Poder360 — Geral
02/11/2026 05:30

Excesso de treino afeta a regulação química do cérebro, mostra estudo

O excesso de exercícios físicos não afeta apenas os músculos: ele também pode alterar a química do cérebro. Um novo estudo publicado na revista Neuroscience revelou que treinamentos exaustivos e sem o descanso adequado modificam a regulação de dopamina no hipocampo, uma região cerebral intimamente ligada à memória e à regulação das emoções.

Ao observar camundongos submetidos a uma rotina de exercícios intensos, pesquisadores brasileiros notaram que a dopamina –neurotransmissor essencial para nos manter alertas e motivados– permaneceu alta justamente na hora em que os animais deveriam estar repousando. Eis a íntegra do estudo, em inglês (PDF – 8 MB).

Se esse mesmo mecanismo se confirmar em humanos, a descoberta pode ajudar a explicar por que atletas que treinam além da conta frequentemente sofrem com ansiedade, insônia e fadiga crônica, destacando a importância biológica do descanso para o rendimento físico e a saúde mental.

“Nossos achados mostram que o excesso de exercício físico não afeta apenas o músculo esquelético, mas tem um impacto pronunciado no cérebro”, afirma Alisson Luiz da Rocha, 1º autor do estudo, realizado como parte de seu doutorado na EEFERP-USP (Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo) com bolsa da Fapesp.

Segundo ele, os dados reforçam a visão de que a atividade física atua de forma direta e profunda no sistema nervoso central, indo muito além da mera construção de massa muscular.

SIMULAÇÃO DE OVERTRAINING

Para entender essa dinâmica, os cientistas dividiram camundongos em 2 grupos principais. O 1º passou por um teste de esforço agudo, correndo em uma esteira até a exaustão.

Já o 2º grupo simulou a rotina severa de atletas de alto rendimento que sofrem da síndrome de overtraining, caracterizada por perda de performance e de apetite, fadiga crônica, dor muscular, aumento de lesões, alterações no sistema imune e no metabolismo (leia mais). Nesse 2º grupo, os roedores treinaram por 8 semanas com cargas progressivamente mais pesadas, chegando a duas sessões diárias separadas por apenas 4 horas de recuperação na última semana.

Em seguida, os pesquisadores analisaram o hipocampo dos animais, medindo os níveis de dopamina, serotonina e de proteínas envolvidas na produção desses neurotransmissores, como a tirosina hidroxilase (TyrH) e o transportador vesicular de monoaminas 2 (VMAT2).

Os resultados mostraram que, no exercício agudo, a dopamina subiu logo depois do fim da corrida. No entanto, o achado mais crítico se deu no grupo do treinamento crônico: os níveis de dopamina e da enzima TyrH, responsável por sua síntese, estavam elevados 48 horas após o teste de desempenho, durante a fase de repouso dos camundongos.

Segundo o coordenador do estudo, o professor da EEFERP-USP Adelino Sanchez Ramos da Silva, caso alterações semelhantes sejam verificadas em humanos, elas poderão contribuir para compreender possíveis relações entre o treinamento excessivo, a regulação cerebral e os distúrbios do sono. Vale ressaltar, contudo, que o estudo não mediu sono, estado de alerta ou ansiedade. A relação entre o achado nos camundongos e esses sintomas em humanos poderá ser explorada em pesquisas futuras.

O PAPEL DA DOPAMINA

Os autores enfatizam que a dopamina não é uma vilã biológica, já que é fundamental para a sensação de prazer e para nos manter despertos nas horas certas. O problema real, como aponta Rocha, é o desequilíbrio causado quando ela aumenta na hora de dormir, além da proporção desigual que se cria em relação a outros neurotransmissores.

Curiosamente, a pesquisa não encontrou diferenças significativas nos níveis de serotonina dos animais, contrariando uma hipótese antiga de que essa substância isolada seria a grande causadora da fadiga excessiva.

Embora a relação direta com o sono e a ansiedade em humanos ainda precise ser medida em testes futuros, a mensagem principal é clara. Para evitar a perda de performance, dores crônicas e falhas no sistema imune, respeitar o tempo de recuperação do corpo é inegociável. Tanto para atletas profissionais quanto para os amadores, os benefícios do exercício podem ser perdidos se a prática não for acompanhada de descanso adequado e orientação especializada.

Parte da investigação foi realizada durante o pós-doutorado de Rocha na Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas, em Limeira, com estágio na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, onde atualmente é pesquisador. O grupo também recebeu financiamento por meio de um Projeto Temático coordenado por Silva, além de bolsas de pós-doutorado para Ana Paula Pinto e de doutorado direto para João Pedro Floriano, ambos na EEFERP-USP.

O grupo agora trabalha em um novo projeto, em colaboração internacional, para investigar quais sistemas biológicos manifestam os primeiros sinais de desvio das adaptações benéficas esperadas do exercício físico.


Este texto foi publicado originalmente pela Agência Fapesp, em 26 de outubro de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.

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