A paz que nenhuma eleição pode nos tirar
Digamos que a última semana não foi muito fácil para o Brasil. Os acontecimentos são, por assim dizer, macroscópicos, de escala nacional e internacional. O que está em jogo é a liberdade no país, a substância do poder de escolha do povo, os valores que regerão o governo da nação etc. Mas se essas coisas acontecem, agora, num lugar distante, que não afeta imediatamente a nossa vida particular, sabemos que, como uma grande onda que primeiro recua silenciosamente, suas consequências varrerão todo o país, em breve.
Em breve, os grandes eventos macroscópicos de um único dia vão se infiltrando na realidade concreta dos dias, na vida pequena de cada um de nós. Alteram a circunstância do nosso lar, das nossas relações familiares. Haveria razão, então, para que, acompanhando as notícias e o desenrolar dos eventos, nós nos desesperássemos? Existem razões legítimas para perder a paz?
Aqui é oportuno lembrar que a nossa paz tem níveis, assim como o ser humano tem níveis. Existe uma paz psicológica, uma paz das emoções, que se reflete na tranquilidade, na calma, na placidez. É uma paz que se sente – e qualquer um pode senti-la, desde que esteja isento de problemas graves, com suas dificuldades sob controle, ou mesmo insensível para a maioria delas. Há outra paz, porém. Uma que nem sempre se sente, e que pode não ter reflexos psicológicos e emocionais imediatos. Pode-se estar em paz mesmo quando nossa mente não está em paz. É a paz do coração ou da alma, uma paz mais profunda, ou mais elevada.
A situação atual me fez retomar essa tão importante distinção, e desejar compartilhá-la. Não devemos, nunca, perder essa paz, pois ela está ancorada em verdades que transcendem este mundo. Portanto, esse bem transcendente e a paz que advém dele, isto nada neste mundo pode tirar de nós. Isto nenhuma tragédia nem nenhuma ditadura pode roubar, por pior que as coisas fiquem. Reflitamos um pouco a respeito, e isso talvez nos ajude a sintonizar outra vez com a paz perene, que independe da paz passageira.
Há uma diferença entre reconhecer a gravidade de um problema e permitir que ele destrua nossa tranquilidade interior
Bem, uma das maiores dificuldades da vida interior está em aprender a lidar com os próprios pensamentos. Muitas vezes, a perda da paz começa antes mesmo de qualquer acontecimento concreto: nasce de uma interpretação, de uma preocupação antecipada ou de um temor que alimentamos até que ele nos conduza ao desânimo. Por isso, é importante cultivar convicções capazes de nos sustentar nas dificuldades e reconhecer os pensamentos que nos fortalecem, distinguindo-os daqueles que nos perturbam.
Nesse sentido, o clérigo francês Jacques Philippe (autor prolífico e que, com sua simplicidade, fala sempre ao coração) formula uma afirmação quase provocadora. Diz ele que “todas as razões que temos para perder a paz são más razões”. A frase pode parecer exagerada se nos lembramos dos motivos concretos para nos preocuparmos: uma doença, uma dificuldade financeira, um conflito familiar, um projeto que fracassa ou uma injustiça sofrida, ou eventos políticos os mais variados. Mas há uma diferença entre reconhecer a gravidade de um problema e permitir que ele destrua nossa tranquilidade interior.
A paz não pode depender de que tudo esteja em ordem. Se precisarmos que as circunstâncias sejam sempre favoráveis, que nossos planos se realizem e que as pessoas correspondam às nossas expectativas para conseguirmos ficar em paz, viveremos à mercê de acontecimentos que não controlamos. Mesmo quando alcançamos uma situação confortável, essa tranquilidade será frágil. A tradição cristã propõe uma compreensão diferente: a paz mais profunda não nasce da ausência de dificuldades, mas de uma confiança que permanece apesar delas. Seu fundamento está na convicção de que não estamos sozinhos diante das adversidades, e de que o amor de Deus não nos abandona quando a vida deixa de corresponder às nossas expectativas.
Essa paz, contudo, não deve, não pode nunca, ser confundida com indiferença moral. Ela pressupõe uma disposição fundamental: o desejo sincero de orientar a própria vida para o bem. Há uma inquietação que não deve ser eliminada, pois funciona como sinal de que alguma coisa precisa ser revista. Quem age deliberadamente contra aquilo que reconhece como justo pode até experimentar certa tranquilidade, mas não encontrará uma paz profunda. É preciso distinguir essa inquietação daquela que acomete uma pessoa de boa vontade.
Quem procura fazer o bem, mas sofre com suas limitações, precisa aprender a recuperar a confiança. A boa vontade não exige perfeição, mas uma direção firme: reconhecer os próprios erros, pedir perdão, reparar o que for possível e retomar o caminho. Não se trata de estar sempre à altura de um ideal, mas de reconhecer a própria fraqueza sem abandonar o desejo de melhorar. Queremos ser bons, mas também queremos parecer bons; desejamos crescer, mas nos custa admitir que ainda temos muito a aprender. A verdadeira boa vontade exige humildade para reconhecer nossas limitações e confiança para continuar caminhando. Ela não é o ponto de chegada, mas o começo de um caminho. Não precisamos ter vencido todos os nossos defeitos para viver em paz. Precisamos querer sinceramente caminhar na direção certa.
Dito isso, vemos que uma das causas mais frequentes da inquietação, nas nossas vidas, é o medo: de perder alguma coisa, de fracassar, de não realizar um projeto ou de não alcançar aquilo que julgamos necessário para nossa felicidade. Pode tratar-se da saúde, da estabilidade financeira, da vida familiar ou profissional; pode tratar-se do futuro da nação, da prosperidade econômica ou das liberdades civis; ou mesmo do receio de decepcionar alguém e perder seu afeto. O problema começa quando a preocupação deixa de nos ajudar a agir e passa a nos consumir.
Tentamos antecipar todos os acontecimentos, calcular as possibilidades e encontrar garantias para o futuro. Mas nenhuma precaução humana oferece segurança absoluta. Podemos planejar, poupar e tomar decisões prudentes, mas nossa capacidade de previsão é limitada, nossas forças também, e até as pessoas em quem confiamos podem falhar. Há nisso um paradoxo: quanto mais tentamos garantir nossa própria segurança, mais inseguros podemos nos tornar. A solução está não em abandonar as responsabilidades, mas em distinguir aquilo que depende de nós daquilo que não depende, como já ensina o velho escravo-livre Epicteto. Podemos fazer o melhor possível com os recursos disponíveis; depois disso, precisamos reconhecer que nem tudo está sob nosso controle.
Na perspectiva cristã, essa confiança tem um fundamento: Deus conhece nossas necessidades e não é indiferente a elas. “Todos os nossos fios de cabelo estão contados.” A imagem de um Pai que cuida dos filhos convida a deixar de viver como se tudo dependesse exclusivamente de nossa capacidade de prever e resolver os problemas. A mensagem evangélica de não viver angustiado com o que comeremos, beberemos ou vestiremos não constitui um convite à negligência. O que se pretende é libertar-nos da preocupação excessiva, que nos faz sofrer antecipadamente sem contribuir para resolver a situação. A responsabilidade nos leva à ação; a ansiedade nos prende a uma sucessão de possibilidades imaginadas.
A tradição cristã afirma que a paz mais profunda não nasce da ausência de dificuldades, mas de uma confiança que permanece apesar delas
Muitos têm dificuldade de aceitar essa maneira de compreender a vida. Embora desejemos ser cuidados, resistimos a deixar de controlar. Procuramos garantir pessoalmente todos os aspectos da nossa felicidade e, como isso é impossível, acabamos vivendo sob tensão permanente. A confiança exige que aprendamos a caminhar sem conhecer antecipadamente todos os detalhes do futuro. Essa aprendizagem é lenta, porque queremos experimentar a segurança antes de confiar. Mas há experiências que só se tornam possíveis depois que damos o primeiro passo.
Isso não significa que planejar seja ruim. Nossos talentos e recursos também são instrumentos para realizar aquilo que consideramos importante. O problema está em só aceitar empreender alguma coisa quando temos certeza de que conseguiremos realizá-la inteiramente com nossas próprias forças. Os projetos mais importantes frequentemente exigem que ultrapassemos nossas possibilidades imediatas. Se esperarmos ter todas as condições ideais, talvez nunca demos o primeiro passo.
Agora vem aquele que me parece ser o obstáculo mais profundo à confiança: o sofrimento. Como acreditar que podemos nos entregar com serenidade se a vida continua sujeita à dor, à perda e à privação? Como confiar na Providência, quando o mal aparelha todas as circunstâncias, e se prepara para cortar cabeças e expandir seu poder?
O mal continua sendo um mistério e um escândalo. O problema do mal sempre nos confrontará com os limites da inteligência humana. Podemos investigar suas causas e encontrar maneiras de reduzi-lo, mas não temos como explicar satisfatoriamente cada sofrimento, sobretudo aqueles que atingem pessoas inocentes. Há momentos em que nossas explicações não bastam.
Talvez seja justamente aí que a confiança se torna mais necessária. Não precisamos compreender inteiramente o que acontece para continuar acreditando que a vida possui um sentido. A sabedoria humana costuma avaliar os acontecimentos a partir de resultados imediatos; a esperança, porém, permite considerar possibilidades que ainda não conseguimos enxergar. Nosso dever é combatê-lo, socorrer quem sofre e aliviar as consequências da injustiça. Mas permanece a possibilidade de que até aquilo que parece absurdo e sem sentido possa ser incorporado a uma história maior de bem.
A própria história cristã se organiza em torno desse paradoxo: aquilo que parecia o fim tornou-se um começo; aquilo que parecia fracasso revelou uma possibilidade de vida que ninguém poderia antecipar. A cruz, símbolo de sofrimento e derrota, tornou-se sinal de redenção. Por isso, a confiança não consiste em encontrar uma explicação para cada acontecimento doloroso, mas em acreditar que o bem pode surgir mesmo de situações que, aos nossos olhos, parecem irremediavelmente perdidas.
Diante do sofrimento, a força não está em possuir uma resposta para todas as perguntas, mas em conservar a confiança. Podemos procurar fazer o bem, aliviar a dor sempre que possível e continuar acreditando que o amor não é inútil, mesmo quando seus frutos ainda não são visíveis.
É mais fácil concordar com o que estou dizendo do que praticar, na hora do aperto. Mas fato é que tudo isso precisa transformar-se em prática. Essa mudança não acontece de uma vez: exige paciência, perseverança e a capacidade de não desistir de nós mesmos quando percebemos que ainda estamos longe do ideal.
A confiança não consiste em encontrar uma explicação para cada acontecimento doloroso, mas em acreditar que o bem pode surgir mesmo de situações que, aos nossos olhos, parecem irremediavelmente perdidas
Há uma ideia especialmente importante nesse processo, e que tem até mesmo um traço cômico: não devemos perder a paz nem mesmo quando não conseguimos permanecer em paz tanto quanto gostaríamos. A própria dificuldade de mudar não pode se transformar em mais um motivo de inquietação.
Também precisamos aprender a valorizar aquilo que está ao nosso alcance. Muitas vezes, por nos sentirmos incapazes de realizar grandes feitos, desprezamos as pequenas oportunidades de fazer o bem. Queremos realizar gestos heroicos, mas não conseguimos manter a serenidade nas tarefas mais simples. A vida se transforma por meio de pequenas atitudes repetidas com constância. Podemos realizar nossas tarefas sem precipitação, concentrando-nos no que precisa ser feito naquele momento, em vez de antecipar ansiosamente tudo o que virá depois.
As ações realizadas com amor e constância têm um valor muito maior do que costumamos imaginar. Um gesto de paciência, uma tarefa cumprida com dedicação, uma palavra gentil em um momento de irritação: tudo isso contribui para transformar nossa maneira de viver. A santidade está profundamente ligada a essa descoberta: a grandeza não depende necessariamente de feitos extraordinários, mas da maneira como realizamos as coisas mais simples.
A paz não é uma condição que alcançaremos somente quando todos os problemas estiverem resolvidos. É também uma maneira de atravessá-los, uma disposição que começa com a boa vontade, fortalece-se pela confiança e amadurece por meio de pequenos exercícios diários de paciência e perseverança.
Deus não quer salvar a história, não quer salvar os países e as instituições; quer salvar as pessoas
Não precisamos controlar tudo, compreender todos os acontecimentos ou vencer imediatamente nossas fraquezas. Precisamos fazer o bem que está ao nosso alcance, aceitar com humildade aquilo que ainda não conseguimos mudar e não abandonar a confiança diante das dificuldades.
A paz verdadeira não depende de uma vida sem preocupações, mas de uma maneira diferente de lidar com elas. Quando reconhecemos nossos limites, agimos sem ansiedade e confiamos que nem tudo repousa sobre nossos ombros, abrimos espaço para uma serenidade que as circunstâncias externas já não conseguem destruir com tanta facilidade.
As coisas podem não estar fáceis. E, sim, continua um mistério porque o Deus que conta os nossos fios de cabelo permite certas coisas, grandes coisas. A história humana está toda sob uma capa de mistério. Mas Deus não quer salvar a história, não quer salvar os países e as instituições; quer salvar as pessoas, nossas pequenas almas, eviternas e imortais. E os meios de que se serve podem variar – mas tudo concorre, sempre, para o nosso bem. É nisso que deve estar a nossa confiança, nessa verdade que a neblina do século às vezes não nos deixa entrever. Assim não perderemos a paz, a paz de coração, ainda que a guerra batesse à nossa porta.
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