O Tempo
02/11/2026 09:00

Novembro Azul: por que homens adiam o cuidado com a saúde?

O artista plástico Romero Britto enfrentou um câncer de próstata em segredo durante seis anos. O diagnóstico veio no auge da pandemia de Covid-19, durante um check-up de rotina. “Ainda me lembro da voz embargada do médico: ‘Romero, você tem câncer’. ‘Oh, my God!’, foi tudo o que consegui dizer”, descreveu em sua autobiografia, A Arte da Felicidade.

Britto passou por cirurgia, seguiu as orientações médicas e está em remissão há dois anos. Na autobiografia, também contou como a arte, o otimismo e a espiritualidade o ajudaram a enfrentar a doença.

Sua história levanta uma questão que vai além do câncer: por que tantos homens têm dificuldade em falar sobre a própria saúde, demonstrar medo ou procurar ajuda? O receio de um diagnóstico grave e a ideia de que demonstrar vulnerabilidade é incompatível com a masculinidade podem contribuir para o silêncio e o adiamento de consultas.

O problema ganha dimensão diante dos números. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil deve registrar 77.920 novos casos de câncer de próstata por ano no triênio 2026-2028. Este é o segundo tipo de tumor mais frequente entre os homens brasileiros, atrás apenas do câncer de pele não melanoma.

Para o onco-urologista Guilherme Canabrava, a resistência masculina em buscar atendimento está relacionada a barreiras culturais. “Infelizmente, muitos homens ainda associam procurar um médico a uma demonstração de fraqueza. Existe também o medo de descobrir uma doença grave e o preconceito em relação ao câncer de próstata, principalmente por questões ligadas à masculinidade e à sexualidade”, afirma.

O psiquiatra Alexandre Pereira, especialista em psicoterapia, explica que essa relação com a vulnerabilidade começa a ser construída desde cedo. Expressões como “homem não chora”, “tem que aguentar” e “precisa resolver sozinho” reforçam a expectativa de que os homens devem suportar o sofrimento sem demonstrá-lo.

Diante de uma doença grave, a imagem de independência pode ser abalada pela necessidade de ajuda e pelas possíveis mudanças na sexualidade, no trabalho e na autonomia. Embora cada pessoa reaja de maneira diferente, admitir a própria vulnerabilidade pode se tornar mais um desafio durante o tratamento.

“Estudos mostram que medo, vergonha e normas tradicionais de masculinidade estão relacionados à maior dificuldade dos homens em procurar ajuda para problemas de saúde. Por outro lado, o apoio de companheiras, familiares e pessoas próximas costuma facilitar a procura por atendimento”, observa Pereira.

A ausência de sintomas não significa ausência de doença

O câncer de próstata costuma evoluir sem sinais nas fases iniciais. Por isso, sentir-se bem não significa necessariamente estar livre da doença, e esperar o aparecimento de dor ou de alterações na rotina pode atrasar a investigação.

Canabrava orienta que os homens conversem com um médico sobre a saúde da próstata a partir dos 50 anos, ou antes, aos 45, especialmente quando há fatores de risco, como histórico familiar da doença.

Entre os exames utilizados na avaliação estão o PSA, feito por meio de uma amostra de sangue, e o toque retal, que permite avaliar características da próstata. A indicação deve considerar os benefícios e os riscos de cada procedimento, o histórico pessoal e familiar e as condições individuais.

O Inca não recomenda o rastreamento populacional indiscriminado de homens sem sintomas. A orientação é discutir com o médico a necessidade de exames, em vez de ignorar os riscos ou realizar procedimentos sem avaliação individualizada.

“Sentir-se bem não significa necessariamente estar livre da doença. O diagnóstico precoce pode fazer toda a diferença nas possibilidades de tratamento e cura”, realça Canabrava.

Quando identificado precocemente e ainda localizado na próstata, o câncer apresenta chances de cura que podem chegar a cerca de 90%, dependendo das características do tumor. Nem todos os casos, porém, exigem a mesma abordagem: tumores menos agressivos podem ser acompanhados, enquanto outros demandam tratamento. A decisão considera fatores como agressividade, níveis de PSA, extensão da doença e condições de saúde do paciente. As opções incluem vigilância ativa, cirurgia e radioterapia, entre outras.

Dificuldade para urinar, jato urinário fraco, necessidade de urinar várias vezes à noite e presença de sangue na urina são sinais que merecem avaliação. Em fases avançadas, podem surgir dores ósseas. Esses sintomas também podem estar associados a doenças benignas e não indicam necessariamente câncer.

Otimismo não substitui o tratamento

A experiência de Romero Britto também levanta uma discussão sobre o papel da saúde emocional durante uma doença grave. A arte, a espiritualidade e o otimismo podem ajudar o paciente a preservar atividades e projetos pessoais em meio às incertezas, desde que não substituam o acompanhamento médico.

“Manter atividades significativas pode diminuir a sensação de que a doença passou a ocupar toda a vida. Esperança e otimismo realista podem ajudar o paciente a preservar projetos, participar mais ativamente das decisões sobre o tratamento e lidar melhor com as incertezas”, explica Pereira.

Segundo o psiquiatra, a espiritualidade pode oferecer conforto e sentido, especialmente quando já faz parte da vida do paciente. Psicoterapia, técnicas de relaxamento, meditação e atividade física adequada também podem ajudar a reduzir sintomas de ansiedade e depressão.

Esses recursos contribuem para o bem-estar, mas não significam que o pensamento positivo cure o câncer. Tampouco há evidências de que sentir medo, tristeza ou raiva faça a doença piorar. O apoio emocional pode melhorar a qualidade de vida durante o tratamento, mas não substitui a medicina.

Pereira alerta ainda para o risco de transformar o otimismo em uma obrigação, levando o paciente a esconder o sofrimento para não preocupar outras pessoas.

“Existe uma diferença importante entre esperança e a obrigação de estar bem o tempo todo. Dizer a alguém com câncer que ela ‘precisa ser positiva’, ‘não pode pensar em coisas ruins’ ou ‘tem que ser forte’ pode produzir justamente o efeito contrário. A pessoa pode começar a sentir que, além de enfrentar a doença, precisa esconder o medo e a tristeza para não decepcionar a família”, evidencia.

Quando o sofrimento também precisa de cuidado

O diagnóstico de câncer pode desencadear preocupações constantes com o tratamento, a possibilidade de a doença voltar, a família e o futuro. Quando persistente, esse estado de alerta pode comprometer o sono e a disposição, além de provocar irritabilidade, dificuldade de concentração, fadiga e perda de interesse por atividades habituais.

Em alguns casos, a ansiedade e a depressão também dificultam a organização de consultas, o uso correto de medicamentos e o cumprimento das recomendações médicas. A tentativa de evitar o sofrimento pode levar ao adiamento de exames e decisões terapêuticas.

Sentir medo é uma reação humana diante de uma doença grave. O apoio profissional, porém, merece ser considerado quando a tristeza e a ansiedade persistem, prejudicam a rotina ou comprometem o tratamento. Isolamento, desesperança e aumento do consumo de álcool ou outras substâncias também são sinais de alerta.

“O objetivo do cuidado psicológico não é transformar o paciente em uma pessoa permanentemente otimista. É ajudá-lo a encontrar uma forma mais saudável e realista de atravessar a doença, permitindo que esperança, medo, tristeza e confiança possam coexistir sem que ele precise enfrentar tudo sozinho”, conclui Pereira.

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