Diário do Rio de Janeiro
02/11/2026 09:30

Bazar América: a loja da Uruguaiana que trazia luxo do Japão e porcelanas de Limoges para o Rio

A sede histórica do Bazar América, na rua Uruguaiana 38/40, em foto do anúncio da criação de seu serviço de delivery por automóvel. O prédio 40 ainda se encontra íntegro no local - Reprodução

Na Rua Uruguaiana, perto da Sete de Setembro, houve uma loja em que o carioca podia comprar desde um capacho até uma porcelana francesa feita para ser vendida com o nome do estabelecimento. Atrás dos vidros do Bazar América, cristais, vasos japoneses, faqueiros e serviços de chá ofereciam diferentes maneiras de compor uma casa. O freguês escolhia, acertava a compra e podia receber a encomenda em domicílio, transportada num automóvel que levava pela cidade o nome da firma.

Era um Rio em que o comércio do Centro participava da vida doméstica muito além do expediente. Uma caminhada entre a Rua do Ouvidor, a Primeiro de Março, a Avenida Central e a Uruguaiana permitia escolher o presente dos noivos, examinar um aparelho de jantar, comparar o brilho de um cristal e descobrir um objeto chegado do outro lado do mundo. O café das confeitarias, o tabaco dos passantes, os pregões e o ruído dos bondes compunham o ambiente em torno dessas compras. Nos balcões, discutiam-se preços, procedências e a conveniência de levar o conjunto inteiro.

Fundado em 1894 por Luiz Augusto Baptista e Antonio Alves da Fonseca, o Bazar América reuniu a experiência de um português, chegado ao Brasil em 1882, à de um brasileiro que já acumulava quarenta anos de comércio quando o estabelecimento foi descrito, em 1913, no livro Impressões do Brazil no Século Vinte, que enaltecia o mundo dos negócios na Primeira República. A publicação registrava vendas por atacado e a varejo, representantes em diferentes estados e movimento anual próximo de mil contos de réis. 

Antes de se tornar conhecido pelos números 38 e 40, o Bazar anunciava seu endereço na Uruguaiana, 30.  Um desses reclames antigos apresenta uma variedade que ajuda a entender a amplitude do negócio: tecidos, louças, cristais, porcelanas, talheres, utensílios de cozinha, objetos de biscuit, tapetes, capachos, cestas, vime, vidros, miudezas de armarinho e oleados. Havia mercadorias para ornamentar a sala, equipar a cozinha e resolver as pequenas necessidades da casa, sob a promessa de preços ao alcance de todos.

Em outros anúncios, o endereço aparece ampliado para 30, 32 e 34.  São vários sobradinhos “magrinhos” que estão lá até hoje!  Mais adiante, a loja se estabeleceu  finalmente nos números 38 e 40, onde sua fachada passou a integrar a paisagem comercial da rua. A casa oferecia artigos da luxuosa prataria francesa Christofle, porcelanas, cristais e presentes, aproximando produtos de grande prestígio de um discurso comercial que insistia na vantagem dos preços. 

Essa combinação merece atenção. O Bazar América vendia objetos de alto luxo e, ao mesmo tempo, procurava convencer o comprador de que poderia adquiri-los em condições favoráveis. Um faqueiro cuidadosamente acondicionado, uma porcelana fina e um utensílio de uso diário podiam pertencer ao mesmo estabelecimento, embora servissem a bolsos e ocasiões diferentes. A diversidade permitia atender tanto à compra de cerimônia quanto à necessidade mais prática.

A ligação com o Japão era uma das características mais fortes da casa. Em 1913, ela mantinha uma unidade compradora em Yokohama, dirigida por S. Midzushima. De lá recebia porcelanas, serviços de jantar e chá, cortinas, brinquedos, objetos de marfim e leques. Da Europa vinham outras louças, cristais, metais, tapetes e utensílios. O endereço da Uruguaiana era a ponta carioca de uma operação que atravessava oceanos. 

Os próprios anúncios davam destaque à importação direta de artigos japoneses, e um deles acrescentava, em letras ostensivas, a existência do escritório em Tóquio. A procedência era um argumento de venda. O estabelecimento se apresentava ao público como uma porta de entrada para mercadorias que carregavam o encanto da distância, a habilidade de outros fabricantes e formas de decoração capazes de transformar uma sala de jantar.

Entre os testemunhos mais expressivos dessa atividade estão as porcelanas de Limoges, tradicional centro francês de porcelana fina, que chegaram ao mercado de antiguidades conservando a identificação do Bazar América. Um conjunto de pequenas xícaras e pires traz a marca Charles Ahrenfeldt acompanhada da inscrição “pour Bazar America Rio De Janeiro” — para o Bazar América, Rio de Janeiro. São peças destinadas à comercialização pela casa carioca, com o nome do estabelecimento associado ao do fabricante francês. 

O detalhe dá a medida do negócio. Uma loja brasileira figurava na própria marcação da porcelanas de uma das mais prestigiadas tradições produtoras da França. A relação comercial atravessava o balcão e permanecia na peça: bastava virar o pires para encontrar o nome da casa da Uruguaiana. O objeto podia mudar de residência, passar de uma geração para outra e conservar, no fundo, a memória do lugar por onde entrara na vida carioca.

Nas fotografias do interior, a quantidade de mercadorias impressiona. Vasos, figuras decorativas, louças, cristais e metais ocupam armários, vitrinas e expositores. O comprador precisava deixar o olhar caminhar entre as peças, distinguindo um serviço de chá de um conjunto de copos, um objeto de decoração de outro destinado à mesa. O sortimento, distribuído por móveis de madeira e superfícies de vidro, fazia parte da experiência de entrar no Bazar.

A loja pertencia a um circuito de casas que ofereciam ao Rio esse encontro entre importação, utilidade e luxo. Uma delas era a Casa Vianna, na esquina da Ouvidor com a Primeiro de Março, diante da Igreja de Santa Cruz dos Militares. Já retratada pelo DIÁRIO DO RIO, ela foi conduzida pelo comerciante português Antonio dos Santos Vianna, que ampliou sua atuação para outros endereços do Centro.

Sua rede incluía o Bazar Japão e a Casa Limoges, nos números 118 e 120 da Avenida Central, atual Avenida Rio Branco., fundados em 1909. Instalados nas  lojas do antigo prédio da Associação dos Empregados no Comércio do Rio de Janeiro, ofereciam louças, cristais e mercadorias japonesas que iam da mobília ao pequeno bibelô. 

Era uma geografia de vitrines próximas e horizontes distantes. Na Ouvidor, na avenida e na Uruguaiana, o freguês encontrava produtos que haviam passado por fabricantes, exportadores, navios e armazéns antes de aparecerem sob a luz de uma loja. O passeio comercial ajudava a formar o gosto da cidade. Escolhia-se a peça pela qualidade, pela beleza, pela reputação da casa e, naturalmente, pelo preço que o vendedor conseguia oferecer.

Outra ligação do Bazar América leva a um endereço que continua fazendo parte da vida do Centro: o Rio Minho, restaurante de frutos do mar com mais de 140 anos de história, instalado na Rua do Ouvidor, 10, próximo à Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores. Fundada em 1884, a casa permanece associada à tradição gastronômica carioca e à sua conhecida sopa Leão Veloso. 

O elo entre os dois negócios era Matheus Furtado Rodrigues. Em pesquisa publicada na Revista del CESLA, a historiadora Lená Medeiros de Menezes, professora emérita da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o identifica como sócio comanditário — participante do capital da sociedade — de Baptista, Fonseca & Cia., na Uruguaiana. O mesmo negociante era sócio do  Rio Minho e do Bazar São Lourenço, na Rua Senador Pompeu.

Rodrigues participava ainda de negócios ligados a botequins e sapataria e possuía dez edifícios que mandara construir no Boulevard Vinte e Oito de Setembro, em Vila Isabel. Também chegou à tesouraria de uma associação de proprietários de hotéis. Sua trajetória mostra como capitais, relações pessoais e oportunidades aproximavam setores diferentes da economia carioca: a loja de porcelanas, a hospedagem, a mesa do restaurante e os imóveis da cidade. 

O Bazar também aparece na história de Euclides da Cunha. Uma pesquisa disponível no repositório da Universidade Federal de Goiás, ao tratar da manutenção da família do escritor durante suas ausências, registra remessas financeiras realizadas por intermédio do estabelecimento. A casa da Uruguaiana participava, assim, de uma relação de confiança comercial que alcançava assuntos particulares de seus clientes. 

Para chegar à freguesia, a publicidade assumia formas variadas. Um calendário colorido, com crianças, flores e um grande trevo, trazia a lembrança de Baptista & Fonseca e o endereço da Uruguaiana, 30. Era um objeto feito para permanecer perto do comprador, consultado no cotidiano, prolongando a presença da firma depois da compra. Em outro cartão, a Estátua da Liberdade acompanhava o nome do Bazar e a relação de porcelanas, louças, cristais, Christofle e artigos de fantasia.

Nos anúncios de O Tico-Tico, a linguagem se aproximava diretamente das famílias. Em 1906, um reclame encenou uma conversa entre mãe e filho diante da loja. A criança reconhecia o Bazar América pelos anúncios da revista e queria entrar, encerrando o diálogo com a frase “Quem manda sou eu!”. O apelo ao pequeno consumidor já encontrava seu caminho até a decisão dos adultos. 

Outro anúncio apresentava uma noiva encantada com as louças e os cristais que teria em casa. Ela explicava que o noivo, mesmo sem ser milionário, pudera comprar belas peças porque seguira sua indicação e procurara o Bazar América. O estabelecimento vendia os objetos e a perspectiva de uma casa bem montada, pronta para receber parentes, visitas e a vida que começaria depois do casamento. 

Uma mesa posta, ilustrada em outro reclame, traduzia essa ambição doméstica. Castiçais, taças, pratos e um centro de mesa compunham a cena, acompanhados da oferta de faqueiros, porcelanas, metais finos e cristais. A casa anunciava também conjuntos de lavatório em metal prateado, numa época em que a apresentação dos objetos de higiene podia receber o mesmo cuidado decorativo dispensado aos utensílios de servir.

O serviço de entregas completava o atendimento. Já em 1927, a revista Vida Doméstica destacava que o Bazar América adquirira um automóvel para levar rapidamente as encomendas aos fregueses. Era o delivery daquele Rio, com veículo próprio e nome da loja circulando pelas ruas. A fotografia publicada pela revista mostra o carro diante do estabelecimento, sob a fachada de janelas altas, sacada de ferro e vitrines identificadas por inscrições arqueadas.

A publicidade também descia ao preço de cada peça. Um anúncio oferecia uma luminária de estilo para quarto por 65 mil-réis e um centro de mesa por 38 mil-réis. Décadas depois, as promoções apresentariam listas extensas de utensílios e conjuntos, permitindo ao comprador escolher entre uma pequena reposição e a compra mais ambiciosa de um aparelho completo.

O crédito ajudava a aproximar a mercadoria do orçamento. Em 1935, o Bazar América figurava entre os estabelecimentos atendidos pela  empresa de crédito Compensadora, que anunciava pagamentos em parcelas mensais. No grupo de louças, utensílios de cozinha e ferragens apareciam também O Dragão, Oliveira Leite, O Christallino, Casa Muniz, Casa Vianna e Casa Ingleza. O sistema reunia mais de noventa casas de diferentes especialidades. 

A oferta de novidades incluía objetos que podiam caber no bolso. Em setembro de 1940, o Bazar anunciou uma caneta-tinteiro americana Traveller’s, acompanhada de lapiseira gratuita e garantia de cinco anos. O conjunto custava 20 mil-réis no balcão; para o interior, a loja aceitava vale postal ou cheque de 22 mil-réis e enviava a encomenda. A publicidade no jornal fazia o endereço da Uruguaiana alcançar compradores distantes. 

A vida dos empregados também entrou nas páginas da imprensa. Em setembro de 1922, A Noite informou que o estabelecimento concederia a cada funcionário um mês de ordenado adicional como gratificação pelo Centenário da Independência. A celebração nacional chegava à rotina de quem atendia, organizava as mercadorias e sustentava o funcionamento da casa. 

Em 1939, os auxiliares organizaram seu time de futebol, o Combinado do Bazar América, com sede provisória na própria Uruguaiana, 38–40. A diretoria tinha Paulo Anachoreta Baptista na presidência, Henrique Fonseca na vice-presidência, Flammarion Ribeiro como secretário e Antônio Leite como tesoureiro. O Jornal dos Sports foi escolhido como órgão oficial da agremiação, levando o nome do estabelecimento do balcão para a vida esportiva.

Antes disso, o Bazar já participara de outro acontecimento esportivo carioca. Em 1936, ofereceu uma taça de prata para o Circuito da Gávea, a corrida de automobilismo que levava pilotos e carros de competição às ruas da cidade. O prêmio tinha uma condição curiosa: seria destinado ao último colocado que completasse as 25 voltas da prova. Entre as ofertas dos comerciantes, a casa da Uruguaiana escolheu distinguir também a persistência de chegar ao fim. 

O cotidiano da loja podia ganhar registros menos solenes. Em 1935, o Diário Carioca noticiou que Manoel Octaviano dos Santos, depois de furtar sandálias numa sapataria, entrara no Bazar América e levado um bule. Surpreendido por um guarda civil, entrou em luta ao receber voz de prisão. O episódio devolve ao cenário o movimento comum de uma rua comercial: portas abertas, mercadorias expostas, vigilância e um tumulto capaz de interromper por instantes o passo dos fregueses. 

A loja procurou renovar-se. Um anúncio de obras apresentava uma nova fase do Bazar América e transformava a reforma em oportunidade de compra, com preços especiais para louças, cristais e alumínios. A propaganda incluía aparelhos de jantar com terrina, serviços de café, conjuntos de chá, saladeiras, xícaras avulsas, pratos, cinzeiros e jogos de copos. O estabelecimento continuava a acompanhar a casa inteira, da cozinha à mesa de visitas.

Na campanha de Natal, a firma anunciou que interromperia as obras para realizar uma grande venda especial de festas. Os preços apareciam dentro de uma composição de bolas e ramos natalinos, reunindo caçarolas, caldeirões, jogos de mantimentos, porcelanas e cristais. Havia presépios de faiança decorados à mão, serviços infantis, licoreiros, bomboneiras, jarras para flores e faqueiros acondicionados em caixas de madeira forradas de veludo.

O anúncio permite entrever os usos dessas mercadorias. Os copos poderiam servir o refresco das visitas; a bomboneira ocuparia um móvel da sala; o presépio seria retirado da caixa a cada dezembro. A compra atravessava a porta da loja e passava a integrar hábitos familiares, festas e lembranças. Muitas peças sobreviveriam ao comércio que as vendera.

O leilão para a entrega das chaves dos números 38 e 40 marcou a despedida do Bazar, em fins de 1955. Num reclame de letras grandes, a firma anunciava o  “fabuloso leilão do Bazar América”. O nome que durante décadas convidara a escolher porcelanas, cristais e presentes passava a acompanhar a dispersão das mercadorias. Os lotes encontrariam novos destinos, enquanto a rua continuaria seu movimento até os dias de hoje.  A loja durou de 1894 até 1955.

Parte da antiga fachada permanece reconhecível. O nº 40 conserva a composição histórica restaurada, com ornamentação, janelas e sacada, e abriga hoje a Françoise, loja de moda feminina. O nº 38 teve a frente alterada para um a fachada abominavelmente horrível e apresenta três vãos verticais alongados, de linhas mais simples. Os dois imóveis que um dia compuseram a apresentação do Bazar América seguiram caminhos diferentes, mas continuam participando da vida comercial da Uruguaiana. 

Quem passa hoje diante do nº 40 pode reconhecer algo daquele estabelecimento que comprava no Japão, vendia porcelanas francesas com seu nome e mandava encomendas pela cidade em automóvel próprio. A rua mudou de ritmo, de mercadorias e de freguesia; ainda assim, acima das portas, uma parte de sua história continua à vista. Nas casas, coleções e antiquários, outra parte cabe na palma da mão: um pires que, virado com cuidado, devolve ao Rio o nome do Bazar América.

Igreja de N. Sra. da Lapa dos Mercadores

Bruna Castro

Jornalista, Diretora do Diário do Rio, amante de pets e sempre atuante nas pautas de ordem pública.

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