca no coração dele para vir para Mato Grosso

Com mais de um século de existência, a Primeira Igreja Presbiteriana de Cuiabá é considerada a primeira igreja evangélica de Mato Grosso.

Inaugurado em 1922, o templo preserva não apenas a memória da expansão do protestantismo no Estado, mas também a trajetória de um dos pioneiros da modernização da Capital.

O historiador da igreja e presbítero José Antônio de Mesquita explica que a origem da congregação está diretamente ligada ao empresário João Pedro Dias, responsável por iniciativas que marcaram a chegada da telefonia e da energia elétrica a Cuiabá.

Foi ele quem, ainda no final do século XIX, começou a reunir familiares e vizinhos para estudar a Bíblia no quintal da própria casa, no mesmo terreno onde hoje está o templo.

A história da igreja, portanto, se confunde com a de uma Cuiabá que começava a deixar para trás os casarões de taipa, as ruas de terra e a iluminação precária para dar os primeiros passos rumo à modernidade.

A construção, com tijolos aparentes e arquitetura inspirada nos templos presbiterianos neogóticos de Nova York, tornou-se um marco dessa transformação.

Raízes da fé

A história do presbiterianismo tem origem na Reforma Protestante do século XVI e na tradição calvinista, que ganhou força na Europa antes de se expandir para os Estados Unidos.

Seus princípios são fundamentados nos chamados cinco solas: Sola Scriptura (somente a Escritura), Sola Gratia (somente a graça), Sola Fide (somente a fé), Solus Christus (somente Cristo) e Soli Deo Gloria (glória somente a Deus).

Foi dos Estados Unidos que partiu o missionário Ashbel Green Simonton, responsável por introduzir o presbiterianismo no Brasil.

Ele desembarcou na Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro, em 12 de agosto de 1859. Três anos depois, em janeiro de 1862, foi organizada a primeira Igreja Presbiteriana do país.

A partir dali, a denominação começou a se expandir pelo território brasileiro, chegando décadas depois a Mato Grosso, onde encontraria terreno fértil para sua consolidação.

Um sonho que mudou a história

Victor Ostetti/MidiaNews

Interior da Igreja Presbiteriana

Diácono da Igreja Presbiteriana, Carlos Augusto Santos é bisneto do fundador João Pedro Dias

A trajetória da Primeira Igreja Presbiteriana de Cuiabá começou muito antes da construção de seu templo.

O personagem central dessa história é João Pedro Dias, um comerciante e empreendedor cearense que chegou à Capital em fevereiro de 1899, aos 32 anos.

Antes de se mudar para Mato Grosso, ele viveu em Olinda, Pernambuco, onde conheceu a esposa, Maria de Melo, filha de um navegador.

Segundo o historiador José Antônio de Mesquita, a decisão de deixar o Nordeste teria sido motivada por um sonho, interpretado pelo comerciante como um chamado divino.

“O João Pedro Dias tem um sonho que Deus coloca no coração dele para vir para Mato Grosso — como se fosse realmente aquele paralelo que ele fazia com o Apóstolo Paulo, quando estava em Trôade e ouve: 'Passa à Macedônia'. Então, ele veio, desceu para o Rio de Janeiro e chegou a Cuiabá em fevereiro de 1899, com 32 anos”, contou.

Já estabelecido na Capital, João Pedro passou a reunir familiares e vizinhos no quintal de sua residência, na Rua 13 de Junho, para estudar as Escrituras.

Os encontros, realizados de maneira simples, se tornaram o embrião da primeira congregação presbiteriana da cidade.

Bisneto do pioneiro, o diácono Carlos Augusto, também integrante da igreja, relembra as histórias transmitidas entre as gerações da família.

“[...] quando o João Pedro estava aqui, ele morava aqui no fundo, aqui era a casa dele, e aí ele começou a reunir um grupo de pessoas aqui, para estudar a Bíblia, numa roda mesmo, banquinhos de madeiras, e aí ele foi enxergando a oportunidade de ter um templo, e assim ele fez”, contou.

O trabalho desenvolvido pelo comerciante ganhou reconhecimento em outubro de 1913, quando o pastor presbiteriano Franklin Floyd Graham chegou a Cuiabá após uma longa expedição iniciada na Bahia.

Na cidade, que tinha pouco mais de 30 mil habitantes, o missionário encontrou uma comunidade religiosa já organizada por João Pedro Dias.

A chegada do reverendo estadunidense Philip Landes e de sua esposa, Margareth, em 1915, consolidaria os esforços para a formação oficial da igreja.

O pioneiro do telefone

Arquivo Pessoal

Presbítero José Antônio

O Presbítero José Antônio, historiador e membro da Comissão de História da Igreja Presbiteriana de Cuiabá

A contribuição de João Pedro Dias para Cuiabá, no entanto, foi muito além da religião.

Empreendedor e interessado em novas tecnologias, ele também participou de iniciativas que transformaram a infraestrutura da Capital nas primeiras décadas do século XX.

Em 1909, dez anos após chegar à cidade, João Pedro trouxe do Rio de Janeiro 22 aparelhos telefônicos e fundou, em sociedade com o empresário Francisco Lotufo, a Empreza Telephonica de Cuyabá.

A iniciativa representou um avanço para uma cidade que ainda dependia de formas tradicionais de comunicação.

Registros do jornal O Debate, publicados em 1912, mostram os desafios enfrentados para implantar o serviço.

As reportagens da época descrevem a instalação de postes nas ruas de terra e o trabalho para estender as linhas telefônicas até a vila de Santo Antônio do Rio Abaixo, atual município de Santo Antônio de Leverger.

O empreendimento ajudou a estabelecer as bases da telefonia em Cuiabá.

José Antônio de Mesquita destaca que o comerciante investiu recursos próprios e buscou financiamento para viabilizar a iniciativa.

“Ele também foi o empresário que, juntamente com o Sr. Francisco Lotufo, empreendeu a telefonia e fez a companhia telefônica. Esse João Pedro Dias foi quem começou com 22 aparelhos de telefone em 1909. Ele pega emprestado 500 mil réis da Comercial Almeida e planta a antiga Telemat”, relatou.

O homem que trouxe a luz

Se a telefonia aproximou os moradores de Cuiabá, outro empreendimento de João Pedro Dias mudaria definitivamente a rotina da cidade: a chegada da energia elétrica.

Em 1913, o empresário obteve uma concessão para atuar no fornecimento de iluminação pública e particular e fundou a Empresa de Electricidade Força e Luz.

Na época, a Capital ainda enfrentava limitações de infraestrutura, e a eletrificação era vista como um importante símbolo de progresso.

Um registro publicado na edição de 24 de outubro de 1913 do jornal O Debate mostra a participação do empresário no fornecimento de equipamentos elétricos.

No documento, o secretário de Interior, Justiça e Fazenda, Joaquim Pereira Ferreira Mendes, autorizou o pagamento de 45 mil réis a João Pedro Dias pelo fornecimento de materiais de eletricidade ao Liceu Cuiabano.

Reprodução

João Pedro Dias, empresário de telefonia e eletricidade e fundador da Primeira Igreja Presbiteriana de Cuiabá

O cearense João Pedro Dias, pioneiro que revolucionou a comunicação e a iluminação pública em Cuiabá após sua chegada do Nordeste

Dois anos depois, por meio da Lei Ordinária nº 714/1915, o então governador de Mato Grosso, Joaquim Augusto da Costa Marques, concedeu ao empresário o direito de explorar o serviço de eletricidade em Cuiabá pelo prazo de 30 anos.

O projeto inicial previa a instalação de uma hidrelétrica na região do Rio da Casca, em Chapada dos Guimarães.

Entretanto, dificuldades para executar a obra levaram João Pedro a buscar uma alternativa.

Segundo o historiador José Antônio de Mesquita, o empresário viajou ao Rio de Janeiro, onde adquiriu um gerador movido a vapor.

O equipamento foi instalado na região do Porto e permitiu levar eletricidade às primeiras vias da Capital.

“Ele então não consegue gerar energia através da usina hidrelétrica que ele teria que construir lá na Chapada. Mas ele foi ao Rio de Janeiro e comprou um grupo gerador a vapor e instalou ali no porto. E ali, então, ele energizou a primeira rua de Cuiabá”, narrou José Antônio.

A Rua 13 de Junho, onde João Pedro morava e onde seria construída a igreja, esteve entre os primeiros locais beneficiados pela novidade.

Em agosto de 1916, o empresário anunciou, por meio do jornal O Matto-Grosso, o início das obras no Rio da Casca.

O avanço da eletrificação também deixou marcas na geografia da Capital.

Uma das primeiras subestações foi instalada em uma elevação na região central, onde o fornecimento de energia ficou inicialmente concentrado.

O local passaria a ser conhecido como Morro da Luz.

José Antônio conta que, durante a infância, costumava passar pela estrutura ao descer as escadarias a caminho da escola.

A pequena construção funcionava, inclusive, como uma espécie de indicador para os moradores identificarem problemas no abastecimento.

“Lá tinha uma subestaçãozinha, uma casinha com transformador, e a gente passava ali. Quando faltava energia, você olhava para a casinha: se a casinha estivesse acesa, o problema não era no rio, era aqui embaixo. 'Apagou lá, então é a usina que está parada, aconteceu alguma coisa na linha de transmissão'. Por isso se chama Morro da Luz”, contou.

A Usina Hidrelétrica Cândido Rondon, também conhecida como Casca I, seria oficialmente instalada apenas em 1929.

Da casa ao templo

Enquanto participava da modernização de Cuiabá, João Pedro Dias também dedicava tempo e recursos à expansão da comunidade presbiteriana.

Jornal O Matto-Grosso

EMPRESA LUZ E FORÇA

Registro do jornal O Matto-Grosso, de 1916, anunciando o início das obras da usina no Rio da Casca, empreendimento de João Pedro Dias

Foi no terreno de sua própria residência, na Rua 13 de Junho, que começaram as reuniões religiosas que dariam origem à igreja.

A chegada do pastor Franklin Floyd Graham, em outubro de 1913, representou um passo importante para a organização da congregação.

Durante a visita, o missionário conheceu o trabalho desenvolvido por João Pedro e apoiou o envio de uma liderança pastoral permanente para a cidade.

Em agosto de 1915, o reverendo Philip Landes chegou a Cuiabá para dar continuidade à missão.

O pastor havia sido enviado pela Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos e, após retornar ao país de origem e se casar com Margareth Landes, voltou ao Brasil para assumir o trabalho religioso em Mato Grosso.

Com o apoio de João Pedro Dias, que doou o terreno para a construção do templo, a congregação foi oficialmente organizada em 12 de outubro de 1920.

No ano seguinte, em 1921, foi lançada a pedra fundamental da igreja.

A construção levou aproximadamente um ano e três meses e foi concluída em 12 de dezembro de 1922.

Com sua arquitetura neogótica e os tijolos aparentes, o edifício se destacou em uma Cuiabá ainda marcada por construções tradicionais.

Mais do que um espaço de culto, o templo passou a representar a consolidação de uma comunidade religiosa que havia começado de maneira simples, em reuniões familiares.

A dedicação de João Pedro Dias foi reconhecida pelo reverendo Philip Landes, que deixou registrada uma homenagem ao empresário na reedição de seu livro Estudos bíblicos sobre o batismo de crianças, em 1958.

“João Dias contribuiu generosamente, com o seu tempo e dinheiro, para a realização da obra. Planejava, financiava e executava tudo o que era necessário. A ele, a Igreja deve imorredoura gratidão”, escreveu.

Para José Antônio de Mesquita, o legado do empresário está justamente na união entre a fé e o desenvolvimento da Capital.

“A primeira igreja presbiteriana de Mato Grosso, a primeira igreja evangélica de Cuiabá, é essa igreja, que completou 106 anos. Então, essa é a colaboração do João Pedro Dias, além de ser o empresário que trouxe energia para o estado de Mato Grosso, ele trouxe a luz do evangelho. Ele foi um grande colaborador para a evangelização do Mato Grosso”, afirmou.

Um século de memórias

Acervo

Philip Landes

O missionário Philip Landes, líder que trabalhou ao lado de João Pedro Dias na consolidação da igreja em Mato Grosso

O mês de outubro tem um significado especial para a comunidade presbiteriana de Cuiabá.

Foi em 12 de outubro de 1920 que a congregação foi oficialmente organizada, marco que completa 106 anos em 2026.

O período também é marcado pela celebração da Reforma Protestante, iniciada em 31 de outubro de 1517, há 509 anos.

Mais de um século depois, o templo da Rua 13 de Junho permanece como testemunha das transformações da Capital.

Por suas portas passaram diferentes gerações de fiéis, enquanto do lado de fora Cuiabá cresceu, ganhou energia elétrica, telefonia, novos edifícios e ruas cada vez mais movimentadas.

Em meio ao movimento do Centro Histórico, a construção centenária continua preservando a memória de uma época em que a fé de um comerciante e seu espírito empreendedor ajudaram a escrever capítulos importantes da história de Mato Grosso.

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