Gabrielli celebra fim do “pensamento único” e endossa ideia de Lara Resende
O economista José Sérgio Gabrielli, coordenador do programa de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à reeleição, distribuiu um texto nesta segunda-feira (2) em que celebra o fim do “pensamento único” nos debates econômicos e rejeita políticas de “austeridade contra o eleitor”.
Em um documento de 11 páginas, Gabrielli elogia o também economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real e considerado heterodoxo por sua ideia de tabelamento dos juros.
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“Merece atenção especial a proposta de André Lara Resende de criação de um mecanismo mais amplo do que o CMN [Conselho Monetário Nacional] para coordenar a política monetária e fiscal no Brasil. O pior dos mundos é a situação de conflito de objetivos entre as duas políticas no curto prazo”, escreveu Gabrielli.
No domingo (1°), o colunista Lauro Jardim publicou no jornal “O Globo” que Lula deverá se reunir neste com Lara Resende, desatando especulações sobre o futuro da gestão macroeconômica no quarto mandato do petista.
À CNN, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou que um encontro entre os dois esteja sendo organizado.
“É um tema fático. Não existe agenda marcada entre o presidente Lula e André Lara Resende. Não é uma questão de ser contra ou a favor. Não tem”, disse o ministro.
“Não estamos discutindo nenhuma proposta do André Lara Resende para levar ao presidente”, acrescentou Durigan.
Apesar da negativa do ministro, as discussões sobre o texto do economista — que propõe um tabelamento da Selic — alimentaram ruídos sobre um possível racha no PT em torno das políticas fiscais do governo Lula 4.
Em suas redes sociais, a ex-ministra Gleisi Hoffmann disse neste domingo (1º) que o artigo de Lara Resende é “fundamental para enfrentar essa ofensiva terrorista” dos mercados contra a agenda fiscal do governo.
O presidente do PT, Edinho Silva, tentou diminuir os ruídos e empoderar Durigan nas discussões.
“As especulações na área econômica não colaboram com o país, e só fazem o jogo dos especuladores, dos oportunistas do mercado, aqueles que apostam contra o governo Lula, contra o futuro do país. O único que fala em nome do governo Lula na política econômica é o ministro Dario Durigan.”
O artigo de Gabrielli
Em meio às discussões, Gabrielli distribuiu na manhã desta segunda-feira um texto intitulado “Política fiscal para o fim de 2026 e para 2027 – Poucas lições tiradas do programa eleito com o presidente Lula”.
Minimizando o risco de solvência do país, apesar do forte crescimento da dívida bruta nos últimos quatro anos, ele celebrou a abertura de um debate sobre o assunto.
“Felizmente, alguns economistas de fora do governo se manifestaram publicamente pedindo mais progressividade na cobrança de impostos, adoção de novas formas de institucionalidade na relação entre política fiscal e política monetária e, inclusive, a adoção de mecanismos monetários heterodoxos, como o tabelamento de juros”, disse Gabrielli no texto.
“Que bom que o debate se estabeleceu e aparentemente não há mais a onipresença do pensamento único. Viva a democracia!”.
Embora a dívida bruta tenha subido cerca de 11 pontos percentuais desde o início de 2023 e chegado a quase 83% do PIB, Gabrielli prefere dar atenção ao endividamento líquido.
Ele cita que o indicador está em 69,3% do PIB e fica em nível “dentro dos padrões internacionais de países do tamanho do Brasil”.
“Do ponto de vista cambial, também não há por que se ter uma atitude de apavoramento, dado o fato de que mais de 90% da dívida ser em moeda nacional e o país dispor de enormes reservas cambiais. Se os especuladores com títulos públicos quiserem migrar para o dólar terão que realizar suas vendas, aumentando a oferta de títulos no mercado, baixando seus preços.”
Gabrielli lista uma série de propostas para atuar em um ajuste fiscal sem “austeridade contra o eleitor” e sem descumprir, segundo ele, o programa apresentado durante a campanha:
- Corte nos gastos tributários, que somam R$ 434 em renúncias fiscais para 2027, mas preservando imunidades constitucionais, cesta básica, cashback, agricultura familiar e “pequenos negócios genuínos”.
- Adequação das emendas parlamentares para uso em programas “mais estruturantes” e definidos pelo Ministério do Planejamento.
- Repactuação de contratos nas áreas de energia, telecomunicações e imóveis que estejam perto de vencer para, nas palavras do economista, “ampliar serviços” e “reduzir custos”.
- Reforço na atuação da Receita Federal e da PGFN (Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional) e de instrumentos como a transação tributária para recuperar impostos que já foram devidamente reconhecidos, em especial de grandes empresas
Gabrielli afirma, no entanto, que “dificilmente essas medidas chegam sequer perto do volume de juros que a gestão da dívida impõe às autoridades fiscais” e acena à proposta de Lara Resende.
A proposta de Lara Resende
Em seu artigo, Lara Resende propõe criar o CFMN, que estabeleceria metas conjuntas para a política fiscal e monetária, com horizonte de quatro a cinco anos. A ideia é coordenar as decisões sobre contas públicas e juros.
E o trecho mais controverso da proposta — alvo de críticas no mercado financeiro —prevê que o Banco Central manteria a taxa básica de juros em um intervalo entre 3% (meta de inflação) e aproximadamente 5,5% ao ano (crescimento nominal potencial estimado). A Selic só poderia ficar fora desse intervalo em situações excepcionais autorizadas pelo conselho.
O economista propõe uma transição de 12 meses para levar a Selic a 7,5% ao ano. A taxa ficaria inicialmente 2 pontos percentuais acima do teto de 5,5%, como uma margem temporária de segurança. Esse adicional seria reduzido gradualmente até desaparecer.
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