Museus, patrimônio e sociedade: a hora da autocrítica
Não deveríamos precisar de outro incêndio, desabamento, furto ou desaparecimento para juntar os cacos e perguntar onde erramos. A autocrítica não pode ser apenas a cerimônia tardia que sucede à tragédia, quando autoridades, especialistas e instituições descobrem que os alertas existiam, os relatórios estavam escritos e o patrimônio vinha sendo perdido diante de todos. Quem trabalha com museus, acervos e bens culturais tem a obrigação de fazer essa reflexão enquanto ainda há tempo de mudar o rumo. Preservar é também reconhecer, antes da perda, que uma política deixou de alcançar as pessoas para as quais deveria existir.
O resultado das eleições de 2026 oferece à cultura uma oportunidade necessária. Não porque o voto possa ser explicado por uma política museológica, nem porque museus devam tornar-se instrumentos de propaganda eleitoral. Seria intelectualmente desonesto estabelecer essa causalidade. O mapa, entretanto, revela fraturas territoriais que nenhuma área do governo deveria desprezar. Lula foi reeleito e venceu nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, mas, no conjunto dos 13 municípios da Baixada Fluminense, Flávio Bolsonaro venceu em todos e recebeu 56,77% dos votos válidos, contra 43,23% do presidente — uma diferença de quase 300 mil votos. O candidato do PL obteve ainda 51,09% em Guarulhos, mais de 50% em Santo André e Suzano, 52,88% em Contagem e 50,9% em Betim. No Distrito Federal, Lula venceu somente nas duas zonas eleitorais correspondentes às asas Sul e Norte; o adversário prevaleceu nas demais, inclusive em Taguatinga e Samambaia. No Rio, embora o presidente tenha virado o resultado da capital, seu adversário venceu nas quatro zonas eleitorais de Campo Grande e em boa parte da Zona Oeste.
Logicamente, as urnas não demonstram que a política cultural produziu esses resultados. Mas demonstram algo que deveria bastar para provocar reflexão: um governo que reivindica a preferência das classes populares continua encontrando resistência considerável justamente em extensos territórios metropolitanos habitados por trabalhadores. Se isso não suscitar uma autocrítica sobre a presença concreta do Estado — não apenas na cultura, evidentemente, mas também nela —, será difícil imaginar o que poderia suscitá-la.
Nasci e fui criado em Mesquita. Conheço o ramal de Japeri não como metáfora sociológica, mas como percurso. Conheço a Baixada Fluminense, a Zona Oeste do Rio e outras periferias brasileiras o suficiente para saber que os espaços azuis no mapa eleitoral não são abstrações cartográficas. São lugares nos quais milhões de pessoas constroem suas vidas, guardam documentos, fotografias, coleções, edifícios, práticas religiosas, festas, memórias do trabalho e histórias familiares. São também lugares em que a presença continuada do poder público costuma ser rarefeita, descontínua ou burocraticamente inacessível.
No vazio deixado pelo Estado, chegam as experiências pentecostais, os projetos sociais associados a lideranças locais, os políticos que mantêm um clientelismo permanente e toda sorte de redes comunitárias, assistenciais e religiosas. Não cabe tratar essa presença com desdém: muitas vezes são essas organizações que efetivamente acolhem, alimentam, aconselham e oferecem algum sentido de pertencimento. O problema não é que elas estejam presentes. O problema é que a política cultural pública, os grandes museus, os órgãos de patrimônio e os patrocinadores privados quase nunca consigam construir presença igualmente cotidiana, respeitosa e duradoura.
Erguemos, assim, verdadeiras barricadas simbólicas entre a cultura institucional e as periferias. De um lado, instituições elaboram discursos sofisticados sobre diversidade. Do outro, parcelas imensas da população não reconhecem aqueles equipamentos como lugares em que possam entrar, permanecer, falar e interferir. A inacessibilidade não é apenas física ou financeira. É também psicológica. Existem museus formalmente abertos cujas linguagens, rituais e modos de receber comunicam ao visitante popular que aquele espaço não foi pensado para ele.
A sétima edição da pesquisa Hábitos Culturais, realizada pelo Observatório Fundação Itaú em parceria com o Datafolha, ajuda a dar números a esse afastamento. Entre 7 e 20 de julho de 2026, foram entrevistadas presencialmente 2.448 pessoas de 16 a 65 anos, em pontos de fluxo de 137 municípios. A amostra, ponderada para representar a população brasileira, revelou que 97% dos entrevistados das classes A e B haviam participado de alguma atividade cultural presencial nos doze meses anteriores. Nas classes D e E, o índice ficou em 82%. O acesso cresceu, mas a distância social permaneceu: quinze pontos percentuais separam os brasileiros que vivem sob a mesma política cultural.
A resposta da própria população indica a mudança de rumo necessária. Quando perguntados sobre o que deveria ser prioridade cultural dos candidatos a presidente e governador, 42% dos entrevistados escolheram a criação ou ampliação de atividades gratuitas; 32%, a criação de equipamentos públicos; 28%, a reforma dos equipamentos existentes; e 26%, o incentivo à produção cultural independente. A sociedade não está pedindo mais slogans, recortes abstratos ou solenidades para convertidos. Está pedindo gratuidade, proximidade, espaços públicos e produção cultural ao seu alcance.
É nesse ponto que precisamos discutir com franqueza o identitarismo que passou a orientar parte considerável dos editais, discursos e escolhas institucionais. O reconhecimento das desigualdades raciais, de gênero e de tantas outras exclusões históricas foi e continua sendo indispensável. Não se corrige o apagamento fingindo que as diferenças não existem. O erro começa quando uma gramática identitária, muitas vezes importada dos Estados Unidos sem tradução suficiente para a formação social brasileira, substitui o conhecimento do território, das condições materiais e das demandas populares.
Um edital pode contemplar todas as categorias corretas e ainda não chegar a Nova Iguaçu, São João do Meriti, Guarulhos, Contagem, Betim ou Padre Miguel. Pode selecionar um projeto exemplar, fotografá-lo, transformá-lo em estudo de caso e apresentá-lo como prova de diversidade, enquanto milhares de pessoas que compartilham aquela mesma condição social permanecem sem acesso. Premia-se uma pequena parcela, geralmente aquela que já conseguiu dominar a linguagem dos formulários, reunir documentação, conformar uma equipe e circular pelos ambientes institucionais. Depois, toma-se essa escolha pontual como representação de todo um grupo.
Isso não é distribuição de oportunidades. É administração simbólica da desigualdade. As minorias aparecem nos relatórios, nas mesas e nas campanhas, mas as maiorias populares continuam fora das decisões, dos recursos e dos equipamentos. Pessoas reais são convertidas em alegorias de problemas sociais: surgem na fotografia que comprova a inclusão e desaparecem quando chega o momento de dividir orçamento, poder e permanência institucional.
A identidade não pode funcionar como senha de ingresso nem como gaiola administrativa. Precisa ser considerada juntamente com território, renda, risco patrimonial, ausência de infraestrutura, possibilidade de acesso público e capacidade institucional. Caso contrário, apenas atualizaremos o velho elitismo cultural brasileiro com um vocabulário socialmente mais aceitável.
Isso se manifesta de maneira particularmente grave nos museus. Reserva técnica é indispensável; conservação preventiva não é luxo; pesquisa sobre os objetos é parte essencial da missão museológica. Mas conservar não pode significar confinar. Como já vimos apontando nesta coluna, milhares de bens permanecem guardados, estudados e tratados sem que a sociedade que financia sua preservação consiga estabelecer qualquer relação com eles. Quando o objeto não puder circular fisicamente, poderá circular por meio de reproduções, exposições digitais, materiais educativos e ações territoriais. Quando puder sair em segurança, deverá chegar a escolas, bibliotecas, centros culturais e equipamentos comunitários.
Por que a Baixada Fluminense não pode receber uma unidade avançada ou uma exposição de longa duração do Museu Histórico Nacional? Por que Guarulhos não pode abrigar uma presença continuada do Museu Nacional de Belas Artes? Por que Contagem e Betim, marcadas pela industrialização, pela mineração e por seus impactos sociais e ambientais, não podem receber núcleos de museus federais dedicados à história do trabalho, da técnica, da paisagem e das comunidades que construíram aquela riqueza?
Não se trata de responsabilizar individualmente o Museu Histórico Nacional ou o Museu Nacional de Belas Artes por não manterem essas unidades. Ambos enfrentam limitações de orçamento, pessoal e infraestrutura e precisam, antes de tudo, de condições para cuidar das próprias sedes e coleções. Os dois museus são exemplos, não réus. A cobrança deve ser dirigida à política cultural federal, que poderia instituir um programa de territorialização de seus acervos, com recursos adicionais, equipes locais, exposições de longa duração e gestão compartilhada com municípios, universidades e instituições comunitárias. Descentralizar não pode significar retirar das sedes para improvisar nas periferias, mas ampliar a presença do Estado onde ela historicamente não chegou.
A própria Baixada Fluminense já demonstra que essa expansão encontraria público, interesse e pertencimento. Inaugurado em 30 de abril de 2026, no Parque Histórico e Arqueológico de Iguassú Velha, em Tinguá, o Museu de Arqueologia e Etnologia de Nova Iguaçu reúne parte de um acervo de mais de 200 mil fragmentos encontrados na região, mantém laboratório de pesquisa e oferece visitação gratuita de sexta-feira a domingo. Nos primeiros meses de funcionamento, sua coordenação registrou visitantes que retornavam, levavam familiares e reconheciam o museu como espaço de pertencimento. Não se trata apenas de levar cultura da capital para a periferia: o MAE-NI transformou o próprio território periférico, sua história e seus vestígios em matéria de conhecimento, pesquisa e dignidade pública.
A experiência desmonta um preconceito antigo, frequentemente disfarçado de diagnóstico cultural: o de que as camadas populares recusariam assuntos complexos ou teriam interesse apenas por produtos simplificados. O pobre não tem mau gosto; tem o acesso renegado. Arqueologia, etnologia, história, belas-artes e arte sacra não são sofisticadas demais para a periferia. Apenas raramente chegam até ela com qualidade, gratuidade, continuidade e respeito. Quando chegam, as pessoas entram, voltam, levam os filhos e reconhecem naquele patrimônio uma parte de sua própria história. O problema nunca foi a inexistência de público, mas a distribuição profundamente desigual da oferta.
Uma mudança de rumo exige também rever a escolha dos gestores. Conhecer o território não é atributo folclórico nem detalhe biográfico: é qualificação técnica. Nomeações para instituições culturais deveriam ser acompanhadas de maior transparência, apresentação pública de currículos e planos de trabalho, metas de acesso e compromisso demonstrável com as comunidades atendidas. Uma direção museológica ou patrimonial não pode ser escolhida apenas porque domina o repertório interno do setor. Precisa compreender as ruas, os trens, as distâncias, os horários e as barreiras que determinam quem consegue chegar.
Os editais públicos, as leis de incentivo e os programas privados também precisam inverter parte de sua lógica. Não basta reservar categorias identitárias se continuam sendo favorecidos os proponentes capazes de apresentar os projetos mais sofisticados. É necessário introduzir critérios territoriais, assistência técnica para quem ainda não possui equipe, seleção simplificada, financiamento plurianual e acompanhamento desde a formulação até a execução. A fragilidade que justifica o apoio não pode continuar sendo o obstáculo que impede alguém de obtê-lo.
Outra providência urgente seria a criação de um grande Observatório Nacional de Patrimônios e Coleções em Risco, articulado por universidades, órgãos públicos, detentores e sociedade civil, com participação responsável da imprensa. O país precisa de um mapa aberto, atualizado e verificável que registre acervos, edifícios, coleções, responsáveis, condições de conservação, riscos, possibilidades de acesso e providências necessárias. A imprensa poderia ajudar a iluminar os abandonos; as universidades, a produzir diagnósticos e metodologias; os órgãos de preservação, a estabelecer prioridades técnicas.
Tenho a convicção, fundada no conhecimento de regiões como a Baixada Fluminense, a periferia de São Paulo e os subúrbios industriais da Grande Belo Horizonte, de que esse mapa lançaria uma luz particularmente forte justamente sobre os territórios que apareceram azuis nas eleições. Mas não precisamos transformar a convicção em dogma: criemos o observatório e permitamos que os dados confirmem, corrijam ou contrariem essa percepção. Política pública séria não teme evidências.
Chegamos, então, a uma questão institucional que o campo cultural evita há tempo demais. Em 2009, a criação do Instituto Brasileiro de Museus retirou do Iphan a estrutura museológica federal e transferiu acervos, obrigações, recursos e unidades para a nova autarquia. Hoje, o Ibram possui sede em Brasília e administra diretamente 31 unidades museológicas distribuídas por apenas nove estados. O Iphan, por sua vez, mantém 27 superintendências estaduais, 37 escritórios técnicos e seis unidades especiais. A instituição que conserva maior capilaridade territorial perdeu parte da expertise museológica; a instituição especializada em museus nasceu sem uma rede equivalente para alcançar o conjunto do país.
Nenhuma quantidade de diárias resolverá estruturalmente esse desencontro. Não há orçamento nem quadro técnico capazes de fazer algumas centenas de servidores partirem de Brasília ou das unidades concentradas em poucos estados para atender, de maneira permanente, às coleções espalhadas pela Amazônia, pelo interior do Nordeste, pelas periferias metropolitanas e pelos municípios mais abandonados. Enquanto isso, servidores do Iphan já presentes nesses territórios lidam, na prática, com acervos, coleções e demandas museológicas sem que o órgão conserve plenamente o léxico, os procedimentos e a estrutura necessários.
O resultado assume, em alguns casos, formas teratológicas. Uso provocativamente a expressão “coleções clandestinas” não para sugerir contrabando, mas para designar conjuntos reunidos em dependências públicas sem catalogação satisfatória, definição clara de propriedade, cadeia de custódia, responsável institucional ou perspectiva de comunicação social. Algumas dessas situações envolvem objetos de grande valor, coleções tombadas ou bens formalmente pertencentes ao próprio poder público.
É hora, portanto, de tirar as crianças da sala e discutir seriamente a refundição de Iphan e Ibram. Isso não pode significar extinguir a autonomia técnica dos museus, abandonar o Estatuto de Museus, diluir sua política setorial ou enfraquecer pautas fundamentais do patrimônio. Ao contrário: um novo desenho poderia assegurar instância museológica autônoma, orçamento protegido, direção técnica própria e marcos legais preservados dentro de uma instituição nacional novamente integrada e territorialmente capilar.
Essa refundição permitiria compartilhar escritórios, equipes, sistemas, protocolos de emergência, conhecimento sobre coleções arqueológicas, fiscalização, conservação e formação profissional. Poderia fortalecer os escritórios técnicos do Iphan e, simultaneamente, levar competência museológica aos lugares onde hoje ela não chega. Não se trata de retornar nostalgicamente ao organograma anterior a 2009. Trata-se de aprender com quinze anos de separação e construir algo institucionalmente melhor.
A simples fusão de organogramas, sem orçamento, servidores, clareza de competências e uma verdadeira política de carreira, produziria apenas mais confusão. A proposta exige desenho cuidadoso, participação dos profissionais das duas instituições, garantia da autonomia museológica e um plano de transição que não interrompa políticas em andamento. Não se trata de devolver os museus a uma condição subalterna dentro do Iphan, mas de reconstruir uma inteligência institucional comum, capaz de articular patrimônio, coleções, arqueologia, conservação, pesquisa, documentação e acesso público. Essa reorganização também permitiria concluir o que o chamado plano de carreira da Cultura deixou pela metade. A reforma aprovada em 2026 criou o cargo de Analista em Atividades Culturais e reduziu a dispersão de dezenas de denominações funcionais, mas manteve a estrutura de um Plano Especial de Cargos e remeteu a definição das áreas e especialidades a uma regulamentação posterior. Foi um avanço, não um ponto de chegada. Ao colocar em perspectiva as competências hoje distribuídas entre Iphan e Ibram, seria possível construir com maior clareza uma verdadeira carreira da Cultura, distinguindo atribuições, preservando especialidades profissionais e reconhecendo a complexidade técnica do trabalho realizado. E esse plano precisa valorizar não apenas o cargo ocupado, mas também a titulação, a capacitação continuada, a experiência técnica e o conhecimento acumulado pelos servidores.
Quanto mais a cultura se divide, mais se enfraquece. Divide-se quando patrimônio e museologia são tratados como campos adversários. Divide-se quando o museu separa conservação e comunicação. Divide-se quando o edital opõe identidades em vez de enfrentar desigualdades materiais. Divide-se quando os gestores conhecem o vocabulário das políticas públicas, mas desconhecem os territórios em que elas deveriam produzir efeitos.
Desde os primeiros tempos do Brasil, o acesso à cultura formal foi apresentado como privilégio de poucos. Os filhos das famílias abastadas atravessavam o Atlântico para estudar em Coimbra. Coimbra agora está mais perto: pode estar numa sede ministerial, num grande museu, numa comissão de seleção, numa plataforma digital ou numa linguagem institucional dominada por especialistas. Continua, entretanto, distante de Belford Roxo, de Guarulhos, de Contagem, de Betim, de Duque de Caxias e de Santo André.
A política cultural não precisa conquistar votos. Precisa construir sociedade. Mas uma sociedade que não se reconhece em seus museus dificilmente os defenderá quando forem ameaçados; uma população que só encontra o Estado no formulário, na proibição ou na cerimônia não acreditará que o patrimônio também lhe pertence. Museu sem território corre o risco de virar clube. Patrimônio sem sociedade transforma-se em depósito. Diversidade sem distribuição torna-se slogan.
A autocrítica precisa começar agora, antes do próximo incêndio e antes que seja necessário juntar novos cacos. Atravessar a Avenida Brasil não é apenas deslocar exposições ou inaugurar equipamentos. É atravessar uma fronteira mental da gestão cultural brasileira: deixar de escolher pequenas amostras da população para representar o país e, finalmente, construir instituições capazes de chegar ao país inteiro.
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Museólogo e historiador da arte. Autor de "A Escultura Religiosa do Rio de Janeiro Colonial" e "A Escultura Religiosa na Antiga Capitania Real da Bahia de Todos os Santos", publicadas pelo IPHAN
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