MUITO Produtora de Caetano e Djavan relata racismo: "Os pretos sofrem todos os dias"
O simples desejo de comer em um restaurante japonês com o neto adolescente transformou um dia comum da produtora cultural Irá Carvalho, uma referência no setor, em um evento de injúria racial que levou a uma ida à delegacia no dia 7 de outubro de 2026. Agredidos verbalmente por um outro cliente, branco, Irá e seu neto experimentaram mais uma vez a resistência racista à presença negra em ambientes de classe média.
Responsável pela vinda do grupo A-ha a Salvador em 1991 e produtora de shows de Caetano Veloso, Djavan e Marisa Monte na cidade, Irá é um dos nomes mais respeitados do show business na Bahia. No primeiro domingo do Mês da Consciência Negra, A TARDE publica entrevista com a produtora que, ainda abalada pela violência que sofreu com o neto, conversa sobre a ocorrência, sobre a resistência enfrentada por negros que ascendem socialmente e a dor de anônimos e de pessoas sem presença na mídia que enfrentam diariamente o racismo.
Tudo sobre Muito em primeira mão!Por favor, relate o episódio que culminou em uma injúria racial contra a senhora e o seu neto em um restaurante.
Eu saí da academia com o meu neto e, como nós gostamos de comida japonesa, fomos a um restaurante especializado na Barra. Quando a gente entrou, esse cidadão [acusado de injúria racial] estava em uma mesa. Havia duas mesas antes da mesa dele, ou seja, ele estava na terceira mesa a partir da entrada. Nós sentamos no sofá da primeira mesa, ficou uma mesa entre nós. E ele olhou para a gente.
Não foi um olhar. Ele ficou impactado. E não tirava os olhos da gente. Eu comentei com meu neto: João, você viu como esse senhor olhou para a gente? João disse: 'Eu vi, vovó'. Ele continuou olhando, mas eu abstraí. A gente relaxou, não entrou na dele. Mas ele não parava de olhar. Aí ele pulou para a mesa que estava entre nós, juntou à outra e fez uma mesa só. Eram aquelas mesas quadradas. Ele passou para o sofá para ficar mais próximo.
Quando ele se aproximou, eu pensei: ai, meu Deus, esse homem vai fazer alguma coisa com a gente. João estava pedindo à garçonete uma explicação sobre um prato. Nesse momento, esse homem se rebelou e gritava: "Como é isso aqui? Que desgraça é essa?", assim mesmo, "essa gente aqui?".
Como vocês reagiram?
Meu neto tem 14 anos e é um menino bem tranquilo. Eu também. Eu sou uma pessoa que não briga. Em qualquer situação assim eu sou passiva. Quando tem aquela situação 'quando um não quer dois não brigam', eu sou essa pessoa. Igual a João. Nós dois somos parecidíssimos. Então, assim, a gente não teve reação. Até hoje minha filha fala que ele teve sorte de pegar os dois mais calmos da família. Porque se fosse minha filha, ela teria chutado mesa, jogado copo na cara dele. Reação. Porque foi muito horrível. Foi muito constrangedor. Nós ficamos acuados. E duas mulheres que estavam na mesa depois da dele viram tudo e chamaram a polícia.
Eu saí correndo nessa hora e fui para a porta. Teve uma hora em que eu falei: "O senhor me respeite! Não fale comigo assim". Repeti três vezes. A minha emoção veio e eu comecei a chorar. Eu fui chorar lá fora. Meu neto foi. As garçonetes foram, o gerente serviu água. Enfim, todo mundo ficou vendo aquele movimento. Então as duas mulheres vieram informar que tinham chamado a polícia e disseram que iriam comigo à delegacia.
"Nós estamos juntos nessa", elas disseram. E foi isso. Nós fomos para a delegacia, fizemos o depoimento. Elas duas também. O meu advogado exigiu a presença de alguém do restaurante e o gerente foi com uma advogada. Eu fui a primeira a depor e uma hora da manhã eu fui para casa, e ainda tinha os outros. Ele [o acusado] ficou detido até a audiência de custódia. Porque, quando o camburão chegou ao restaurante, ele desacatou os policiais.
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Ou seja, a senhora e seu neto nem conseguiram fazer a refeição...
A gente estava no processo, tanto que eu pedi para embalar para a gente levar para casa.
Que avaliação a senhora faz desse episódio? O racismo foi algo comum na sua experiência profissional e pessoal?
Há 42 anos que eu trabalho com cultura. E trabalho com grandes shows. E sustento uma carreira que começou quando eu tive uma oportunidade lá atrás, quando eu conheci o meu ex-marido e a gente fundou uma produtora pioneira no segmento de pop/rock e MPB, principalmente, um segmento que mantenho até hoje. Eu passei pelo boom do axé, o boom do pagode, por todos esses anos. E eu me mantive. E não foi fácil. Eu presenciei vários momentos de racismo, sutilmente.
Quando você chega para pedir uma pauta [data para um show] em uma instituição, quando você solicita uma reunião. Porque você não tem o pedigree, não tem nome. Eu venho de uma família simples, humilde. Graças a Deus, eu consegui. Eu tenho mais quatro irmãos que são produtores, que eu trouxe junto comigo e hoje a gente tem uma vida confortável. Eu nunca levantei bandeira de nada, eu gosto de trabalhar. O que eu quero dizer? Com esse lugar que eu hoje conquistei e depois desse episódio que virou notícia, eu digo que isso é uma coisa que acontece todos os dias, que os pretos sofrem todos os dias.
O que é que a gente está fazendo contra isso? Por conta dessas duas mulheres que chamaram a polícia, e por eu ser uma pessoa pública, virou notícia. Mas e as pessoas que não são conhecidas? O que sofrem! Eu mesma nem ia chamar a polícia, porque na hora eu não ia ter essa atitude. Eu fiquei tão abalada emocionalmente que se não fossem essas duas senhoras que chamaram a polícia não tinha acontecido isso.
Gente, que sociedade é essa? Uma cidade que é predominantemente de pessoas negras e a gente vive isso no século 21? O que a gente está fazendo? Como os coleguinhas dos meus netos, que estudam em escolas boas, tratam eles em suas casas quando eles vão passar um fim de semana? Como esses pais criam os filhos em relação a isso? Eu quero fazer um movimento. Tenho amigos brancos e negros que acham que eu não sofro racismo, que eu entro e saio de qualquer lugar. Eu entro e saio porque minha postura é essa. Eu tenho condições de entrar em um restaurante e pagar a minha conta. Mas aquele cidadão não queria me ver ali. Como em muitos outros lugares.
Há três décadas, a gente vê negros em ascensão. Com a educação, o poder aquisitivo desses negros vai crescendo, podem circular onde quiserem. Mas aí é que está o racismo estrutural, porque enquanto a gente era preto e pobre não incomodava ele. Mas agora que a gente tem condições... é diariamente. Eu agora estou me sentindo traumatizada. Quando eu entro em um lugar, acho que está todo mundo me olhando. Até o garçom. Ele não te trata da mesma forma. Quando você está com uma pessoa branca, o garçom dá o cardápio primeiro ao outro. A conta quando vem, às vezes sou eu quem vai pagar, mas ele dá para o outro. Eu quero dizer à sociedade que a gente tem o direito de estar onde quiser estar. É preciso fazer um movimento para que menos processos como esse aconteçam.
Seus netos relatam casos de racismo que sofrem?
Ah, já tivemos. Várias vezes na escola. João usava um black power. Um dia ele chegou da escola contando que alguém falou que o cabelo dele era assim, diferente. Ele começou a usar trancinha. De uma hora para outra, João não quis mais usar tranças, quando ele começou a entender os comentários. A gente também não insistiu para ele usar e respeitou a opinião dele.
O outro neto, recentemente, jogando futebol na escola, ouviu: você é preto! Meu neto chamou a professora, aí a mãe foi à escola, chamaram os outros pais... O pai de João já sofreu racismo na escola e, na fila dos pais que vão buscar os filhos, foi confundido com um motorista de aplicativo. Não que não seja uma profissão decente, mas ele estava na fila e o funcionário da escola disse a ele que motoristas de aplicativo ficavam em outro lugar. É como olham a gente. Só quem sabe é quem passa. Eu mesma, às vezes, solicito reunião com empresários e não obtenho sequer uma resposta. É preciso ter muita resiliência para estar aqui onde eu estou.
O homem do restaurante continua preso?
Não, ele ficou preso dois dias, teve a audiência de custódia e ele saiu. O processo vai rolar, eu vou seguir minha vida do lado de cá, mas isso que estou falando é tipo levantar uma bandeira. Mostrar a essas pessoas que isso dói muito.
A gente acabou de passar por uma campanha eleitoral em que essas questões apareceram. No Rio de Janeiro, um homem branco caminhou segurando uma coleira no pescoço de um homem negro, assinalado como seu opositor político, e um político paulista declarou que os seus adversários eram minoria e que seriam colocados no seu lugar de minoria. Como a senhora vê esse clima nacional que mistura política e racismo?
Alguns políticos têm falas infelizes, eles querem o poder a qualquer custo. E como para eles nós somos a minoria, embora aqui na Bahia a maioria seja negra, há gente querendo que a minoria não importe. Se estiverem dez pessoas e uma delas for branca, eles olham diferente para esses nove pretos. É uma questão cultural que hoje a gente que tem uma ascensão, o poder da fala, precisa se manifestar. Eu não tenho muito esse poder da oratória.
Mas os artistas e intelectuais negros precisam se manifestar, precisam mostrar para eles que a gente existe. Você tem determinados políticos aqui que você olha para o secretariado e não vê um preto. Isso dói na gente porque há pessoas capazes em todas as raças.
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