MundoTrump corre contra o tempo para segurar o Congresso nas eleições de meio de mandato
Os norte-americanos vão às urnas nesta terça-feira (3) para escolher a nova composição do Congresso, em uma disputa que pode redefinir a segunda metade do mandato de Donald Trump. Estão em jogo todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 vagas do Senado. Pesquisas e projeções indicam que o Partido Democrata tem boas chances de retomar o controle das duas Casas.
Por que a eleição importa para Trump
Desde 2024, os republicanos controlam a Câmara e o Senado, o que permitiu ao presidente avançar em parte de sua agenda. A margem, no entanto, é estreita, e alguns parlamentares do próprio partido chegaram a votar contra o governo em temas importantes.
Para Carlos Gustavo Poggio, professor de relações internacionais e especialista em política dos EUA, Trump tem motivos para se preocupar. Segundo ele, o presidente vem governando à margem do Legislativo, por meio de ordens executivas — foi assim, por exemplo, que impôs tarifas comerciais a diversos países, entre eles o Brasil. Um Congresso de maioria democrata poderia frear essas medidas e travar projetos do governo.
O maior temor, porém, seria outro. “Com uma mudança no Congresso, a principal preocupação do Trump é com todas as investigações que serão feitas sobre malfeitos durante a administração dele. E os democratas já deixaram isso claro”, afirma Poggio. “O atual Congresso tem sido muito omisso e deixado muito Trump fazer aquilo que ele quer.”
O professor, por outro lado, descarta um impeachment no curto prazo. Para afastar o presidente, seria necessário o apoio de dois terços do Senado, o que dependeria de votos republicanos. Na avaliação dele, isso só aconteceria diante de uma crise profunda, com forte queda de popularidade. “Esse é um cenário bastante distante”, avalia.
Comícios, bônus e mapas redesenhados
Na reta final, Trump tem viajado pelo país quase todos os dias para participar de atos de campanha. Recentemente, prometeu pagar um bônus de até US$ 5 mil a cada adulto americano caso os republicanos saiam vitoriosos.
A estratégia, no entanto, começou bem antes. O presidente incentivou o redesenho de distritos eleitorais em estados governados por aliados, a começar pelo Texas, que tem a segunda maior bancada da Câmara. O novo mapa, aprovado em agosto de 2025, já está em vigor e tende a reduzir o número de distritos com vantagem democrata.
A ofensiva provocou reação. Três meses depois, a Califórnia redesenhou o próprio mapa para favorecer os democratas, que podem ganhar cinco cadeiras hoje ocupadas por republicanos. Do outro lado, Alabama, Flórida, Louisiana, Carolina do Norte, Ohio e Tennessee também alteraram seus distritos em benefício do partido de Trump. Em Utah, uma decisão judicial levou à criação de um distrito com tendência democrata em Salt Lake City.
A disputa pelo voto pelo correio
Outra frente de batalha foi o voto por correspondência, modalidade mais usada por eleitores democratas. Sob o argumento de combater fraudes, Trump assinou em março um decreto que endurece as regras e prevê uma lista federal de cidadãos autorizados a votar pelo correio, elaborada pelo Serviço de Cidadania e Imigração e pela Administração da Seguridade Social.
Estados e entidades de defesa do direito ao voto foram à Justiça, alegando que a Constituição dá aos estados e ao Congresso — e não ao presidente — o poder de definir regras eleitorais. Em setembro, a Suprema Corte manteve o bloqueio a uma norma do Serviço Postal que colocaria parte do decreto em prática antes da votação. A regra exigiria listas de eleitores aptos e códigos de barras específicos nos envelopes.
Hoje, os 50 estados permitem algum tipo de voto pelo correio, e 37 deles, além de Washington, D.C., aceitam o pedido da cédula sem necessidade de justificativa.
Economia pesa contra o governo
Apesar do esforço, o clima na Casa Branca é de alerta. A poucos dias da eleição, cerca de 60% dos americanos desaprovam o presidente, segundo pesquisas. A insatisfação está ligada sobretudo à condução da economia e ao alto custo de vida. A guerra contra o Irã agravou o quadro ao elevar o preço dos combustíveis e pressionar a inflação.
O que dizem as projeções
No Senado, onde os republicanos têm hoje 53 cadeiras contra 47 dos democratas (incluindo dois independentes alinhados ao partido), as previsões apontam para uma possível virada:
Center for Politics (Universidade da Virgínia), 29/10: democratas 49, republicanos 46, 5 indefinidas
Race to the WH, 30/10: democratas 53, republicanos 47; chance de vitória democrata de 78,4%
270toWin: empate em 48 a 48, com 4 indefinidas
Na Câmara, os democratas aparecem como favoritos. Atualmente, os republicanos somam 218 deputados e os democratas, 214, além de um independente e duas vagas abertas. Pesquisa Reuters/Ipsos de 19 de outubro mostrou 47% das intenções de voto para candidatos democratas, contra 35% para republicanos.
Center for Politics, 27/10: democratas 225, republicanos 193, 17 indefinidas
Race to the WH, 30/10: democratas 236, republicanos 199; chance de vitória democrata de 95,2%
270toWin: democratas 220, republicanos 196, 19 indefinidas
Como funcionam as midterms
Diferentemente do Brasil, o Congresso americano é renovado em partes a cada dois anos. Deputados cumprem mandatos de dois anos, e senadores, de seis. Quando a renovação coincide com a metade do mandato presidencial, a votação recebe o nome de midterms.
No Senado, cada estado tem duas cadeiras, independentemente da população. Já na Câmara, as vagas são distribuídas conforme o número de habitantes, e cada deputado representa um distrito eleitoral — que pode abranger cidades inteiras ou apenas alguns bairros, como o 11º distrito de Nova York. Antes da eleição geral, os partidos realizam primárias, o que costuma concentrar a disputa em um nome republicano e outro democrata.
Os eleitos tomam posse em janeiro de 2027. Trump não está na cédula, e seu mandato vai até janeiro de 2029. A próxima eleição presidencial será em 2028.
Resultado pode demorar
Como não há um órgão nacional equivalente ao TSE, cada estado conta os próprios votos, com horários de fechamento das urnas diferentes. Na Flórida, a votação termina às 19h locais (21h em Brasília); em Nova York, às 21h (23h em Brasília). No Tennessee, o horário varia por condado.
Os primeiros números devem sair ainda na noite de terça, mas a definição sobre quem controlará cada Casa pode levar dias. Em 2022, o comando da Câmara só foi conhecido mais de uma semana após a eleição, em parte pela demora na apuração dos votos enviados pelo correio.
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