Homenagens Finados: devoção popular à Menina Sem Nome e a personalidades marca feriado no Recife Milhares de pessoas passaram pelos cemitérios da capital e Região Metropolitana, como o Cemitério de Santo Amaro, no Centro do Recife, para homenagear entes queridos, agradecer por graças alcançadas e reverenciar nomes como Chico Science
Túmulo da Menina Sem Nome é um dos mais visitados no Cemitério de Santo Amaro (Foto: Rafael Vieira/DP Foto)
O tradicional rito anual de visita aos túmulos de familiares, amigos e personalidades no Dia de Finados levou milhares de pessoas, nesta segunda-feira (2), aos cemitérios da Região Metropolitana do Recife. Com capacidade para mais de 20 mil túmulos e jazigos, o Cemitério Senhor Bom Jesus da Redenção, mais conhecido como Cemitério de Santo Amaro, na região central da capital pernambucana, é o maior equipamento do tipo no estado e costuma receber multidões no dia de hoje, que vão prestar suas homenagens e agradecer por graças alcançadas.
Um dos locais de maior movimentação é o túmulo da Menina Sem Nome, uma criança enterrada como indigente em 1970 após ser encontrada morta na praia do Pina, na Zona Sul do Recife. Pouco depois do sepultamento, pessoas começaram a relatar graças alcançadas a partir de pedidos atribuídos à menina. A mobilização popular começou a crescer e, a cada ano, devotos se reúnem no Dia de Finados levando presentes, como bonecas, bolos e doces.
É o caso da aposentada Cícera Elias da Costa, que há 18 anos mantém o ritual de devoção. Ela contratou uma pessoa para limpar o local periodicamente e, a cada 2 de novembro, cuida da ornamentação do espaço para receber o público. “Tenho ela como se fosse minha filha, ela não conheceu mãe nem pai. Vim ontem e hoje, já gastei mais de R$ 1 mil aqui só comprando material. Mandei pintar ela, e, pela honra e glória do Espírito Santo de Deus, só tenho de agradecer, mais um ano aqui presente”, disse.
Até hoje, a identidade da menina permanece desconhecida. O caso ganhou destaque na edição de 24 de junho de 1970 do Diario de Pernambuco, sob a manchete “Menina de 8 anos foi morta e abandonada em Boa Viagem”. Em 1971, um homem chamado Geraldo Magno de Oliveira chegou a ser preso após confessar o homicídio e foi condenado a 19 anos de prisão, falecendo sob custódia anos depois.
A merendeira Fernanda Andrade, que sai de Abreu e Lima para visitar o túmulo há dez anos, atribui às orações dedicadas à criança a melhora de saúde de familiares. “Meu esposo recebeu um rim, há dez anos, e fazia hemodiálise. Passou uns oito anos, mas graças a Deus e à Menina Sem Nome, ele conseguiu receber o rim dele. Vim aqui com muita fé, graças a Deus, ela me atendeu. Por isso que eu venho aqui, trago os confeitos, trago os brinquedos pra ela”, declarou.
Túmulo de Chico Science também recebe fãs
O Cemitério de Santo Amaro também abriga os restos mortais do cantor e compositor Chico Science, ícone do movimento artístico pernambucano Manguebeat, falecido em 1997, aos 30 anos de idade, vítima de um acidente de carro. Presente no local para prestar homenagens, o autônomo Osvaldo Damião ressaltou a influência do trabalho do artista para o estado.
“Chico Science foi uma pessoa importante para todo mundo, na cultura, em tudo. O meu sobrinho, na época, tocou com ele, participou de alguns shows. E hoje em dia eu me sinto feliz por isso. Sempre, no Dia de Finados, eu estou aqui homenageando, sempre dando uma flor e dizendo a todo mundo que ele foi um herói. Uma pessoa que teve muito respeito por ele, pelas músicas”, disse.
O garçom Pereira Campos vai além nas reverências e, anualmente, visita o local utilizando o visual que se tornou característico de Science, composto pelos óculos escuros e chapéu de palha. “Mais um ano homenageando essa lenda viva que, com sua ciência, teve poder de mostrar para o mundo a força da nossa arte, da nossa cor pernambucana, do nosso som, dos nossos tambores. Chico foi fantástico nessa ideia e, até hoje, é justa a homenagem que eu faço a ele, sem dúvida”, afirmou.
Celebração religiosa fez parte da programação
Ao longo do Dia de Finados, a programação dos cemitérios da Região Metropolitana do Recife contou com missas recorrentes celebradas por padres e bispos. Em Santo Amaro, um dos momentos foi conduzido por Dom Nereudo Freire Henrique, bispo auxiliar da Arquidiocese de Olinda e Recife, que dirigiu palavras de conforto e reflexão ao público presente na capela central.
“Hoje não é um dia de tristeza, é um dia de saudade, pois é um dia também de muita esperança, porque confiamos no Deus da vida. Jesus é o caminho, a verdade e a vida, e assim, confiando Nele, nós cultivamos uma vida marcada pelo amor, pela misericórdia, pelo bem. Então, devotos, devotas, irmãos e irmãs que caminhamos juntos, buscamos com certeza dar um testemunho de que somos criaturas amadas de Deus. A morte não é o fim, mas é a passagem para a vida eterna”, disse o líder religioso em entrevista ao Diario.
A programação na capela do Cemitério de Santo Amaro também contou com celebrações conduzidas pelos padres João Crisóstomo e José Marques, pelo bispo auxiliar Dom Josivaldo Bezerra e pelo arcebispo metropolitano de Olinda e Recife, Dom Paulo Jackson.
Equipes reforçadas para receber o público
O Gerente Geral de Necrópoles da Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb), Luciano Nascimento, afirmou que os cemitérios públicos administrados pela Prefeitura do Recife passaram por uma manutenção às vésperas do Dia de Finados, com pintura de prédios, varrição e outras requalificações pontuais. O gestor também informou que a quantidade de profissionais disponíveis foi reforçada para atender o aumento na demanda.
“Duplicamos a equipe de atendentes, fizemos um atendimento externo, tem um toldo com atendimento externo, porque, na realidade, os sepultamentos acontecem normalmente no cemitério, mesmo no Dia de Finados. Nós temos o atendimento ao público, mas iria ficar muito saturado por conta da quantidade de pessoas. Estamos o ano todo para ajudar as pessoas em serviços de localização de jazigos, de túmulos. Ampliamos os atendimentos de sepultadores e de fiscais para ajudar na orientação”, relatou.
Luciano afirmou ainda que houve reforço na segurança, por meio do aumento das equipes da Guarda Municipal, além do reforço no quadro de funcionários disponíveis para a limpeza urbana nas áreas interna e externa e nas ruas dos arredores do Cemitério de Santo Amaro.
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