EconomiaVoltar para a sala de aula aumenta a renda média do brasileiropor Millena GrigoletiPublicado em 01/11/2026 às 00:14
Voltar à sala de aula depois dos 30 anos pode ser um divisor de águas. Pesquisa conduzida pelo Ministério da Educação (MEC) em parceria com a Unesco mostrou que concluir o Ensino Médio abre oportunidades concretas de trabalho e amplia renda. Concluir um curso superior, seja para ter mais qualidade de vida com salários maiores ou para realizar um sonho, também transforma trajetórias.
Gabriela Vaz de Souza, de 53 anos, conclui em menos de dois meses o curso de Nutrição na Unirp, seu primeiro curso superior. Sonho antigo, o diploma foi adiado por diversas vezes — mesmo que ela chegasse a fazer a matrícula, foi preciso parar por razões como dificuldades para criar os filhos sendo mãe solo, falta de tempo para conciliar os estudos e condições financeiras.
A nutrição, no entanto, apareceu naturalmente na sua vida. “Estive sem trabalho com carteira assinada e tive que me virar, então fazia marmita fitness, salada de pote, escondidinho para vender, e foi me dando vontade de aprender mais. Eu não tinha noção do que envolvia a Nutrição em si, tive vontade de desistir, mas, a partir do segundo ano, me apaixonei”, conta.
Carolina De Marqui Milani, de 36 anos, está cursando medicina na Faceres, em Rio Preto. Formada em engenharia mecatrônica, sua motivação foi trabalhar com o cuidado das pessoas. “Voltar a estudar, sendo mãe de três filhas, exigiu reorganização da rotina e dedicação de toda a família. Mas também foi uma forma de mostrar a elas que podemos construir novos caminhos em qualquer fase da vida”, acredita.
A futura médica defende que a maturidade foi importante para dar mais sentido a essa escolha, diz que consegue reconhecer como experiências anteriores contribuíram para a profissional que está se tornando. “Espero que a formação me proporcione realização pessoal e profissional e alguma estabilidade financeira, mas sei que isso será uma construção, que envolve continuar estudando, me especializando e me dedicando ao cuidado com o próximo”, comenta.
O professor Eneas Arrais Neto, doutor em Educação e docente da Universidade Federal do Ceará (UFC), pontua que não existe uma relação linear entre escolaridade e renda, mas aquelas profissões que estão mais perto do controle social do capital e dos meios de produção, como supervisores, gerentes, psicólogos, professores, tendem a ter portas mais abertas para oportunidades.
“De uma maneira ou de outra, a educação formal ainda é um elemento que abre um acesso, seja formal de controle, seja de reconhecimento social, para o exercício de determinadas atividades. Para quem está buscando uma melhor condição financeira e reconhecimento social, o estudo pode ser facilitador”, diz.
Na avaliação do especialista, não basta apenas se capacitar para exercer uma profissão; é preciso ser qualificado e pensar o trabalho de um ponto de vista social. “A vida do trabalhador não é apenas produtividade. É condição de vida, existência, moradia, relações familiares, tempo, saúde e alimentação”, ressalta.
Sobre a empregabilidade — que o diploma seja realmente utilizado para conseguir um posto de emprego —, Arrais sustenta que é preciso abrir novas oportunidades. “Isso se resolve com a ampliação da economia e com a redução da jornada de trabalho.”
O levantamento
A pesquisa “A Educação que transforma vidas adultas: um estudo sobre o retorno econômico da Educação de Jovens e Adultos no Brasil”, assinada pela economista e diretora da consultoria Metas Sociais, Fabiana de Felício, foi lançada pelo Ministério da Educação (MEC) em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
Os ganhos no holerite não ocorrem somente para quem conclui o ensino superior. A pesquisa demonstrou que a alfabetização de jovens e adultos representa um ganho na renda média de estudantes entre 18 e 60 anos de 16,3%. Para aqueles com 46 a 60 anos, esse impacto é ainda maior, chegando a 23,3%.
A ampliação da renda também acontece para aqueles que concluem os anos finais do ensino fundamental na Educação de Jovens e Adultos (EJA). O salário médio é 4,6% maior do que o das pessoas que pararam antes. No grupo de 26 a 35 anos, o salto é ainda mais expressivo: 14,9% a mais na renda.
A conclusão do ensino médio na EJA eleva a renda mensal em 6%, em média, para o grupo de 18 a 60 anos em comparação com quem parou os estudos no ensino fundamental. O maior impacto é observado na faixa de 26 a 35 anos, com um aumento de 10% na renda.
“Uma das importâncias desse estudo é identificar que jovens e adultos que completam a alfabetização, o ensino fundamental e o médio na EJA têm acesso a ocupações de maior qualidade, proteção social e renda. O aumento de renda para quem volta a estudar é sempre importante, porque mais renda proporciona melhora na qualidade de vida. Mas o aumento da formalidade também é muito relevante, já que traz consigo a proteção social”, explica Fabiana.
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