Do sertão à cidade: entenda como o carcará se adapta ao ambiente urbano
Aves de rapina encontram nas estruturas urbanas locais semelhantes aos abrigos usados no ambiente natural e aproveitam a oferta de alimento, mas especialistas alertam para ameaças como perda de habitat e envenenamento
Por Victor Marvyo
Notícia
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Publicado às 08:00, 02/11/2026
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Resumo
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O carcará (Caracara plancus), ave de rapina eternizada pela famosa canção de João do Vale, tem se tornado cada vez mais presente na paisagem urbana de grandes cidades como Fortaleza.
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Sua dieta versátil, composta por presas vivas, animais feridos e carniça, é o principal fator que facilita sua adaptação da Caatinga para o ambiente urbano.
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Os edifícios altos das metrópoles oferecem à ave os abrigos e pontos de descanso necessários, funcionando de forma semelhante ao topo das árvores na vegetação nativa.
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Entre suas particularidades biológicas, destacam-se o extenso cuidado parental dedicado aos filhotes e a mudança na cor da pele do rosto conforme a idade e o nível de estresse.
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Apesar da facilidade de adaptação, a espécie enfrenta ameaças como o envenenamento, perda do habitat e colisões com janelas espelhadas, sendo recomendado apenas observá-la à distância sem tentar alimentá-la.
“Carcará, lá no sertão, é um bicho que avoa que nem avião”. Quem é que não lembra da famosa canção de João do Vale, que ajudou a transformar a ave em um dos rapinantes mais conhecidos do Brasil? Pertencente à família Falconidae, a mesma dos falcões, o carcará (Caracara plancus) tem se tornado cada vez mais presente em varandas, janelas de casas e coberturas de edifícios em cidades como Fortaleza.
Presente em diferentes regiões do país, a espécie chama a atenção de moradores ao pousar em estruturas humanas e ocupar espaços cada vez mais próximos da rotina das grandes metrópoles. Mas o que explica essa aproximação tão marcante com o meio urbano?
Composta por João do Vale e José Cândido, a música ficou famosa na voz da cantora e compositora brasileira Maria Bethânia. Nos versos, a ave de rapina se transforma em um retrato da luta pela vida em condições adversas e tem seu hábito de caçar em áreas de queimadas descrito pela canção.
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Do sertão para as grandes cidades
Bruno Araújo, biólogo e doutor em Sistemática, Uso e Conservação da Biodiversidade, explicou ao O POVO que essa espécie tem uma versatilidade alimentar que facilita a transição do carcará do meio rural para o urbano.
“Diferente de outros falcões que têm uma dieta especializada de caça. Se ele conseguir pegar uma presa viva, ele se alimenta; se ver um animal machucado ou até já morto, uma carniça, ele vai lá. Essa característica faz com que ele se adapte a ambientes mais severos, como a Caatinga”, destaca Bruno.
Além da fartura de alimentos, a arquitetura das grandes cidades oferece um elemento essencial para a sobrevivência das aves de rapina, que têm expectativa de vida de 15 a 30 anos: a altura. Na Caatinga, bioma nativo brasileiro e presente em todo o Ceará, por exemplo, esses animais buscam o topo das árvores para dormir e se proteger.
“Na área urbana, ele encontra os abrigos, que são justamente os grandes prédios ao longo da cidade. Principalmente no final da tarde, é muito comum ver os carcarás pousando nas varandas, coberturas e antenas”, explica o biólogo.
O especialista ressalta que não se trata necessariamente de um aumento populacional desenfreado da espécie, mas de uma mudança na percepção humana. As pessoas têm voltado mais o olhar para a fauna urbana, e a presença de uma ave de rapina de grande porte no parapeito da janela é sempre um acontecimento marcante.
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Novos vizinhos
Há cerca de quatro a cinco anos, o defensor público aposentado Luciano Hortêncio, de 75 anos, passou a acompanhar de perto a chegada de novos vizinhos no bairro Cocó, em Fortaleza. Aves de rapina encontraram nas caixas de ar-condicionado desocupadas dos andares mais altos — entre o 20º e o 23º andar — o local ideal para instalar seus ninhos e descansar.
A adaptação das aves à estrutura da cidade chamou a atenção de Luciano pela rusticidade dos materiais utilizados na construção dos abrigos, como o uso de arames.
Atualmente, Luciano observa cerca de três a quatro casais de carcarás estabelecidos em seu edifício e nos prédios vizinhos. O convívio diário levou à criação de uma rotina de alimentação com carnes cruas.
“Todos os dias eles vêm aqui na minha marquise. A minha fixação é tão grande que, quando não tem comida, eu vou ao supermercado para dar para eles”, relata. Ele diz ainda que não há incômodo com a presença das aves e que os carcarás “são muito bem-vindos”. A relação é tamanha que a família fica na expectativa quando sabe que um filhote está prestes a nascer.
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Comportamento e curiosidades da espécie
O comportamento social do carcará também reserva peculiaridades. Por não depender exclusivamente da caça ativa de presas difíceis, a espécie tende a ser mais tolerante com outros indivíduos no mesmo território do que predadores mais especializados.
No sertão, é frequente observar pequenos grupos dormindo na mesma árvore e partindo juntos ao amanhecer. Outro ponto marcante da biologia da ave é a dedicação à prole. As aves de rapina põem poucos ovos — geralmente um ou dois — e investem longo período na criação dos filhotes.
“No geral, [as aves de rapina] são ótimos pais e têm um cuidado parental bem extenso. Enquanto o filhote mantém a plumagem juvenil, ele é tolerado nos territórios por outros adultos até aprender a caçar e alcançar a maturidade. Só quando muda para a plumagem adulta é que ele se desvincula da família para seguir seu próprio caminho”, detalha Bruno Araújo.
Uma das curiosidades mais fascinantes sobre o carcará está no rosto. A pele nua ao redor do bico, chamada de “cera”, pode mudar de coloração conforme a idade e, segundo Bruno, também em situações de estresse.
“Quando o carcará está muito estressado ou nervoso, a cera do rosto tende a ficar avermelhada. Quando ele está tranquilo, em repouso, ela fica amarelada. E, quando é um filhote jovem, a cera é bem esbranquiçada”, revela.
O próprio nome carcará também guarda uma curiosidade. A denominação é associada a uma onomatopeia de origem indígena, que remete ao som característico emitido pela ave, além de uma referência ao latim plancus ou plangos, relacionado à ideia de “águia” — uma possível conexão com o verso “é a águia de lá do meu sertão”, da música de João do Vale.
“O som emitido pela ave é rudimentar e marcado por repetições que lembram a própria palavra ‘carcará’ ou um ‘cra’ seco durante o voo ou disputas”, afirma Bruno.
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Ameaças sofridas pela espécie
Apesar de sua capacidade de adaptação, o carcará também enfrenta riscos provocados pela ação humana. Nas cidades, Bruno Araújo afirma que algumas dessas ameaças são mais silenciosas. Entre elas está o uso de raticidas, como o chamado “chumbinho”, que pode atingir diretamente aves de rapina que se alimentam de roedores envenenados.
Fachadas espelhadas e janelas de vidro também representam um risco para o carcará e outras aves, que podem colidir contra essas estruturas. A perda de habitat é outra ameaça. “O desmatamento nas áreas nativas força o deslocamento das populações para áreas antrópicas”, relata.
A presença frequente de um predador de topo de cadeia alimentar em áreas urbanas também levanta um alerta ecológico. Por um lado, pode indicar que a cidade oferece recursos capazes de sustentar a espécie. Por outro, a presença desses animais também levanta questionamentos sobre a qualidade e a composição dessa oferta de alimento.
“Se temos bastante carcará, significa que há bastante alimento. Mas a pergunta é: que biodiversidade é essa? São animais selvagens ou estamos falando de uma superpopulação de pombos e ratos? Quando falamos de predadores oportunistas na cidade, precisamos ter cuidado antes de comemorar, pois o ambiente urbano dificilmente estará em equilíbrio natural”, pondera o biólogo.
Essa transformação da paisagem também pode ser percebida por quem acompanha de perto a fauna que circula entre os edifícios de Fortaleza. A bióloga marinha e doutora em Ciências Pesqueiras nos Trópicos, Sandra Beltran-Pedreros, de 59 anos, observa há anos a movimentação de animais silvestres a partir do topo de seu condomínio, localizado no limite entre os bairros Vicente Pinzón e Papicu.
Foi de lá que, há cerca de três anos, ela passou a acompanhar de perto a rotina de um casal de carcarás. As aves costumam pousar no topo da caixa-d’água do edifício vizinho, estrutura que, segundo Sandra, serve como ponto de observação dos quintais das casas e de um terreno baldio próximo.
Para ela, o comportamento dos animais chama atenção justamente pela forma como eles incorporaram elementos da paisagem urbana à rotina. A caixa-d’água, os prédios e os terrenos ao redor passaram a fazer parte do território que Sandra observa diariamente.
“Como bióloga, observo com maior frequência a fauna silvestre se adentrando no ambiente urbano porque os ecossistemas onde deveriam estar estão altamente degradados. O carcará está se adaptando porque existe oferta de alimento, mas esse não é o alimento apropriado para eles e gera um risco muito alto, inclusive de atropelamentos nas estradas”, relata.
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Proteção à fauna e cuidados
O carcará é uma espécie da fauna silvestre e, portanto, está protegido pela legislação ambiental brasileira. A Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998) estabelece como crime matar, perseguir, caçar, apanhar ou utilizar animais silvestres sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente.
A pena prevista é de detenção de seis meses a um ano, além de multa. A legislação também alcança situações como manter espécimes da fauna silvestre em cativeiro sem autorização.
Ao avistar um carcará na janela ou na varanda, a recomendação do especialista é manter a admiração à distância. Segundo Bruno, por serem predadores de topo, eles não demonstram extremo temor em relação aos humanos e podem se habituar a locais considerados seguros.
“Nunca se deve tentar alimentar, tocar ou manusear a ave. Por ter uma dieta carnívora e consumir carcaças, o contato direto sem equipamentos e habilitação profissional oferece riscos biológicos e de transmissão de zoonoses”, alerta.
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