Número de brasileiros com obesidade atendidos pelo SUS cresce 259% em dez anos
(Patrícia Pasquini/Folhapress) - O número de brasileiros com obesidade acompanhados pela rede básica do Sistema Único de Saúde (SUS) aumentou 259% em dez anos. Os registros passaram de 3,09 milhões, em 2016, para 11,12 milhões em 2026, o equivalente a 36% dos adultos monitorados pelo sistema.
Os dados são do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), do Ministério da Saúde, e mostram também uma mudança importante no perfil dos pacientes. Pela primeira vez, o total de pessoas com obesidade superou o de indivíduos com sobrepeso, que chegou a 10,76 milhões neste ano.
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Consideradas em conjunto, as duas condições atingem 21,88 milhões de adultos acompanhados pelo sistema. Isso significa que 71,5% desse público está acima do peso considerado adequado.
A proporção de adultos com obesidade monitorados pelo SUS também aumentou significativamente. Em 2016, eles representavam 25,1% dos acompanhados. Agora, são 36,4%.
Rio Grande do Sul lidera índices de obesidade
O avanço aparece em praticamente todo o país. Em 24 das 27 unidades da Federação, o número de adultos com obesidade atendidos na atenção básica já supera o de pessoas com peso considerado adequado.
Em 18 estados, pelo menos 70% dos pacientes monitorados apresentam sobrepeso ou obesidade.
O Rio Grande do Sul tem os maiores percentuais de obesidade, com 42,6% dos adultos acompanhados nessa condição. O Estado também registra a maior proporção de excesso de peso, que chega a 75,9%.
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São Paulo e Rio de Janeiro aparecem na sequência em relação à obesidade, com índices de 40,5% e 40,1%, respectivamente. Em números absolutos, são 1,74 milhão de pessoas em São Paulo e 759,2 mil no Rio.
Em Minas Gerais, os registros apontam 1,16 milhão de adultos com obesidade, o equivalente a 34,6% dos acompanhados. Na Bahia, são 735,3 mil pessoas, ou 31,9%.
Quando considerado o excesso de peso (sobrepeso e obesidade), os maiores percentuais são os do Rio Grande do Norte (75,5%), Amapá (74,5%) e São Paulo (74,3%).
SUS enfrenta dificuldades para tratar pacientes
O crescimento dos diagnósticos também expõe dificuldades da rede pública para oferecer acompanhamento adequado. Segundo o endocrinologista Bruno Halpern, presidente da Federação Mundial da Obesidade e vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), os problemas incluem falta de medicamentos, capacitação insuficiente dos profissionais e ausência de um protocolo amplo de tratamento.
O especialista avalia que a assistência ainda é fragmentada. A cirurgia bariátrica, por exemplo, é indicada principalmente para casos de obesidade grave, deixando uma parcela expressiva dos pacientes sem alternativas de tratamento estruturadas na rede pública.
O acesso ao procedimento também é desigual entre as regiões, com filas de espera que variam de acordo com o local. Mesmo depois da cirurgia, há dificuldades para garantir o acompanhamento adequado, incluindo o fornecimento regular de suplementos polivitamínicos.
"Não há linhas de cuidado bem trabalhadas", afirma Halpern. Segundo ele, existem iniciativas de qualidade voltadas à mudança de hábitos, mas ainda faltam políticas estruturadas em escala nacional.
A obesidade está associada a mais de 240 doenças, incluindo diferentes tipos de câncer e problemas cardiovasculares, além de contribuir para a redução da expectativa de vida.
Prevenção e tratamento precisam caminhar juntos
Para o endocrinologista, o enfrentamento do problema exige ações simultâneas. Na prevenção, ele defende políticas públicas que estimulem o consumo de alimentos naturais e desestimulem a ingestão de produtos ultraprocessados.
Já para quem vive com obesidade, a prioridade deve ser a construção de redes de atendimento capazes de oferecer acompanhamento contínuo e tratamento adequado.
As dificuldades da assistência foram discutidas durante o XVI Congresso Latino-Americano de Obesidade, realizado entre 28 e 31 de outubro, em Salvador.
Estudo aponta falhas no combate à obesidade no mundo
Durante o congresso, Halpern também apresentou dados do estudo MAPPS II, desenvolvido pela Federação Mundial da Obesidade. A pesquisa avalia políticas públicas e estratégias de tratamento em diferentes países.
Os resultados apontam baixo investimento governamental no enfrentamento da doença. Em uma escala de zero a dez, as avaliações sobre o apoio financeiro dos governos ficaram entre um e três pontos.
O levantamento também identificou dificuldades para formar equipes multidisciplinares, integrar políticas de diferentes áreas do governo e ampliar a qualidade dos serviços públicos.
O preconceito contra pessoas com excesso de peso, inclusive entre profissionais de saúde, aparece entre os obstáculos ao tratamento.
Os resultados globais serão divulgados em 4 de março de 2027, no Dia Mundial da Obesidade. A Federação Mundial da Obesidade também prevê publicar um relatório específico sobre o Brasil ao longo do próximo ano.
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