Análise: Nayib Bukele é fator imprevisível na violência de gangues do Haiti
Há mais de uma semana, El Salvador vem enviando soldados ao Haiti de forma discreta, e a dimensão desse projeto só foi revelada publicamente alguns dias depois: mais de 2.000 militares salvadorenhos serão enviados à nação caribenha, embora sua missão e mandato permaneçam incertos.
O envio introduz um elemento imprevisível em Porto Príncipe, uma cidade de colinas densamente povoadas onde as linhas de combate mudam constantemente entre dezenas de gangues e grupos que as combatem — incluindo forças estrangeiras, grupos de vigilância comunitária e mercenários.
A chegada de 2.000 soldados é um fato significativo. Esse contingente supera o tamanho de todo o Exército do Haiti e equivale, aproximadamente, a um quarto do efetivo urbano da Polícia Nacional Haitiana.
É um número semelhante ao contingente atual da GSF (Força Multinacional de Supressão de Gangues), apoiada pela ONU, e supera, de longe, o número de prestadores de serviços militares privados que integram a sigilosa “força-tarefa” do governo haitiano.
Mas como eles se encaixam no fragmentado cenário de segurança do Haiti? Quem paga por tudo isso? E qual é, exatamente, a missão deles? Por enquanto, a estrutura de comando das forças salvadorenhas ainda não foi definida, segundo uma fonte próxima ao assunto.
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Os comunicados divulgados simultaneamente na noite de quarta-feira (28) por El Salvador e pelo Haiti trouxeram poucos esclarecimentos sobre a situação.
Ambos os países mencionavam uma conversa por telefone entre o presidente Nayib Bukele e o líder interino haitiano, Alix Didier Fils-Aimé, sobre o panorama geral da segurança e o caso de quatro técnicos aeronáuticos salvadorenhos que estão desaparecidos.
Os técnicos aeronáuticos — cujo caso motivou esse envio de tropas — desapareceram no início deste mês, após uma suposta emboscada realizada por gangues. Segundo autoridades salvadorenhas, eles trabalhavam com a GSF em funções não relacionadas ao combate.
Logo em seguida, 100 integrantes das forças especiais de El Salvador foram enviados ao Haiti para auxiliar nas operações de busca e resgate — o que serviu como prelúdio para a força ampliada que se encontra no local atualmente.
Dez dias depois, fontes locais indicam que é pouco provável que os quatro desaparecidos sejam encontrados.
Caso as forças salvadorenhas não alcancem esse objetivo, é possível que busquem outras metas — talvez unindo-se a alguma das forças de segurança já existentes para lançar uma ofensiva prolongada contra as gangues, como forma de retaliação.
Uma pista sobre seus planos pode estar em sua localização física. No momento da elaboração desta reportagem, os salvadorenhos não estavam alojados na base principal da GSF.
Bukele tem afirmado que possui credenciais únicas para lidar com a crise no Haiti.
A política de “mão dura” de seu governo contra as gangues em seu próprio país conseguiu restaurar a paz no que já foi a nação mais violenta do Hemisfério Ocidental — embora seus críticos apontem para prisões em massa e acusações de abusos generalizados.
Em uma mensagem publicada no X na semana passada, ele se dirigiu às gangues em crioulo haitiano, uma língua utilizada no país caribenho: “Ainda há tempo de evitar isso. Devolvam-nos nossos quatro compatriotas vivos e ilesos, e tudo voltará a ser como era antes do sequestro”.
A maioria dos moradores de Porto Príncipe gostaria de ver uma mudança radical, após anos de violência brutal por parte de gangues, que forçaram mais de um milhão de pessoas a abandonar suas casas.
A cidade vive aterrorizada por sequestros frequentes, estupros e incêndios provocados por gangues — atos que, muitas vezes, são divulgados nas redes sociais.
Nesta quinta-feira (29), haitianos de todo o país constataram, mais uma vez, como a insegurança paralisou a vida civil, ao saberem que as eleições presidenciais — há muito adiadas — foram postergadas mais uma vez, ficando para o próximo ano.
No entanto, especialistas alertam para os perigos de incluir novos atores em um cenário de conflito urbano já saturado.
“A situação é volátil e pode se tornar ainda mais violenta, causando danos a pessoas inocentes”, observou Bill O’Neill, especialista da ONU em direitos humanos para o Haiti.
Romain Le Coeur, especialista em Haiti da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional, compartilhou dessa preocupação.
“A resposta de segurança no Haiti já não se baseia em uma estratégia única, mas sim em uma justaposição de atores multilaterais, nacionais e privados, cada um operando sob suas próprias regras”, afirmou.
“Enquanto não se souber quem toma as decisões e a quem se deve prestar contas, toda operação corre o risco de aumentar a confusão, em vez de contribuir para a segurança”, comentou.
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