CONJUNTURA POLÍTICA O golpismo de Flávio em 72 horas
O golpismo de Flávio Bolsonaro apareceu 72 horas depois do segundo turno, quando a promessa de organizar de cabeça erguida a oposição cedeu lugar à saída do país, na terça, apesar da ordem judicial que o proibia de viajar. Na quarta, nos Estados Unidos, divulgou uma carta se apresentando como o “verdadeiro presidente eleito”, alegando ser vítima de uma fraude e anunciou que comandaria a direita do exterior.
A hierarquia da carta ajuda a entender o movimento, já que Flávio agradece a Javier Milei, Donald Trump e ao povo americano no início, enquanto os 59,8 milhões de brasileiros que votaram nele aparecem lá pelo décimo terceiro parágrafo. Este roteiro remete a 2022, quando Jair Bolsonaro evitou reconhecer claramente a derrota, construiu a narrativa da perseguição e viajou para os Estados Unidos. O filho condensou em três dias o que o pai levou dois meses para fazer, com a diferença de que Flávio saiu depois de receber 59,8 milhões de votos, 48,21% dos válidos, votação suficiente para liderar a oposição ao quarto mandato do presidente Lula.
Tudo sobre Conjuntura Política em primeira mão!A reação de aliados mostrou que a fuga e a carta não produziram unidade: o PL reconheceu o resultado, já o senador Rogério Marinho (PL-RN) admitiu não haver provas de fraude e Tarcísio de Freitas defendeu o respeito ao resultado claro das urnas. A direita que votou em Flávio reúne bolsonaristas, conservadores institucionais, governadores e eleitores unidos pelo antipetismo, mas que não calculam embarcar em um discurso de ruptura com a democracia.
Minha leitura é que a carta cumpriu quatro funções: primeiro, Flávio buscou ganhar fôlego jurídico e elevar o custo das medidas contra si, convertendo investigações e o descumprimento de ordem judicial em narrativa de perseguição. Em segundo lugar, trata os 59,8 milhões de votos como seu patrimônio para capturar forçosamente a liderança da direita e impedir que Tarcísio ou outro nome organize a oposição dentro do jogo institucional no Congresso e que passa pelas eleições municipais de 2028.
As duas funções restantes operam no campo simbólico e no calendário político: fabricar a imagem do herói que retornará ao país e ganhar tempo para liderar o cenário eleitoral de 2030. As comparações com Rui Barbosa, Charles de Gaulle e Juan Guaidó procuram transformar a sua fuga em um capital político, enquanto a permanência no exterior embaralha a sucessão da direita.
No final das contas, as quatro jogadas colocam a sobrevivência pessoal acima da responsabilidade com quem votou nele, de modo que a tentativa de preservar a liderança enfraquece a própria autoridade. Se reagiu assim à derrota, como teria reagido aos limites controlados pelo Congresso, pelo Judiciário e próprios da democracia caso tivesse chegado à Presidência da República?
*Cláudio André é cientista político, professor do Mestrado Profissional em Governança e Políticas Públicas (UNILAB) e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRB. E-mail: [email protected].
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