JESSÉ SOUZATerrorismo ambiental contra Flonas e o futuro diante das mudanças climáticas extremas Um político acabou de se eleger para compor a bancada federal de Roraima no Congresso e, sem pestanejar, já adotou a postura antiambientalista. É a velha fórmula que funciona por meio do alarmismo. O político vem protocolando pedidos para anular duas unidades de conservação, as quais são importantes para manter o equilíbrio ambiental em Roraima […]
Um político acabou de se eleger para compor a bancada federal de Roraima no Congresso e, sem pestanejar, já adotou a postura antiambientalista. É a velha fórmula que funciona por meio do alarmismo. O político vem protocolando pedidos para anular duas unidades de conservação, as quais são importantes para manter o equilíbrio ambiental em Roraima e o futuro das populações diante das mudanças climáticas extremas, explicitadas por secas severas, queimadas e aumento de temperatura.
Os alvos do terrorismo ambiental são a Floresta Nacional (Flona) Parima, no Município do Amajari, Norte de Roraima, e a Flona Jauaperi, no Sul de Roraima. As alegações são as mesmas da estupidez histórica: “Impedir que o Governo Federal não tome nossas terras para produzir”. Embora o terrorismo ambiental e indígena praticado desde a constituição do Estado não se sustente à luz dos estudos científicos, acaba engajando os que também não ligam para estudo, dados e informações, muito menos para a defesa do meio ambiente, apesar de estarem sujeitos às crises climáticas e ambientais.
Existem estudos que mostram que o desenvolvimento de Roraima, a proteção dos povos indígenas e a defesa do meio ambiente são perfeitamente conciliáveis, os quais “podem e devem caminhar juntos”, conforme publicou recentemente o mestre em Geografia Felipe Rhuan (@geodolavrado) em uma postagem sob o título “Roraima precisa de terras indígenas para o agronegócio?”. Ele mesmo responde ao questionamento: “O agronegócio de Roraima já fatura bilhões operando dentro da lei”.
Segundo ele, os povos originários detêm 46,2% do território garantido por lei. São mais de 56 mil Km² (25,31% do Estado) classificados como “Áreas Remanescentes”, o que significa um total de terras totalmente livres de demarcações indígenas, de unidades de conservação ou de reservas militares. São espaços de sobra na lei para conciliar os interesses do desenvolvimento do Estado e a proteção dos povos indígenas e meio ambiente.
Felipe Rhuan observa que Roraima abriga a maior área contínua de savanas lavrados da Amazônia, com cerca de 43.000 km², destacando que o lavrado roraimense tem relevo plano e vegetação aberta, sendo ideal e barato para a mecanização, longe de matas densas. “Sem precisar de invasões, Roraima viveu um ‘boom’ puxado pela soja, saltando 134% nas exportações entre 2019 e 2023 (mais de U$S1,5 bilhão). O agro cresce rápido operando em áreas primitivas”, destacou.
Como os solos do lavrado são ácidos e pobres em nutrientes, conforme Rhuan, o faturamento bilionário da soja vem da pesada correção química e fertilizantes importados, e não da fertilidade natural de terras protegidas. “Roraima possui 32 terras indígenas demarcadas que cobrem 46% do Estado. Os números provam: o agro já fatura bilhões usando tecnologia e o calendário de chuvas nas vastas áreas livres do lavrado. Não falta terra, basta planejar”, frisou.
Apesar dos dados que apontam que desenvolvimento e preservação são conciliáveis, o terrorismo ambiental é a antiga fórmula utilizada para ganhar engajamento pregando o terror e apontando supostos inimigos como culpados. É a fórmula infalível de alimentar o ódio nas pessoas e, consequentemente, ganhar o voto depois de despertar paranoias. Foi assim que Roraima chegou a esta realidade atual do antiambientalismo.
Para contextualizar os grandes riscos das propostas do político, é necessário explicar que a Flona Parima, criada em 2023, é o que segura o avanço do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, além de proteger os mananciais de água potável importantes para manter o Rio Branco (a exemplo dos rios Uraricoera e Amajari), preservar a Estação Ecológica de Maracá e conter avanço de grilagem na Gleba Tepequém, aos pés da Serra do Tepequém, onde inclusive há um pastor que briga por terras para manter o garimpo ilegal por lá.
Acabar com a Flona Parima é colocar em risco a proteção do Rio Branco, o principal manancial que banha os maiores municípios de Roraima, além de ameaçar o Turismo, a sobrevivência de famílias da região, acossadas pela grilagem e o garimpo ilegal. Também enfraquece a proteção aos povos Yanomami e da grande biodiversidade que resiste naquela importante região de Roraima, ameaçada pela pressão de madeireiros, garimpeiros, grileiros e, mais recentemente, dos narcotraficantes que usam a região para receber drogas e armas do crime organizado.
Em um Estado onde os dados mostram que há terras suficientes para produzir, sem necessidade de invadir terras indígenas ou atacar áreas de conservação, é incabível que parlamentares adotem o terrorismo ambiental como bandeira política visando alimentar a dissonância cognitiva de uma população que não quer entender a necessidade de proteger, porque é alimentada por discursos políticos que visam alimentar o ódio e a desinformação como plataforma política. É jogar para a plateia em uma firula ambiental, pois ele sabe que esses pedidos não prosperam porque são inócuos, enquanto graves questões de Roraima são ignoradas, como o narcogarimpo e a corrupção.
*Colunista
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