‘Verme do coração’ não está só no litoral: caso de cão em MG expõe mapa ainda desconhecido da doença
No início, era apenas um inchaço no rosto. Aos poucos, porém, Cachorrinha foi perdendo peso, o apetite e a disposição. A cadela, sem raça definida, tinha seis anos e pesava 15 kg quando foi levada para atendimento veterinário em Monte Carmelo, no Triângulo Mineiro, em agosto de 2025. O tutor também relatou episódios de tosse e dificuldade para respirar.
Cachorrinha era vacinada contra viroses e raiva e só saía na rua para passeios acompanhados, porém, não havia registro de vermifugação ou de medidas preventivas contra ectoparasitas. O inchaço foi o primeiro sinal que despertou a atenção da então estudante de Medicina Veterinária do Centro Universitário Mário Palmério (Unifucamp), em Monte Carmelo, Yara Mendes Araujo, uma das profissionais que acompanharam o caso.
O sintoma, porém, não apontava diretamente para a causa da doença e, foi na análise do material retirado da região que surgiu a pista que mudou o rumo da investigação: uma estrutura compatível com um parasita responsável pela dirofilariose canina, conhecida como verme do coração. A partir daí, a suspeita ganhou força.
A dirofilariose é causada pelo parasita Dirofilaria immitis, transmitido pela picada de mosquitos. Depois de infectar o animal, as larvas se desenvolvem e podem chegar aos vasos sanguíneos dos pulmões e ao coração. Em casos graves, a doença pode provocar alterações respiratórias e cardiovasculares e levar à morte. No caso da Cachorrinha, quando a doença foi identificada, porém, o animal já estava debilitado e, mesmo recebendo alguns medicamentos e cuidados de suporte, após aproximadamente sete dias de internação, apresentou piora progressiva e morreu.
“Um diagnóstico mais precoce poderia ter aumentado as possibilidades de tratamento, embora não fosse possível garantir que o desfecho seria diferente”, afirma José Marques de Aquino Neto, veterinário especialista em cirurgias abdominais e pélvicas, professor da Unifucamp e orientador de Yara.
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Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico precoce é importante porque os danos provocados pela dirofilariose são cumulativos, segundo o professor e diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia Veterinária (SBCV) Alexandre Bendas. “Quanto mais tempo os vermes permanecem nas artérias pulmonares, maior tende a ser a inflamação dos vasos, a hipertensão pulmonar e a sobrecarga do coração.
Algumas dessas alterações podem continuar mesmo depois da eliminação dos parasitas. Quando a infecção é identificada precocemente, é possível instituir medidas terapêuticas e de controle antes que ocorram lesões irreversíveis. Isso reduz complicações, melhora a qualidade de vida do animal e aumenta significativamente as chances de um desfecho favorável”, explica.
Bendas explica como a doença evolui: “Quando um mosquito infectado pica o cão, ele deposita larvas microscópicas que entram no organismo do cão e realizam ‘mudas’, até atingirem os vasos sanguíneos dos pulmões. Ali, elas amadurecem e se transformam em vermes adultos”, sinaliza.
Os primeiros danos começam justamente quando esses vermes alcançam as artérias pulmonares. “A presença dos parasitas provoca inflamação, lesões na parede dos vasos e aumento da resistência ao fluxo sanguíneo. Com o passar do tempo, o coração, especialmente o lado direito, precisa trabalhar mais para bombear o sangue através desses vasos alterados. Embora o ciclo completo até a fase adulta leve cerca de seis a sete meses, alterações microscópicas nas artérias pulmonares podem surgir antes mesmo de os vermes atingirem a maturidade. Portanto, a doença é progressiva e muitas vezes silenciosa nos estágios iniciais”.
“Frequentemente, quando o diagnóstico é realizado em exames de rotina, já existem alterações vasculares e pulmonares importantes em desenvolvimento. Por esse motivo, a testagem periódica é recomendada mesmo para cães aparentemente saudáveis que vivem ou frequentam áreas de risco”, afirma Bendas.
O tratamento, conforme o diretor da SBCV, depende da gravidade da infecção e não se limita à eliminação dos vermes. É necessário também controlar as consequências provocadas pela doença, como hipertensão pulmonar, insuficiência cardíaca direita, inflamação pulmonar e tromboembolismo. Os protocolos podem incluir medicamentos para suporte cardiovascular, controle da inflamação, restrição de exercícios e acompanhamento clínico rigoroso. No Brasil, existe um desafio adicional: o medicamento adulticida considerado padrão-ouro internacional, a melarsomina, não está disponível.
Por isso, segundo Bendas, especialistas recorrem a protocolos alternativos, que podem combinar prevenção contínua e tratamentos destinados a reduzir gradualmente a carga parasitária. Em situações graves, como a chamada síndrome da veia cava, pode ser necessária a remoção cirúrgica dos vermes.
Além disso, a infecção não gera imunidade protetora. “Portanto, um cão tratado continua suscetível a novas infecções sempre que for picado por mosquitos portadores das larvas. Por isso, mesmo após o tratamento, a prevenção deve ser mantida continuamente”, afirma Bendas.
Exames acendem alerta no interior do RN
Embora a dirofilariose canina ainda não seja de notificação compulsória no Brasil, os atendimentos realizados pela equipe de Medicina Veterinária da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), em Mossoró (RN), também confirmam a presença do parasita entre os animais atendidos pela instituição.
Entre abril e junho de 2026, foram registrados 18 casos positivos em 185 exames de ecocardiografia. Já na Clínica Médica, 15 cães tiveram resultado positivo para microfilárias entre cerca de 200 atendimentos realizados por médicos-veterinários residentes.
Os dados são restritos aos animais atendidos pela instituição e não permitem estimar a prevalência da doença na população canina da região. Para o médico-veterinário João Marcelo, porém, os diagnósticos confirmam a circulação do parasita e reforçam a necessidade de atenção.
Segundo o especialista, os exames de sangue são importantes para identificar a doença, mas devem ser associados a exames de imagem, que permitem visualizar vermes adultos no coração e nas artérias pulmonares, além de avaliar possíveis complicações, como a hipertensão pulmonar. “O exame de imagem é fundamental. Ele permite visualizar o verme adulto no coração e nas artérias pulmonares, além de mostrar se o animal já apresenta hipertensão pulmonar. Mesmo quando o teste rápido é positivo, ele deve estar associado ao exame de imagem”, explica.
João Marcelo ressalta que a dirofilariose não se restringe às cidades litorâneas. A transmissão depende da presença do vetor, responsável por levar o parasita aos animais. A identificação de cães infectados em municípios do interior do Rio Grande do Norte e da Paraíba reforça a importância da atenção também fora da faixa costeira. “Não, isso não é uma doença do litoral. Os primeiros diagnósticos foram feitos a partir do litoral, mas tem que ter relação com o vetor. Se tiver o vetor, vai ter a doença”, explica João Marcelo.
Números
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), do IBGE, mostram que os cães estão presentes em 46,1% dos domicílios brasileiros, enquanto os gatos são encontrados em 19,3% das residências.
Embora seja mais comum em cães, a dirofilariose, conhecida como doença do verme do coração, também pode afetar gatos. Neles, a infecção é menos frequente e os felinos são considerados hospedeiros acidentais do parasita.
Caso no interior expande alerta de transmissão
O caso de Cachorrinha ganhou relevância por ter sido registrado em Monte Carmelo, uma cidade do interior de Minas Gerais, longe do litoral, região historicamente mais associada à ocorrência da dirofilariose. O episódio foi transformado no trabalho de conclusão de curso “Dirofilariose em cão: relato de caso clínico em Monte Carmelo - Minas Gerais”.
Para Aquino Neto, um único caso não é suficiente para dizer que Monte Carmelo seja uma área de transmissão da doença. “Para saber se foi um caso isolado ou se existe transmissão na região, seria necessário investigar outros cães da cidade e também avaliar a presença dos mosquitos que podem transmitir a doença”, afirma.
A dirofilariose já foi identificada nas cinco regiões brasileiras, mas sua distribuição ainda está longe de ser conhecida em detalhes. A pesquisa “Distribuição, diversidade e controle da dirofilariose no Brasil: uma revisão abrangente”, publicada em 2024, reuniu estudos realizados entre 2014 e 2024 e encontrou índices bastante distintos.
Em Lábrea, no Amazonas, 44,4% dos 99 cães avaliados estavam infectados. Em Niterói, no Rio de Janeiro, foram 58,6% de 157 animais. Em Manaus, um estudo com 766 cães encontrou 3,7%.
Em Guaraqueçaba, no Paraná, a taxa chegou a 31,8%. No Nordeste, foram encontrados índices de 49,5% em Itamaracá (PE), 36,7% em Recife e 33,6% em Sousa (PB). O Centro-Oeste aparece como a região menos estudada, com o Pantanal, onde a taxa foi de 7,1%.
Os números não permitem estabelecer uma taxa nacional. “De fato, é uma doença emergente, existem lugares onde a prevalência é muito alta e outros onde não temos nenhum dado”, afirma Marianna Laura Elis Chocobar, uma das autoras da revisão, orientada por Elizabeth Moreira dos Santos Schmidt. Ambas são do Programa de Pós-graduação em Medicina Veterinária da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
O mito da doença litorânea e mudanças climáticas
A concentração de estudos em áreas litorâneas contribuiu para a percepção de que a dirofilariose estaria restrita a cidades próximas ao mar. Os registros, entretanto, mostram que o parasita também ocorre em áreas distantes da costa, incluindo estados como Acre e Minas Gerais. “A condição não está necessariamente associada a regiões litorâneas, mas a áreas que têm mata preservada, que permitem a disseminação do vetor, e com grandes massas de água, porque os mosquitos precisam de água quieta e parada,” observa a pesquisadora.
Historicamente, a doença foi mais frequentemente diagnosticada em regiões litorâneas, especialmente porque esses locais costumam reunir condições muito favoráveis para os mosquitos vetores, como temperatura elevada, umidade e presença de áreas alagadas. Entretanto, segundo o diretor da SBCV, Alexandre Bendas, “hoje sabemos que a dirofilariose não é exclusiva do litoral”.
O professor destaca ainda que o aumento da mobilidade dos animais e as mudanças ambientais contribuíram para que a doença fosse identificada em diferentes regiões do país. “Já são conhecidas mais de 70 espécies de mosquitos capazes de transmitir a infecção”, menciona Bendas.
Como a transmissão depende de mosquitos, alterações de clima e umidade podem interferir no desenvolvimento dos vetores. A temperatura também influencia o desenvolvimento do parasita dentro do mosquito. Segundo Marianna, a Dirofilaria immitis precisa de temperatura acima de 27 °C para completar seu ciclo de vida.
A pesquisadora cita o avanço da leishmaniose em áreas onde antes não havia transmissão local como exemplo de como alterações ambientais podem modificar a distribuição de doenças transmitidas por vetores. “Esse cenário pode acontecer também com a dirofilariose e com outras patologias transmitidas por vetores. Por isso, é muito importante fazer uma vigilância epidemiológica em todas as regiões, justamente para evitar o avanço dessas condições,” destaca Marianna.
Para Bendas, não seria um cuidado exagerado que os tutores que vivem longe do litoral se preocupassem com a doença. “A presença da doença depende principalmente de três fatores: mosquitos competentes para transmitir o parasita, cães infectados servindo como reservatórios e condições ambientais favoráveis ao desenvolvimento das larvas. Esses fatores podem existir em diversas regiões do interior brasileiro. Além disso, muitos cães viajam com seus tutores para áreas endêmicas e podem retornar infectados. Portanto, mesmo longe do litoral, a dirofilariose deve fazer parte do diagnóstico diferencial de doenças cardíacas e respiratórias, e a necessidade de prevenção deve ser discutida com o médico-veterinário local.”
Problema de Saúde Única
O cão é o principal hospedeiro do parasita, enquanto gatos e humanos são considerados hospedeiros acidentais. “É muito importante tratar a dirofilariose como um problema de saúde pública e de Saúde Única”, afirma Marianna Laura Elis Chocobar.
Segundo ela, o controle dos mosquitos também pode contribuir para prevenir outras doenças transmitidas por vetores. “Fazendo o controle do mosquito vetor, a gente acaba fazendo o controle de outras doenças transmitidas por mosquitos que são muito importantes para a saúde pública, como, por exemplo, a dengue”, explica.
A pesquisadora ressalta ainda que as condições ambientais e socioeconômicas influenciam a ocorrência dessas doenças. Enchentes, lixo, degradação ambiental e falta de infraestrutura podem favorecer a proliferação de vetores e parasitas. “Essas doenças têm que ser sempre vistas desse ponto de vista de Saúde Única, considerando a saúde do ambiente, a saúde animal e a saúde humana”, conclui.
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