Túmulo das Correntes: a história por trás da lenda do cemitério de Sena Madureira

Na segunda-feira (2), Dia de Finados, moradores de Sena Madureira devem visitar os cemitérios do município. No Cemitério São João Batista, um dos monumentos mais conhecidos é o chamado Túmulo das Correntes, alvo de histórias populares há décadas. Uma pesquisa histórica indica que o mausoléu pertence a Possidônio Bellarmino Barbosa, morto em 1912 durante um conflito político no então território do Acre, e que as correntes faziam parte do projeto original da construção.
As informações constam em material reunido pelo pesquisador sena-madureirense Raife Arante e encaminhado ao Yaco News. Segundo o levantamento, Possidônio trabalhava como guarda do 1º Posto Fiscal de Sena Madureira. Documentos antigos também o associam ao corpo policial formado após o movimento político que assumiu o poder na cidade em 1912 e ao Tiro Nacional Alto Purus, grupo de treinamento de tiro que funcionava na região.
Naquele ano, um movimento local depôs o prefeito departamental Tristão de Araripe e instalou uma Junta Governativa. O território havia sido incorporado ao Brasil em 1903, e seus governantes eram nomeados pelo governo federal. Fontes históricas registram que chegou a ser proclamado um Estado do Acre independente.
O governo federal reagiu com uma ofensiva militar. De acordo com pesquisas acadêmicas e registros do Ministério Público do Acre, as forças federais atacaram Sena Madureira em 8 de junho de 1912. O combate durou cerca de seis horas e deixou mortos e feridos.
Possidônio estava em uma das trincheiras dos homens que resistiam à retomada da cidade e foi atingido por um tiro na cabeça. A edição de 14 de junho de 1914 do jornal O Alto Purus, preservada na Hemeroteca Nacional, registra a morte na manhã de 8 de junho de 1912. Uma anotação posterior no levantamento menciona o dia 12 de junho, mas diversos jornais da época repetem o dia 8, data considerada mais bem sustentada pelos registros contemporâneos.
Documentos de 1913, 1914 e 1915 registram visitas, missas, romarias e homenagens ao túmulo. Em 1914, amigos, familiares, autoridades e integrantes do Tiro Brasileiro saíram da Praça 25 de Setembro até o cemitério para depositar flores e fazer discursos. Em novembro daquele ano, o irmão de Possidônio, José Bellarmino Barbosa, pediu licença à Prefeitura para instalar grades de madeira sobre o túmulo dele e o de outro irmão. Nessa época, portanto, a sepultura ainda não tinha correntes.
Em junho de 1915, amigos e admiradores se reuniram para discutir a construção de um mausoléu. Em 1916, O Alto Purus publicou uma lista de contribuições de moradores para o “Mausoléu Possidônio Barbosa”, e um registro de novembro de 1917 já cita a obra entre os monumentos do cemitério. Segundo a pesquisa, a construção tomou forma entre 1916 e 1917.
O levantamento não encontrou registro de que as correntes tenham sido instaladas para impedir que o morto saísse do túmulo ou por motivo sobrenatural. Os documentos indicam que as quatro grandes correntes originais compunham o conjunto arquitetônico do mausoléu.
A harpa instalada na parte frontal teria relação com a família Barbosa, ligada à música. José Bellarmino Barbosa, irmão de Possidônio, era conhecido no meio musical da cidade na época. A inscrição no monumento apresenta Possidônio como “vítima heroica” da causa dos acreanos.
Para o pesquisador, a perda da memória sobre o conflito de 1912 e a permanência visual das correntes abriram espaço para as versões populares. Raife Arante registra que não há documentação histórica que confirme as histórias sobrenaturais.
O material também aponta preocupação com o estado do mausoléu. Quando o levantamento foi feito, das quatro correntes originais restava apenas uma, e outras partes, como a harpa, apresentavam deterioração.
Com informações Yaco News
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