Fuga de Flávio teve ex-agente israelense e carros diplomáticos
BRASÍLIA – O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) contou com apoio de agentes de Israel e dos Estados Unidos para deixar o Brasil, entrar na Argentina e desembarcar nos Estados Unidos, após a derrota para de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) há uma semana.
Reportagem exibida pelo programa do “Fantástico”, da “TV Globo”, na noite deste domingo (1º/11) revelou os detalhes da operação logística envolvida na fuga do senador, que é alvo de investigação por suposta lavagem de dinheiro no Brasil.
Com base em informações e documentos do sistema de imigração da Argentina que integram uma apuração feita em cooperação internacional, o “Fantástico” apurou que a operação envolveu três passagens pela Argentina em 40 minutos e a participação de um ex-oficial do serviço de inteligência israelense, o Mossad.
O ponto de partida do voo para o exterior foi a cidade de Puerto Iguazú, na Argentina, vizinha a Foz do Iguaçu (PR), cujo aeroporto internacional tem uma pista de 3.300 metros apta a receber jatos executivos de grande porte.
Os dados apontam que a rota foi dividida em duas frentes. Numa das versões apuradas, Flávio Bolsonaro deixou Brasília às 5h05 da terça-feira (27/10), em um jato Cessna Citation Excel ligado ao advogado Willer Tomaz, amigo do senador.
O avião pousou às 8h40 em San Fernando, na região de Buenos Aires, capital da Argentina, de onde o parlamentar teria seguido em outro voo privado para Puerto Iguazú. Com isso, cairia por terra a aversão que ele entrou na Argentina em um carro.
Esposa e filhas do senador seguiram por terra até a Argentina
Mas a família dele, sim, seguiu de Brasília até Puerto Iguazú por terra, segundo a apuração do “Fantástico”. A esposa de Flávio, Fernanda, e as duas filhas do casal, de 12 e 14 anos, partiram de Brasília em um segundo avião com destino a Cascavel, no oeste do Paraná, segundo a reportagem.
Às 20h02 daquela mesma noite, as três embarcaram no hangar do aeroporto de Cascavel em uma van identificada como pertencente à empresa Iguaçu Dallas Travel Turismo Ltda., de Foz do Iguaçu.
Ao checar o endereço da empresa cadastrado na Receita Federal, a reportagem encontrou apenas um estacionamento, e trabalhadores locais relataram que a agência nunca funcionou no local. A responsável pelo estacionamento declarou ser irmã de uma das representantes da Dallas.
Três registros de entrada de Flávio na Argentina na mesma noite
A Dallas Turismo publicou nota em suas redes sociais negando ter transportado o candidato. Mas documentos obtidos pelo “Fantástico” mostram que duas vans da empresa cruzaram a fronteira de Foz do Iguaçu em direção à Argentina naquela noite.
Na van saída de Cascavel constavam os dados da mulher e das filhas do senador. Em relação a Flávio Bolsonaro, o sistema registrou três entradas na mesma van: às 22h37 (com passaporte italiano), às 22h40 (com carteira de motorista) e às 23h11 (com passaporte brasileiro).
Os dois registros com documentos brasileiros foram posteriormente cancelados, ficando válido apenas o ingresso com passaporte italiano.
Ex-oficial do serviço de inteligência de Israel é suspeito de agir no caso
A outra van havia cruzado o controle cerca de sete minutos antes. Nela viajavam o motorista Neri Luiz Dala Corte, o advogado Roberto Jorge Alexandre — que atuou na defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro — e o israelense Menachem Booky Halevy, apontado como ex-oficial do serviço de inteligência de Israel, o Mossad.
Menachem, que tem registros em eventos ao lado de autoridades como o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, havia entrado no Brasil em 19 de outubro pelo Aeroporto Internacional de Guarulhos e já contava com outras três passagens pelo país no ano.
Procurado em sua casa, o motorista Neri Luiz Dala Corte afirmou ter sido contratado para buscar dois homens em um posto de gasolina em Foz do Iguaçu e levá-los ao aeroporto de Puerto Iguazú, negando ter visto integrantes da família Bolsonaro.
“Eu levei duas pessoas que eu nem sei quem é. Simplesmente deixei os caras no aeroporto. Eles desceram, fiz a volta, e quando tava saindo tinha uns repórteres assim na minha frente”, declarou ao repórter do “Fantástico”.
Flávio ficou dentro de jato aguardando chegada de mulher e filhas
O jornalista argentino Nicolás Munafó, do canal de notícias “C5N” e que estava no aeroporto de Puerto Iguazú no momento da partida dos Bolsonaro, confirmou ter abordado o motorista. Nicolás presenciou a comitiva e relatou a presença de escolta policial e veículos oficiais.
“Na frente da comitiva vinha uma caminhonete da Polícia de Segurança Aeroportuária, que é responsável pelos aeroportos da Argentina. Depois, vimos sair duas caminhonetes brasileiras, com placas do Brasil e motoristas brasileiros. E, em seguida, mais duas caminhonetes argentinas, uma delas com placa diplomática”, contou.
Apesar do registro de entrada terrestre, a principal linha de investigação aponta que Flávio desembarcou em Puerto Iguazú de avião, vindo de Buenos Aires, e aguardou por horas dentro da aeronave na pista a chegada da família.
Justiça argentina mandou preservar imagens do aeroporto
A operação provocou questionamentos na Argentina. A Justiça do país ordenou a preservação de imagens das câmeras de segurança da fronteira e do aeroporto de Puerto Iguazú. A deputada argentina Marcela Pagano afirmou ter cobrado explicações das autoridades.
“Há irregularidade na passagem pelo controle de imigração argentino, a escolta de policiais e, depois, o transporte em carros diplomáticos do Ministério das Relações Exteriores da Argentina. São esses os elementos que eu apresento pra que a Justiça cobre explicações das autoridades argentinas sobre como puderam autorizar essa operação”, disse.
O Secretário de Comunicação da Presidência da Argentina, Fabian Fernandez, afirmou que o governo não tem nada a declarar. A viagem para os Estados Unidos foi feita em um jato de luxo Gulfstream G400, operado pela empresa argentina Baires Fly.
O dono da companhia, Luis Grande, revelou à agência “France Press” que o voo custou US$ 150 mil (cerca de R$ 800 mil), pagos por um intermediário do setor de aviação baseado nos EUA, por meio de transferência de uma conta empresarial norte-americana para um banco argentino. Grande afirmou não saber quem era o contratante final.
A imprensa norte-americana apontou que Jason Miller, assessor de Donald Trump, teria providenciado a viagem. O jornal argentino “Clarín” publicou que agentes norte-americanos assumiram o controle de parte do aeroporto de Puerto Iguazú para garantir o sucesso da operação de partida de Flávio e família.
Governo dos EUA nega participação em plano de fuga
O jato que levava Flávio Bolsonaro e sua família fez uma escala de reabastecimento em Guayaquil, no Equador, antes de seguir para Miami. O desembarque ocorreu na manhã de quarta-feira, 28 de outubro, no Aeroporto Executivo de Opa-Locka.
Sobre a chegada de Flávio nos EUA, o presidente Donald Trump afirmou que “não tomou partido” nas eleições brasileiras. Já o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, aliado da família Bolsonaro, negou auxílio na saída do senador do Brasil.
Rubi disse que o parlamentar brasileiro já tinha visto e que a presidência norte-americana autorizou a sua entrada no país.
Horas após chegar nos EUA, Flávio Bolsonaro divulgou uma carta contestando o resultado das eleições presidenciais, sem apresentar provas de fraude. Na primeira versão, ele se qualificava como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”; depois, passou a se definir como “líder do Brasil”.
O advogado Frederick Wassef, representante legal de Flávio, declarou ao “Fantástico” que nenhuma informação sobre a viagem é oficial ou foi confirmada, e negou que tenha se tratado de uma fuga. A Baires Fly não enviou resposta.
Já a assessoria do advogado Willer Tomaz afirmou em nota que é “falsa a informação de que aeronave pertencente a ele, ou a empresas vinculadas à sua família, tenha sido utilizada pelo senador Flávio Bolsonaro ou por seus familiares para deixar o Brasil”.
Flávio reclama de TV não aceitar condição para entrevista
Cerca de uma hora antes do início do “Fantástico” Flávio publicou um texto nas redes sociais para criticar a “TV Globo”, impor condições para uma entrevista e, mais uma vez, reclamar de suposta perseguição política, sem reconhecer a vitória de Lula.
No texto intitulado “Nota ao Brasil”, o candidato derrotado disse ter sido “procurado por vários veículos nesta semana, inclusive pela Rede Globo, que me convidou para uma entrevista exclusiva”. Ele afirmou ter aceito mediante uma condição: que fosse exibida na íntegra.
“A emissora preferiu não seguir adiante. Pelo que tudo indica, o Fantástico deste domingo vai exibir uma longa reportagem a meu respeito, sem me dar o direito de resposta”, prosseguiu Flávio. Ele ainda afirmou que o “maior grupo de comunicação do Brasil está com medo”.
Diante de tal cenário, segundo o senador, a “Globo” “não tem a menor condição moral” de julgá-lo ou “tentar destruir” a reputação dele. No entanto, Flávio não disse porque a emissora estaria o julgando, destruindo sua reputação.
“Não saí do Brasil, saí pelo Brasil! Sonhei com a mudança do nosso país para melhor e, no domingo, apenas sete minutos após o anúncio do resultado das eleições, já havia uma decisão judicial com medidas cautelares contra mim, com base em mentiras”, continuou.
Na segunda-feira (26/10), a Polícia Federal (PF) notificou Flávio a entregar seus passaportes (comum, diplomático e italiano). A PF fez o pedido de ordem judicial ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes no âmbito do inquérito em que Flávio é investigado com o advogado Willer Tomaz por suposta lavagem de dinheiro.
Amigo de Flávio, Willer é suspeito de lavar mais de US$ 1 bilhão por meio de esquema envolvendo bets, além de ser investigado no esquema de desvios bilionários do INSS. Flávio e família viajaram em jato de Willer mais de uma vez. O senador também fez viagens de turismo com o advogado.
Moraes concordou com a alegação de risco de fuga de Flávio, já que Willer deixou o Brasil em agosto, também em direção a Miami, e nunca mais voltou. A PF destacou que Willer tem recursos financeiros para permanecer indefinidamente no exterior. O patrimônio do advogado inclui jatinhos em sociedade com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
No celular de Willer, a PF encontrou e-mails que mostram que Flávio foi cadastrado como “usuário master” de uma conta bancária da Alcazar, uma das empresas do advogado. Usuário master é o administrador principal de uma conta, com poderes irrestritos para movimentação de dinheiro.
Flávio é investigado em inquéritos relacionados a este e outros casos criminais, como o que envolve o dinheiro para o filme “Dark Horse”, sobre seu pai, Jair Bolsonaro. Há a suspeita que dinheiro de Vorcaro que seria para a produção na verdade foi para manter Eduardo Bolsonaro nos EUA.
Os delegados da PF que assinaram o pedido de apreensão dos passaportes de Flávio também lembraram que, em entrevista concedida nos EUA há duas semanas, Eduardo defendeu que o irmão deixasse o país caso não fosse eleito.
Ainda na segunda, Flávio deu declarações públicas afirmando que entregaria os documentos e jamais deixaria o Brasil, pois ficaria para liderar a oposição a Lula. Mas o prazo acabou na manhã de terça (28/10), sem que ele entregasse os passaportes nem aparecesse publicamente.
Ao mesmo tempo, a imprensa argentina noticiava que um jato o esperava em Puerto Iguazú, com destino a Miami. Tudo acabou se confirmando quando ele apareceu com a esposa e as duas filhas descendo de um jato particular em Miami, na quarta-feira.
Logo depois, Flávio divulgou uma carta se auto proclamando “legítimo presidente eleito do Brasil”, mesmo tendo perdido o segundo com uma diferença superior a 4 milhões de votos. Até o PL, seu partido, reconheceu o resultado das urnas.
No post deste domingo, Flávio lembrou que foi notificado pela PF para entregar os passaportes após visitar o pai, que cumpre pena por tentativa de golpe de Estado e outros crimes em prisão domiciliar, numa casa em um condomínio do Lago Sul, a mais nobre área de Brasília.
“Tudo diante do olhar lacrimejado de um pai, com comorbidades, que está condenado a mais de 27 anos de prisão – sem ter cometido crime algum – e que já sofre pela distância de outro filho [Eduardo Bolsonaro] que não vê há mais de um ano e meio, em função da perseguição ilegal e arbitrária que também sofre”, escreveu Flávio.
“Isso não é democracia e está muito longe de ser um processo judicial justo e imparcial. Ao menos estou num país onde posso manifestar livremente minha opinião, não serei alvo de um juiz que acordou com vontade de fazer o mal e enviou a sua polícia à minha casa para revirar as calcinhas das minhas filhas na gaveta”, emendou.
Como dizia o pai, ele afirmou que foi candidato à Presidência “enfrentando todo um sistema”. “Não me arrependo de absolutamente nada do que fiz”, ressaltou. Por fim, anunciou que dará entrevistas a “grandes veículos nacionais e internacionais” nos próximos dias, sob condições de não haver “cortes” nem “filtro”.
Mais uma vez, Flávio não explicou como deixou o Brasil, entrou na Argentina e voou para os EUA com a família. Muito menos disse quem financiou a viagem e como se manterá no país estrangeiro.
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