UMA NOVA PANDEMIAVício em bets: Pará lidera afastamentos por apostas na região Norte Em meio ao debate sobre a publicidade das apostas esportivas, especialistas alertam para os riscos da ludopatia, transtorno reconhecido pela Organização Mundial da Saúde.
A expansão das apostas esportivas on-line no Brasil começa a revelar consequências também na área da saúde. Os afastamentos de trabalhadores por transtorno relacionado ao jogo, conhecido como ludopatia, cresceram nos últimos anos e chegaram a 377 registros apenas nos oito primeiros meses de 2026, segundo levantamento divulgado pelo g1 com dados da Previdência Social.
As bets foram liberadas no Brasil em 2018. Naquele ano, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) concedeu apenas oito benefícios por incapacidade relacionados ao jogo patológico. O número permaneceu em patamar semelhante até 2022, mas começou a crescer a partir de 2023, em uma escalada que acompanha a expansão das plataformas de apostas no país.
A demora entre a chegada das bets e o aumento dos afastamentos tem uma explicação. Segundo o psiquiatra Emílio Giroldo Tazinaffo, houve um intervalo até que a sociedade passasse a reconhecer a dependência em jogos como um problema de saúde e compreendesse a importância de buscar ajuda especializada.
No Pará, foram registrados 14 afastamentos por ludopatia entre 2018 e 2026, de acordo com o levantamento do g1. O estado aparece com o maior número de casos contabilizados na região Norte.
Afastamentos por vício em apostas custaram R$ 4,8 milhões
O levantamento considera os benefícios por incapacidade temporária, antigo auxílio-doença, concedidos com o código F63.0 da Classificação Internacional de Doenças (CID), utilizado para identificar o jogo patológico.
Esse benefício é pago quando o trabalhador precisa ficar afastado de suas atividades por mais de 15 dias em razão de um problema de saúde. Para ter acesso ao auxílio, é necessário passar por avaliação médica do INSS, que determina a condição responsável pela incapacidade para o trabalho.
Entre junho de 2023 e agosto de 2026, os afastamentos relacionados à ludopatia representaram pelo menos R$ 4,8 milhões em despesas para a Previdência Social, conforme os dados reunidos pelo g1.
Apesar do crescimento, os números não mostram toda a dimensão do problema. A Previdência Social e o INSS alertam que existe subnotificação, já que parte dos trabalhadores diagnosticados com dependência em jogos acaba recebendo benefícios por outros problemas de saúde associados à condição, sem que o afastamento seja registrado especificamente pelo código F63.0.
São Paulo lidera número de afastamentos
O levantamento mostra que São Paulo concentra a maior quantidade de benefícios concedidos por ludopatia no país, com 297 registros. Na sequência aparecem Minas Gerais, com 110; Rio Grande do Sul, com 76; Rio de Janeiro, com 68; e Paraná, com 58.
Os dados reforçam o avanço dos problemas relacionados à dependência em apostas e mostram como o fenômeno já provoca impactos que vão além das perdas financeiras, alcançando a saúde dos trabalhadores e os gastos da Previdência.
Segundo especialistas, mais de 10 milhões de brasileiros apostam de forma considerada nociva. O avanço das plataformas digitais ampliou o acesso aos jogos de azar e aumentou a preocupação com a ludopatia, transtorno que provoca impactos na saúde mental, nas finanças e nos relacionamentos.
O assunto é tema do episódio 255 do DrauzioCast, em que Drauzio Varella conversa com Carlos Lopes, subsecretário de Políticas sobre Drogas do Espírito Santo e coordenador do Programa Rede Abraço. Durante a entrevista, eles explicam como identificar os sinais da dependência e quais tratamentos podem ajudar na recuperação.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a ludopatia como um transtorno caracterizado pela perda do controle sobre o comportamento de jogar. A pessoa passa a priorizar as apostas em relação a outras atividades importantes da vida e continua apostando mesmo diante de prejuízos financeiros, emocionais, familiares ou profissionais.
De acordo com a OMS, o comportamento precisa provocar prejuízo significativo em áreas como trabalho, estudos, vida social ou convivência familiar para que o transtorno seja diagnosticado. Em geral, esse padrão permanece por pelo menos 12 meses, embora possa ser identificado antes em situações mais graves.
A organização também ressalta que nem toda pessoa que aposta desenvolve dependência. O transtorno atinge apenas uma parcela dos jogadores. Ainda assim, recomenda atenção quando o tempo dedicado às apostas começa a substituir outras atividades, gerar dificuldades financeiras ou provocar mudanças na saúde física, emocional e no convívio social.
Drauzio Varella destaca que reconhecer os sinais precocemente aumenta as chances de tratamento. O acompanhamento especializado e o apoio da família são apontados como fatores importantes para reduzir os danos causados pela compulsão.
Ver nota original ↗
¿Querés un resumen rápido de esta noticia, hecho por nuestra IA?
